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Reale: Alcibíades II, conceitos

PLATÃO. Alcibiade Primo. Sulla natura dell'uomo. Milano: Bompiani, 2015. E-book.

  • O Alcibiades II apresenta uma grade quase completa dos conceitos-chave do pensamento de Sócrates, distribuídos ao longo de toda a argumentação do diálogo.
    • A ignorância é apresentada como causa de todos os males.
    • O conhecimento do melhor, ou seja, do Bem, é a ciência suprema para o homem, que lhe permite fazer e dizer o que é preciso.
    • A tese de que todas as outras ciências particulares são de escassa importância se não acompanhadas pela ciência do Bem é apresentada expressamente como coisa nova e desconcertante.
  • O Cármides exprime com clareza a mesma tese central do Alcibiades II sobre a superioridade da ciência do bem sobre todas as demais ciências, em um trecho de Sócrates a Crítias.
    • “Não o viver segundo a ciência nos permite agir bem e ser felizes, nem o viver segundo todas as outras ciências, mas é somente o viver segundo esta ciência, que é única, e que é a do bem e do mal.”
    • “Se tu queres retirar esta ciência de todas as outras ciências, talvez a medicina seja menos capaz de fazer curar, a arte do sapateiro de fabricar calçados, e assim a do tear e do fazer vestidos, a arte do timoneiro será menos capaz de nos impedir de morrer no mar e a estratégia na guerra.”
    • “Mas, caro Crítias, se esta viesse a faltar, ficaria excluída para nós a possibilidade de que cada uma dessas coisas seja conduzida bem e com vantagem.”
  • A ciência do melhor é também “a ciência do útil” [145 C], mas o útil para Sócrates coincide com o melhor, ou seja, com o Bem, e é entendido em sentido não material mas predominantemente espiritual.
    • Essa tese é frequentemente mal compreendida por ser considerada uma forma de utilitarismo no sentido codificado pela moderna filosofia anglossaxônica.
    • O Mênon resolve o problema com clareza: “Se a virtude é algo que está na alma e algo de necessariamente útil, ela deve ser inteligência, dado que todas as coisas relativas à alma em si e por si não são nem proveitosas nem prejudiciais, mas, conforme se acrescente inteligência ou insensatez, tornam-se proveitosas ou prejudiciais.”
    • Sócrates conclui no Mênon: “Para o homem, todas as coisas dependem da alma; as coisas relativas à própria alma dependem do conhecimento, se devem ser boas. Com base neste raciocínio, o conhecimento viria a ser o que é útil.”
  • No final do Alcibiades II faz-se referência ao verdadeiro mestre como aquele que cuida do discípulo, removendo a névoa de sua alma, ou seja, as convicções equivocadas, ajudando-o a “conhecer o bem e o mal”.
    • A tese socrática de que o verdadeiro homem é sua alma emerge com clareza no passo em que se diz que os deuses olham muito mais do que às cerimônias e sacrifícios em sua honra “para a alma, para ver se alguém é piedoso e justo” [149 E].
    • Sócrates diz a Alcibíades: “É necessário que esperes, até que tenhas aprendido como é preciso comportar-se com os deuses e com os homens.”
    • A confutação dos erros que vitimam Alcibíades é apresentada como uma operação que deve prosseguir também no futuro, “para remover a névoa da alma” [150 E].
  • A ironia tem papel no diálogo, ainda que de maneira bastante contida, manifestando-se sobretudo no passo em que Sócrates atribui ao próprio Alcibíades a responsabilidade pelo embaraço dialético.
    • Sócrates diz a Alcibíades [147 E-148 A]: “Vês, com efeito, quão grande é a dificuldade e de que tipo é, e dela me parece que também tu estás envolvido. Giras para cima e para baixo, sem nunca parar, e o que parecia certo, isso, por sua vez, rejeitas, e não te parece mais do mesmo modo.”
    • Imagem irônica análoga se encontra no Cármides [174 B-C], onde Sócrates faz Crítias girar em círculos e ironicamente diz que é o próprio Crítias quem faz isso: “Desgraçado, disse eu, há muito tempo me fazes girar em torno, escondendo-me que não o viver segundo a ciência nos permite agir bem e ser felizes.”
    • Citando um verso do Margites atribuído a Homero, Sócrates comenta com ironia requintada [147 B-D]: “Este poeta fala por enigmas, como quase todos os outros. Com efeito, toda a poesia é por natureza enigmática, e o primeiro que aparece não consegue compreendê-la.”
  • A dialética elênctica no Alcibiades II é apresentada como um “buscar juntos para encontrar a verdade”, expressamente declarada por Sócrates ao encorajar Alcibíades em dificuldade: “buscando juntos em dois, talvez encontremos” [140 A].
    • Todo o diálogo procede por perguntas e respostas, e com esse método Sócrates coloca Alcibíades progressivamente no caminho certo, refutando pontualmente suas respostas.
