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Belo e Bem
PLATON. Le banquet. Tradução: Luc Brisson. 5e éd. corrigée et mise à jour ed. Paris: Flammarion, 2007.
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Na última parte de seu discurso, Diotima estabelece a correspondência entre o belo e o bem — “Para ti, as coisas boas não são ao mesmo tempo belas?” — e dela extrai a consequência de que os felizes são aqueles que possuem as coisas boas e belas.
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Diotima desenvolve uma argumentação que define o amor como o desejo de ser feliz, isto é, de possuir para sempre o belo e portanto o bem, conclusão provisória que será superada.
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Diante da incapacidade de Sócrates de responder à pergunta sobre o tipo de existência e de atividade dos que perseguem esse fim, Diotima avança uma nova argumentação mostrando que a imortalidade só pode ser obtida por intermédio da procriação e do parto.
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Isso vale no plano do corpo, para as espécies no mundo animal e humano, mas também para os indivíduos no plano da alma: ao contemplar a Beleza inteligível — que desempenha o papel de Moira e de Ilítia, divindades que presidem ao parto —, a alma pode produzir os filhos que são os belos discursos, poemas, códigos de lei ou discursos sobre a virtude e o saber, assegurando sua imortalidade.
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Essa tripartição dos discursos se assemelha à que se encontra no final do Fedro.
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O Belo é provavelmente a noção platônica de campo de extensão mais vasto — há objetos belos, corpos belos, ações belas, almas belas e mesmo um belo inteligível —, e é o amor que leva a desejar e a descobrir tudo isso, amor mediano e mediador do qual Sócrates é de certo modo a encarnação.
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Diotima descreve o movimento de ascensão ao qual Eros impele: “Esta é portanto a reta via que se deve seguir no domínio das coisas do amor ou pela qual se deve deixar conduzir por outro: é, partindo das belezas daqui de baixo para ir em direção àquela beleza, elevar-se sempre, como por meio de degraus, passando de um único belo corpo a dois, de dois belos corpos a todos os belos corpos, dos belos corpos às belas ocupações, das ocupações para os belos conhecimentos que são certos, e dos belos conhecimentos certos para aquele conhecimento que constitui o termo, que não é outro senão a ciência do belo em si, com o objetivo de conhecer finalmente a beleza em si”.
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Diotima conclui: “É neste ponto da vida, meu caro Sócrates, mais do que em qualquer outro, que se situa o momento em que, para o ser humano, a vida vale a pena ser vivida, porque ele contempla a beleza em si mesma”.
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Essa conclusão corresponde à justificação de sua ação por Sócrates na Apologia: somente a prática da filosofia faz que a vida valha a pena ser vivida.
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Na Apologia, a vida que se submete ao exame se basta a si mesma e merece em si mesma ser vivida; no Banquete, o que faz a vida merecer ser vivida é a possibilidade de contemplar as Formas — exemplo concreto de como a hipótese da existência das Formas leva Platão a reinterpretar uma doutrina ou expressão anteriormente empregada num contexto em que as Formas estavam ausentes.
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A intervenção do amor como meio de acesso ao Belo apresenta interesse particular no contexto da filosofia platônica: trata-se da única paixão que pode ter por objeto ao mesmo tempo o sensível e o inteligível, para o qual constitui um meio de acesso incomparável.
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O filósofo encontra aí sua verdadeira definição: é o amante por excelência.
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A potência de Eros, encarnando-se na figura de Sócrates em particular e na do filósofo em geral, aparece como o mediador por excelência que, unindo corpos e almas e fazendo comunicar o sensível com o inteligível, conduz em direção à beleza ela mesma — a qual permite acessar a imortalidade ao favorecer o engendramento dos belos discursos sobre o verdadeiro e o bem, cuja posse perpétua abre o caminho à felicidade verdadeira.
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