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Patrício de Azcárate
Introdução (resumo)
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O Cármides é um diálogo de estrutura simples e objetivo direto, sem a complexidade dos grandes diálogos platônicos.
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Sócrates, recém-chegado de Potideia, entra na palestra de Taureas e reencontra Querefonte, Crítias e outros amigos.
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Informa-os sobre o exército e pergunta como está a filosofia, quando lhe é apresentado Cármides, que era criança quando partiu e agora é um jovem formado e de beleza admirável.
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Cármides, tido como belo e sábio, é interrogado sobre o que é a sabedoria e oferece três definições sucessivamente refutadas por Sócrates.
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A mesura é descartada porque a sabedoria é inseparável da beleza, e andar, ler, aprender, tocar lira, lutar e deliberar com lentidão não é belo.
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O pudor é afastado porque a sabedoria é sempre boa, ao passo que o pudor é às vezes mau – como atesta o verso de Homero: o pudor não cuadra ao indigente.
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Fazer o que é próprio de cada um é rejeitado porque seria loucura exigir que cada um escrevesse apenas seu próprio nome, tecesse sua roupa, remendasse seu calçado e lavasse sua camisa sem fazer nada por ninguém nem receber nada de ninguém.
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Crítias intervém impaciente e, após uma distinção sutil, substitui a fórmula fazer o que é próprio por fazer o bem, sendo também derrotado por Sócrates.
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Crítias tenta escapar das sutilezas de Sócrates valendo-se de uma distinção entre fazer uma coisa e trabalhar em uma coisa.
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É conduzido, quase sem perceber, a propor que a sabedoria é fazer o bem.
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Sócrates replica perguntando se agir às cegas é ser sábio, e Crítias exclama que a sabedoria é verdadeiramente a ciência de si mesmo, invocando o Deus de Delfos como testemunha dessa compreensão.
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A segunda metade do diálogo é dominada por uma longa discussão sofística em que Sócrates demonstra que a ciência de si mesmo é impossível e inútil.
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A ciência de si mesmo seria uma ciência em que o sujeito que sabe se confunde com o objeto sabido, tornando-se ciência da ciência e da ignorância – concepção essencialmente contraditória.
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Seria como admitir uma vista da vista que não vê nada colorido, um ouvido do ouvido que não ouve nada sonoro, um sentido dos sentidos que não sente nada sensível, um desejo que não deseja o prazer, uma vontade que não quer nenhum bem, um amor que não ama nenhuma beleza, um temor que não teme nenhum perigo, uma opinião que não é opinião de nada.
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A própria estrutura lógica de tal ciência seria absurda: ela deveria referir-se exclusivamente a si mesma como sujeito e universalmente a todas as coisas como objeto, sendo ao mesmo tempo mais e menos do que ela mesma.
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Mesmo admitida como possível, a ciência de si mesmo seria inútil porque não ensina o que se sabe nem o que os outros sabem, mas apenas que se sabe ou não se sabe algo.
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O conhecimento verdadeiramente vantajoso seria aquele que permitisse fazer precisamente o que se é capaz de fazer, confiando o restante aos entendidos.
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Ainda que a ciência da ciência e da ignorância ensinasse o que se sabe e o que os outros sabem, isso não bastaria para contribuir à felicidade – privilégio exclusivo da ciência do bem e do mal.
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O verdadeiro objetivo do Cármides não é definir a sabedoria, mas convencer Cármides – e os jovens em geral – de que não são tão instruídos quanto creem, despertando neles o desejo salutar de buscar a verdade.
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O método de Sócrates compreende a ironia como arma contra os sofistas e a arte de nutrir o espírito dos jovens, arte esta composta de duas partes distintas: conduzir à dúvida pela refutação e conduzir ao conhecimento pela indução.
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O erro geral da juventude – e em especial da juventude ateniense corrompida pelos sofistas – é contentar-se com semiverdades e crer conhecer o que não conhece; o primeiro esforço socrático é criar a convicção de que não se sabe nada, condição sem a qual não é possível aprender verdadeiramente.
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O diálogo tem méritos reais, mas também defeitos que merecem ser apontados com franqueza, segundo o juízo crítico aqui exposto.
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Não é defeito a ausência de conclusão, pois despertar nos leitores jovens a desconfiança de si mesmos já é conclusão suficiente e condição de todo exame e investigação sérios.
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Os defeitos reais são: abusar do duplo sentido das palavras; refutar coisas que não merecem refutação e outras que não deveriam ser refutadas; refutar de modo superficial e aparente, sem ir ao fundo de nada.
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O maior reproche é ter acumulado uma nuvem de sutilezas sobre a ciência da alma, que é a ciência por excelência – jogo inútil que arrisca comprometer sem motivo uma verdade capital cara à escola socrática e a todos os verdadeiros filósofos, como bem observou o senhor Cousin.
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A inferioridade relativa do Cármides não o torna indigno de Platão nem prova que não seja de sua autoria.
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A águia nem sempre paira sobre as nuvens: às vezes repousa nos cumes de um rochedo ou desce à planície.
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Nem todas as obras de um mestre são necessariamente obras magistrais, e nada impede que Platão tenha escrito, como por distensão, um diálogo de menor mérito.
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