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Benjamin Jowett

Veja também: Coletânea de excertos da obra completa de Platão, na tradução de Jowett, indexados por termos relevantes

Introdução (resumo)

  • A perplexidade em torno do “Crátilo” de Platão e suas causas
    • A obra combina fantasia, humor, perfeição estilística e originalidade metafísica, mas seu propósito central permanece incerto para os intérpretes.
    • A obscuridade decorre da sutileza e da natureza alusiva da composição satírica em forma de diálogo, aliada à dificuldade de reconstituir o contexto intelectual e literário da época.
    • A compreensão plena exigiria familiaridade com as especulações filológicas de contemporâneos como Antístenes e Crátilo, ou com o ensino de sofistas como Pródico, cujos cursos de cinquenta dracmas eram referência em gramática e retórica.
  • As três teorias sobre a origem e a correção dos nomes personificadas no diálogo
    • Hermogenes, irmão de Cálias, defende a visão convencionalista, segundo a qual os nomes são corretos por convenção e podem ser alterados a critério do usuário, como os nomes de escravos.
    • Crátilo, filósofo heracleitano, sustenta o naturalismo radical: um nome ou é uma expressão perfeita da coisa, ou não é um nome verdadeiro, posição que o leva a negar a possibilidade da falsidade.
    • Sócrates, com sua postura irônica de quem nada sabe, articula uma posição conciliatória: a linguagem é tanto convencional quanto natural, sendo o nome verdadeiro aquele que possui um significado natural, aperfeiçoado pela arte do legislador sob a orientação do dialético.
  • O método e o caráter da investigação socrática sobre a correção dos nomes
    • Sócrates examina a correção dos nomes pela analogia com as artes, argumentando que nomear é uma ação que requer um instrumento adequado (o nome) e um artífice especializado (o legislador), cujo trabalho é avaliado por quem o utiliza (o dialético).
    • A longa seção de etimologias extravagantes, apresentada como uma inspiração recebida de Eutífron, funciona como uma sátira às fantasias filológicas da época e à pretensão de derivar filosofia das palavras.
    • O método de análise prossegue com a investigação dos elementos primários da linguagem, as letras, às quais Sócrates atribui significados imitativos (como ρ para movimento, λ para lisura, δ e τ para repouso), estabelecendo uma teoria onomatopaica.
  • A crítica final à teoria do fluxo universal e a primazia das coisas sobre os nomes
    • Sócrates demonstra que a linguagem não é consistente com uma única filosofia, pois há tantos nomes que sugerem repouso quanto aqueles que sugerem movimento, invalidando o argumento heracleitano de Crátilo.
    • O conhecimento não pode ser derivado dos nomes, pois quem primeiro os deu poderia ter uma concepção errônea; a consistência interna não é prova de verdade, e uma investigação séria deve se ater às coisas em si, não às palavras.
    • A conclusão rejeita a confiança exclusiva na linguagem, afirmando que um homem de senso não confiará sua alma aos nomes nem aceitará a doutrina de que todas as coisas estão em fluxo, preferindo buscar a verdade na realidade estável do belo e do bom em si.
  • Antecipações platônicas e perspectivas modernas sobre a filosofia da linguagem
    • Platão antecipa princípios fundamentais da filologia ao reconhecer que a linguagem não é obra do acaso nem pura convenção, mas um produto da inteligência humana que combina imitação, arte e um elemento convencional suplementar.
    • Sua análise dos elementos primários (letras) e sua distinção entre palavras simples e compostas revelam uma notável intuição sobre a natureza imitativa e simbólica do som na formação do sentido.
    • A visão platônica, expressa por Sócrates, supera tanto o nominalismo de Hermógenes quanto o realismo ingênuo de Crátilo, antecipando a posição conceitualista que situa a linguagem na interseção entre natureza, arte e convenção.
  • Reflexões sobre a natureza orgânica, o crescimento e as leis da linguagem
    • A linguagem não é uma invenção consciente, mas um organismo que cresce, impulsionada por princípios como a imitação, a analogia e a onomatopeia, que atuam de forma inconsciente, especialmente nos estágios iniciais de formação das línguas.
    • A analogia é o princípio ordenador que introduz proporção e relações na matéria informe da imitação vocal, estabelecendo padrões de formação de palavras e regras sintáticas que, embora sujeitas a exceções, revelam uma uniformidade subjacente.
    • A onomatopeia, como princípio formativo, não se limita à imitação bruta em palavras isoladas, mas evolui para uma harmonia superior em que a cadência, o ritmo e a disposição das palavras na frase ecoam o sentido, especialmente na poesia.
  • A influência da literatura, da escrita e dos grandes autores na fixação e evolução das línguas
    • A fixação de uma língua ocorre por meio de sua incorporação em textos sagrados, poemas ou leis que são repetidos com precisão, ou, mais determinantemente, pela adoção da escrita e, posteriormente, da impressão, que promovem a uniformidade gramatical e ortográfica.
    • Grandes obras, como a Bíblia de Lutero ou a tradução inglesa autorizada, e autores clássicos como Shakespeare e Milton, difundem novas formas de expressão e estabelecem um padrão linguístico que se imprime na memória de uma nação.
    • As línguas modernas, como o inglês e o francês, embora tenham perdido inflexões, alcançaram um alto grau de clareza, precisão e liberdade de tautologia, beneficiando-se de uma estrutura que favorece a conexão lógica e a distribuição do pensamento em parágrafos.
  • O lugar do “Crátilo” na obra de Platão e sua interpretação como drama do argumento
    • O diálogo situa-se entre os primeiros escritos de Platão, partilhando do humor e da ironia presentes no “Eutidemo” e no “Fedro”, onde Sócrates ainda não está completamente “platonizado” e a teoria das ideias aparece de forma incipiente.
    • A obra não deve ser lida como um tratado doutrinário, mas como um esboço dramático de um argumento, onde as três posições sobre a linguagem são personificadas sem que uma delas seja declarada vitoriosa de forma dogmática.
    • A análise das etimologias serve a múltiplos propósitos: satirizar os eruditos contemporâneos, ilustrar princípios filológicos através de exemplos errôneos e manter a coerência com a persona de Sócrates, que, em sua ignorância professada, apenas conjectura sobre a verdade.
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