    • Os conceitos do Alcibiades II sobre a interpretação dos poetas concordam perfeitamente com o que se diz no Hípias Menor [369 D-372 A] e no Protágoras [338 E-347 A].
    • A expressão “todos os que chamamos médicos” [140 B], ao apresentar as diferenças entre as várias doenças, contém, segundo Donatella Puliga (2012, p. 173, nota 4), “uma veia polêmica: Sócrates quer provavelmente significar que a autêntica iatreía, a verdadeira arte da medicina, é a que cuida da alma, e que ele mesmo pratica.”
  • Xenofonte relata nas Memoráveis (I 3, 2-4) o pensamento de Sócrates sobre a prece aos deuses, que coincide com o que se lê no Alcibiades II e constitui documento essencial para um possível resgate da autenticidade do diálogo.
    • “E orava aos deuses que lhe concedessem simplesmente o bem, pois considerava que os deuses sabem muito bem o que é bom; pensava que os que oram para ter ouro, ou prata, ou um poder tirânico ou outras coisas similares não agem diferentemente de quem orasse para os dados, para uma batalha ou para alguma outra coisa que é evidentemente incerto como possa terminar.”
    • “Dizia, com efeito, que não seria belo da parte dos deuses apreciar mais os grandes sacrifícios do que os pequenos (pois, frequentemente, acabariam por lhes ser mais gratos as oferendas dos maus do que as dos bons), e que para os homens não valeria a pena viver, se aos deuses fossem mais gratos os sacrifícios dos malvados do que os dos bons.”
    • Taylor (trad. it., p. 806, nota 18) observa: “Isto explica talvez por que o diálogo foi por alguns atribuído a Xenofonte (Ateneu, 506 E), embora não tenha nenhuma afinidade com seu estilo.”
  • Platão retomou em parte essas ideias de Sócrates nas Leis e no Eutifron, e esses textos, longe de ser a fonte da qual o autor do Alcibiades II teria bebido, podem corretamente ser considerados uma retomada do que é dito no diálogo.
    • Nas Leis (VII 801 A-B): “Os autores dos textos dos cantos sagrados não devem esquecer que estes últimos, enquanto preces, são pedidos dirigidos aos deuses. É preciso, portanto, que mostrem ter bastante senso para não pedir inadvertidamente um mal por um bem.”
    • Nas Leis (888 C-D): “Encontrei alguns que atribuíram aos deuses estes dois caracteres: ou que eles, apesar de existir, não se ocupam das coisas humanas; ou que, apesar de se ocuparem delas, são facilmente aplacáveis com sacrifícios e preces.”
    • No Eutifron [14 C-15 B] a mesma tese é expressa de modo detalhado: dirigir-se aos deuses com dons e sacrifícios para obter o que se pede significa reduzir a prece a uma forma de comércio entre homens e deuses, ou seja, um dar para receber.
  • A prece final do Fedro é considerada há muito tempo a mais bela prece escrita por um filósofo pagão, e suas quatro petições revelam o núcleo do ideal filosófico platônico.
    • “Ó querido Pã, e vós outros deuses que estais neste lugar! 1) Concedei-me tornar-me belo por dentro. 2) E que todas as coisas que tenho por fora estejam em acordo com as que tenho dentro! 3) Que eu possa considerar rico o sábio. 4) E que possa ter uma quantidade de ouro que nenhum outro poderia tomar e levar consigo, a não ser o temperante!” [279 B-C]
    • As primeiras duas petições dizem respeito ao interior e ao exterior e sua justa relação; as duas últimas concentram-se no que constitui a verdadeira riqueza.
    • Herder, em sua Kalligone de 1800, escreveu: “Sempre, ó amigos, seu diálogo com Fedro deve permanecer para nós caro, o plátano ao longo do Ilisso sob o qual o diálogo se desenrola deve permanecer um lugar sagrado e a prece de Sócrates à conclusão do diálogo deve permanecer nossa prece.”
  • A quarta petição da prece do Fedro, a mais especificamente platônica, foi por longo tempo mal compreendida: o “ouro” não é o ouro material, mas imagem metafórica que indica a própria sabedoria.
    • A expressão “tomar e levar consigo” corresponde no grego original à fórmula de “fazer o maior butim possível”, indicando não um mínimo mas um máximo.
    • Konrad Gaiser, primeiro estudioso a dar a interpretação correta dessa petição, escreve: “Com a prece da 'quantidade' de sabedoria que nenhum outro além do 'temperante' é capaz de conquistar, o filósofo não expressa somente o desejo de ter apenas uma parte modesta, mas deseja a máxima quantidade que o homem possa alcançar: deseja a aproximação à sabedoria 'divina' na maior medida possível.”
    • Eros é filo-sofo, ou seja, aquele buscador do belo-bom-verdadeiro, nunca privado de sabedoria, mas tampouco nunca saciado, sempre em busca de maior posse dela, sabendo que pode ter sempre mais, mas nunca todo o ouro da sabedoria.
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