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6. Epílogo

MARGEL, Serge. Le tombeau du dieu artisan: sur Platon. Paris: Éd. de Minuit, 1995.

— Antes mesmo da pergunta “por que existe algo em vez de nada?”, dizíamos nós. Então, o que é? Não o nada — khôra não é o nada —, mas nada que seja objeto, tema ou conteúdo de um conhecimento, de um julgamento ou mesmo de um pensamento determinante (“isto é aquilo”). O futuro da promessa, do que talvez venha a ser ou, melhor dizendo, venha a acontecer, isso não poderá mais ser. Isso não poderá mais ser uma modificação do presente — do verbo ser.

E isso em razão de um paradoxo último ou de uma última figura da anacronia paradoxal ou paradoxopoética em geral. Sem dúvida, para prometer, é preciso saber seriamente, antes de tudo, o que está sendo prometido. Por quem e a quem — e o que queremos dizer e saber quando dizemos “prometemos”. O saber e a seriedade, a presença em si da consciência intencional como tal pertencem, sem dúvida, à essência do prometer. Mas se o prometido da promessa (incluindo o sentido, o sujeito e o objeto do ato de prometer, que fazem parte do conteúdo prometido) é absolutamente conhecido, determinado, presentificado ou apresentável, se já tem até um nome adequado, não há mais promessa, há apenas cálculo, programa, antecipação, providência, previsão, prognóstico: tudo já terá acontecido, tudo está antes, repetido antecipadamente. Como aquilo que é, a saber (talvez tivesse dito um certo Aristóteles) como aquilo que terá sido ou aquilo que terá sido destinado a ser: to ti hen einai. Conjugamos aqui apenas o futuro anterior. Arruinando a aposta, essa antecessão do “antes” põe em risco a proposição da promessa — que, no entanto, ela abre e põe em prática. Anterior à promessa, anterior ao cálculo operacional do operário, ela assombra o próprio avanço em um trabalho de luto que teria começado na véspera de tudo. Haveria, portanto, anteriormente dois avanços do “antes”, uma antecipação que vê chegar e uma precipitação que já não vê chegar. A precipitação de que falamos aqui não é uma cegueira ou uma imprudência empíricas. Heterogênea ao cálculo, ela deixa vir ou faz vir com a condição — e essa é a condição do evento — de não ver mais vir, com a condição de transbordar o ver ou o saber, de ultrapassá-los em velocidade justamente onde eles continuam sendo exigidos. Para que haja promessa, é preciso que nada a transborde nem a negue, assegurando-lhe uma garantia, um seguro provisório sobre a vida, uma mútua, uma previdência social ou comunitária, a probabilidade calculável de um prognóstico: absolutamente nada no horizonte, nem o deus, nem o homem, nem o mundo, nem o ser. Para que tudo dependa dela e nela esteja inscrito sem saber, é preciso que os nomes «nós» faltem. São necessários os nomes, é preciso que os nomes falhem, mas essa falha não deve ser a negatividade de uma falta22. Ela não deve nada, aliás, não deveria, não deveria dever.

Templo ou mausoléu indecifrável, túmulo da própria promessa, risco do cenotáfio como desafio: a sorte corrida. Pois esses nomes que nos faltam, não sabemos se estão ausentes porque enterrados além de uma determinada lembrança ou mais distantes do que qualquer futuro determinado. Não precisamos saber isso para que uma promessa, se é que alguma vez houve, venha a ver a luz do dia.

— Então, se bem entendi, para que ela permaneça sã e salva, imune a qualquer ameaça. Mas se essa pureza estivesse garantida, também não haveria promessa, dizíamos nós. Para que uma promessa continue sendo promessa, não é preciso que ela corra o risco, esse é seu tormento, de se perverter em ameaça de forma contínua, incessante, numa iminência interminável? Não apenas que ela ameace permanecer insustentável, mas que ameace tornar-se ameaçadora?

— De qualquer forma, o estar-aí desses nomes deve permanecer como aquilo que falha na promessa. E, no entanto, não carece de nada.

Hipótese absoluta, portanto: se o nome de khôra ainda é a primeira ou a última palavra do Timeo, talvez seja porque representa um dos nomes para (aquilo) que a tudo isso deu origem e dará origem, certamente, com a hospitalidade atenciosa e capaz de um “receptáculo” (δεχόμενον), ou seja, de (aquilo) que sabe receber. Mas receber e dar origem sem nada dar, impassivelmente: além de toda generosidade natural, sem despesas e sem custos, sem prometer ou se prometer nada, apenas receber e se apagar para dar apenas para receber. — Apenas para receber em vez de tudo.

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