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Reale: Alcibíades II, significado
PLATÃO. Alcibiade Primo. Sulla natura dell'uomo. Milano: Bompiani, 2015. E-book.
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O Alcibiades II, apesar de seu conteúdo linear e forma simples, é um dos diálogos socráticos mais difíceis de compreender e avaliar, em razão de preconceitos hermenêuticos nem sempre justificados levantados pelos estudiosos.
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Wilamowitz, em seu célebre Platon (1959, p. 296, nota 1), descartava o diálogo como “completamente insignificante” (ganz unbedeutend) e “sem nada de individual” (nichts Individuelles“).
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Diógenes Laércio (III 57) o elenca entre os diálogos autênticos, mas Ateneu (XI 506 C) atesta que o Alcibiades II “por alguns era dito de Xenofonte”.
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Schleiermacher (trad. fr., 2004, p. 221) rejeita categoricamente a atribuição a Xenofonte, sobretudo pelo estilo, considerando-a uma tese “que sem hesitação deve ser rejeitada por todo filólogo”.
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O diálogo não é de modo algum insignificante ou de conteúdo medíocre, mesmo sendo de autenticidade duvidosa, pois apresenta correspondência exata com os primeiros diálogos platônicos, sobretudo nos conteúdos.
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O autor expõe os traços essenciais do pensamento de Sócrates sem fazer referência, nem mesmo por alusão, a doutrinas propriamente platônicas presentes nos diálogos da maturidade e da velhice.
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Uma suposta composição tardia tornaria o diálogo um fruto inteiramente fora de época, inexplicável tanto do ponto de vista doutrinal quanto do ponto de vista histórico.
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Alfred E. Taylor (trad. it., p. 806) afirmava que a inautenticidade “é demonstrada claramente pelo estilo, por certas imitações do Alcibiades I e por uma clara alusão a um dos 'paradoxos' estoicos, como geralmente se admite desde August Böckh”.
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A tese de que a argumentação do diálogo (138 A-140 D) partiria do paradoxo estoico segundo o qual todos os insensatos são loucos, exceto o sábio, é insustentável a um exame atento do texto.
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Karl Joel (I, p. 554) e Hans Raeder (1905, p. 23) haviam respaldado essa tese, e Taylor (trad. it., p. 807) acrescentava que a polemica contra os estoicos demonstraria que a data de composição não pode ser anterior ao surgimento do estoicismo, ou seja, às primeiras décadas do século III a.C.
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Souilhé (1930, p. 10) refutou categoricamente essa posição: “Longe de admitir, como os Estoicos, que a aphrosynê possa reconduzir-se à mania, o autor do Alcibiades II rejeita, ao contrário, essa assimilação. Ele faz da aphrosynê um gênero generalíssimo que compreende muitas espécies, uma das quais é a mania.”
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O passo em questão inspira-se no método da distinção dos significados dos termos e dos sinônimos, seguindo o método da sinonímia introduzido por Pródico de Ceos, que Sócrates menciona com frequência e Platão invoca diversas vezes.
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O extenso trecho em que Sócrates distingue loucura, insensatez e suas gradações confirma que o raciocínio não parte do paradoxo estoico, mas de uma classificação por gêneros e espécies.
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Sócrates demonstra a Alcibíades que a insensatez é um gênero que comporta toda uma série de graus até os mais tênues: “Chamamos de loucos os homens que possuem a maior parte dela, e, em vez disso, tolos e embotados aqueles que possuem um pouco menos.”
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A comparação com as doenças e com os ofícios artesanais estrutura o argumento: assim como nem toda doença é oftalmia, nem todo artesão é sapateiro, assim nem toda insensatez é loucura.
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Sócrates conclui: “Todas essas são formas de insensatez, mas diferem entre si, assim como uma arte nos resulta diferente de outra arte, e uma doença de outra doença.”
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A invocação de Arcesilao para situar o diálogo nos primeiros decênios do século III a.C. tampouco se sustenta, pois o texto diz precisamente o contrário do que Arcesilao afirmava.
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Taylor continuava seu argumento sustentando que, no tempo de Arcesilao, chefe da Academia de 278 a 241 a.C., a polêmica contra os Estoicos tornou-se a tarefa principal da escola, posição já defendida por Ernst Bickel (1904, pp. 460-479).
