66a-67b — Diante das dificuldades da vida corpórea
O sábio, sua ânsia por possuir a verdade (e o pressentimento extraordinário que daí resulta)
«É bem possível que exista uma espécie de caminho que nos conduza, se na busca nos acompanhar este pensamento: enquanto tivermos nosso corpo, enquanto nossa alma estiver impregnada de tal maldade, jamais possuiremos como convém o objeto que desejamos; e declaramos que isso é a verdade.
O corpo, de fato, ocupa de mil maneiras nossa atividade no que diz respeito à obrigação de sustentá-lo; sem contar que, se surgem doenças, elas são obstáculos à nossa busca pelo real. Por outro lado, eis os amores, os desejos, os medos, as aparências de todo tipo, as bobagens sem número: de tudo isso ele nos enche tão bem que, para falar francamente, não faz nascer em nós o pensamento real de nada. De fato, guerras, dissensões, batalhas, nada mais nos vale tudo isso a não ser o corpo e seus desejos; pois é por causa da posse de riquezas que se produzem todas as guerras, e, se somos obrigados a possuir riquezas, é por causa do corpo, escravos prontos a servi-lo!
É dele também que, por causa de tudo isso, provém nossa preguiça de filosofar; mas o que é o cúmulo absoluto é que, mesmo quando nos é concedido, por parte dele, algum descanso e nos voltamos para o exame reflexivo de alguma questão, ele então, por sua vez, surge inesperadamente em meio às nossas investigações, produzindo tumulto e perturbação, atordoando-nos a ponto de nos tornar incapazes de perceber o verdadeiro. Ora bem! Pelo contrário, é para nós algo comprovado que, se alguma vez quisermos ter um conhecimento puro de qualquer coisa, precisamos nos separar dela e, com a alma em si mesma, contemplar as coisas em si mesmas. É nesse momento, ao que parece, que nos pertencerá aquilo que desejamos, aquilo de que declaramos estar apaixonados: o pensamento, isto é, tal é o sentido do argumento, quando tivermos falecido, mas não enquanto vivemos!
Se não é possível, de fato, conhecer nada de forma pura, com a intervenção do corpo, uma de duas coisas: ou de modo algum nos é possível adquirir o conhecimento, ou isso nos é possível uma vez que tenhamos falecido; pois é então que a alma existirá em si mesma e por si mesma, separada do corpo, mas não antes disso!
Além disso, enquanto vivemos, o meio, ao que parece, de nos aproximarmos mais do conhecimento é ter o mínimo possível de contato com o corpo, não nos associarmos a ele a menos que haja necessidade radical, nem nos deixarmos contaminar pela natureza deste, mas, pelo contrário, nos purificarmos dele, até o dia em que a própria Divindade nos tenha libertado. Assim, eis-nos puros, separados da loucura do corpo, chamados então — é provável — a estar em companhia de realidades análogas, e é por nós mesmos que conheceremos o que-é-sem-mistura… Eis, creio eu, que tipo de linguagem os amigos do saber, no sentido estrito do termo, necessariamente manteriam entre si, qual seria necessariamente a sua crença. Não pensas o mesmo? »
(Phédon, 66-67b)
