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platao:varia:demiurgo

Deus demiurgo

Timeu 29d-31a

Vamos agora explicar por que razão aquele que criou o devir, ou seja, o nosso universo, o criou. Ele era bom; ora, no que é bom, não se encontra inveja em relação a ninguém. Desprovido de inveja, ele desejou que todas as coisas se tornassem o mais semelhantes possível a ele. Eis, portanto, qual é precisamente o princípio absolutamente primeiro do devir, ou seja, do mundo; ao aceitá-lo com base na fé de homens sensatos, não poderíamos aceitar princípio mais correto. Como o deus desejava que todas as coisas fossem boas e que não houvesse nada de imperfeito, na medida do possível, foi assim que ele tomou nas mãos tudo o que havia de visível — isso não estava em repouso, mas se movia sem concertação e sem ordem — e o conduziu da desordem à ordem, tendo considerado que a ordem vale infinitamente mais do que a desordem. Ora, não era permitido, e não é, ao ser melhor fazer outra coisa senão o que há de mais belo. Tendo refletido, ele percebeu que, das coisas visíveis por natureza, seu trabalho jamais poderia produzir um todo desprovido de intelecto que fosse mais belo do que um todo dotado de intelecto e que, além disso, era impossível que o intelecto estivesse presente em algo desprovido de alma. Foi na sequência dessas reflexões que ele colocou o intelecto na alma e a alma no corpo, para construir o universo, de modo a realizar uma obra que fosse, por natureza, a mais bela e a melhor possível. Assim, de acordo com uma explicação que é apenas plausível, é preciso dizer que nosso mundo, que é um ser vivo dotado de uma alma provida de intelecto, foi, na verdade, gerado em consequência da decisão ponderada de um deus.

[…] Devemos agora falar do que se segue imediatamente. À semelhança de qual ser vivo em particular aquele que moldou o mundo o moldou? À semelhança de nenhum desses seres vivos que ocupam o lugar de espécie particular na natureza, estimamos, pois nada do que se assemelha a um ser incompleto jamais poderia ser belo. Mas o conjunto ao qual pertencem todos os outros seres vivos como partes, seja individualmente, seja como espécie, eis, entre todos os seres vivos, supomos, aquele a quem este mais se assemelha. De fato, todos os seres vivos inteligíveis, este ser vivo os mantém envolvidos em si mesmo, da mesma forma que nosso mundo nos contém a nós e a todas as outras criaturas visíveis. Pois, como foi precisamente ao mais belo dos seres inteligíveis, isto é, a um ser perfeito entre todos, que o deus desejou fazê-lo assemelhar-se, ele moldou um ser vivo único, visível, tendo em seu interior todos os seres vivos que lhe são aparentados por natureza.

Ora, tivemos razão em afirmar que o céu é único, ou teria sido mais correto dizer que há vários e até mesmo uma infinidade? Devemos dizer que ele é único, uma vez que o demiurgo o criou segundo esse modelo. De fato, aquilo que envolve tudo o que há de seres vivos inteligíveis jamais poderia vir em segundo lugar, atrás de outro. Pois seria necessário ainda outro ser vivo que envolvesse os dois anteriores, e dos quais esses dois fossem cada um uma parte; e não seria mais a esses dois, mas àquele que os envolve que nosso mundo se assemelharia, seria mais justo dizer. Foi, portanto, para que nosso mundo se assemelhasse, por sua unicidade, ao ser vivo total, que aquele que criou o mundo não fez dois ou uma infinidade; assim, nosso céu foi gerado único em sua espécie, e assim permanecerá.

É evidentemente corpóreo que deve ser o mundo gerado, ou seja, visível e tangível. Ora, sem fogo nada jamais poderia tornar-se visível; e nada poderia, por outro lado, ser tangível sem algo que fosse sólido; ora, nada poderia ser sólido sem terra. Daí vem o fato de que foi com fogo e com terra que o deus, quando começou a constituí-lo, criou o corpo do mundo. Mas dois elementos, por si só, não podem formar uma composição que seja bela, sem a intervenção de um terceiro; é necessário, de fato, entre os dois, um elo que os una. Ora, de todos os elos, o mais belo é aquele que impõe a si mesmo e aos elementos que une a unidade mais completa, o que, por natureza, a proporção realiza da maneira mais perfeita. Sempre que, entre três números quaisquer, sejam eles inteiros ou potências, o do meio é tal que o que o primeiro é em relação a ele, ele próprio o é em relação ao último; e inversamente, o que o último é em relação ao do meio, o do meio é em relação ao primeiro; sendo que o do meio pode tornar-se primeiro e último, e o último e o primeiro podem, por sua vez, tornar-se médios, resulta necessariamente que todos se encontram numa relação de identidade e que, por se encontrarem nessa relação de identidade uns em relação aos outros, todos formam uma unidade. Dito isso, se o corpo do universo tivesse de ser uma superfície, desprovida de qualquer profundidade, uma única mediação teria sido suficiente para estabelecer um vínculo entre os outros termos que a acompanham e ela mesma. Mas, na verdade, convinha que este mundo fosse um sólido e, no que diz respeito aos sólidos, nunca é uma única mediação, mas sempre duas que estabelecem entre si uma proporção. É por isso mesmo que o deus, tendo colocado no meio, entre o fogo e a terra, a água e o ar, e tendo introduzido entre eles, tanto quanto era possível, a mesma relação, de modo que o que o fogo é para o ar, o ar o seja para a água, e o que o ar é para a água, a água o seja para a terra, constituiu, com a ajuda desses laços, um mundo visível e tangível.

Eis, portanto, por quais razões e a partir de quais elementos — elementos que apresentam essas propriedades e que são, no total, quatro — o corpo do mundo é gerado. A harmonia que ele manifesta provém da proporção geométrica; e as relações estabelecidas por essa proporção lhe conferem a harmonia, de modo que, tornando-se idêntico a si mesmo, ele não pode ser dissolvido por ninguém além daquele que estabeleceu esses laços.

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