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Arcesilao queria demonstrar que a ação moral é possível sem o encontro da Verdade e sem a certeza absoluta, bastando o “razoável” ou “plausível”, com o que demonstrava, com as próprias armas dos Estoicos, serem absurdas as pretensões da moral superior do sábio estoico.
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Souilhé (1930, p. 12) havia compreendido bem o ponto: o autor do diálogo “insiste no fato de que a ignorância é preferível a uma falsa ciência: é quando imagina saber o que não sabe que alguém atrai sobre si os maiores males.”
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A referência a Alexandre Magno como alvo das ambições de tirania descritas no diálogo (141 A-C) é igualmente infundada, pois tais pensamentos recorrem em Platão desde o Teages.
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O passo em questão apresenta Sócrates imaginando que o deus oferecesse a Alcibíades a tirania sobre Atenas, sobre todos os gregos, sobre a Europa e sobre os bárbaros, ao que Alcibíades responde: “Estou convencido, Sócrates, de que qualquer outro faria o mesmo, se lhe ocorressem coisas desse gênero.”
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No Teages (125 D-126 A), Sócrates pergunta a Teages se deseja ter como companheiro alguém que “conhece a tirania”, e Teages responde: “Faria votos, creio, para me tornar tirano, sobretudo de todos os homens, se não, pelo menos da maioria. O quererias também tu, creio, e todos os homens.”
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Jaeger observa que Platão provavelmente possuía “uma boa dose dessa indomável vontade de poder” e que em Cálicles “soube captar uma parte de si mesmo” (ed. Bompiani, p. 992), e Kurt Hildebrandt acrescenta que “Cálicles pode falar assim porque Platão descreve nele, em seu mundo autêntico, sua própria tentação” (trad. it., p. 160).
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As conclusões hermenêuticas sobre o debate de autenticidade apontam para a dificuldade simétrica de provar tanto a autenticidade quanto a inautenticidade do diálogo de modo incontrovertível.
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No século passado, apenas Manfred Forderer (1960, pp. 25 ss.), citado por Erler (2007, p. 294), defendeu a autenticidade do diálogo; Reale se inclina pela mesma posição, ainda que em caráter hipotético e com algumas dúvidas.
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Diógenes Laércio (III 57) o apresenta entre as obras autênticas, e a opinião de que seria de Xenofonte é isolada e foi rejeitada pelos estudiosos modernos.
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A correta compreensão do Alcibiades II, como demonstrou Gadamer, só é possível sem convicções preconcebidas que condicionem radicalmente o ponto de vista hermenêutico.
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Vários argumentos utilizados para negar a autenticidade revelam-se insuficientes ou internamente contraditórios quando examinados sem o preconceito da inautenticidade.
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A constatação de que muitas passagens derivam de outros diálogos, como o Alcibiades I e as Leis, pode ser invertida: tais passagens poderiam ser antecipações do que é desenvolvido de modo mais amplo em diálogos posteriores.
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O personagem Alcibíades, ainda que “demasiado evanescente” e pouco caracterizado (Arrighetti, 2012, p. 28), representa não tanto um retrato do personagem real quanto uma recriação imaginária: no relacionamento de Alcibíades com Sócrates, Platão via o relacionamento ideal do mestre com um jovem particularmente dotado, prefigurando de algum modo sua relação com Díon.
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Estudiosos que negam a autenticidade do diálogo mas o estudaram em profundidade chegam a conclusões que, de fato, aproximam-no dos primeiros escritos platônicos.
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Souilhé (1930, p. 13) reconhece que “a própria estrutura do pequeno diálogo, em que se sucedem todas as variedades de composição, discurso consecutivo, comentário a poetas, discussão dialética de andamento caprichoso e às vezes paradoxal, lembra de perto o modo dos primeiros escritos platônicos.”
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Arrighetti (2012, p. 29) conclui que quem compôs o diálogo “não só tinha um perfeito conhecimento da obra platônica, mas não pretendia acrescentar ou modificar coisa alguma dela”, e que talvez seu objetivo fosse apenas demonstrar que um elemento secundário presente no Alcibiades I, a suposta prece de Alcibíades, era suscetível de desenvolvimento autônomo em obra específica.
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Se o Alcibiades II lembra tão de perto os primeiros diálogos platônicos, sua composição não pode ser situada em época helenística; em todo caso, deve ser lido junto aos primeiros diálogos de Platão como testemunho significativo do pensamento de Sócrates.
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