Teoria das potências
PLOTIN. Plotin. Traité 53: [Ennéades] I, 1. Gwenaëlle Aubry. Paris: les Éd. du Cerf, 2004.
A aposta de Plotino no Tratado 53 consiste em pensar a união da alma e do corpo sem ceder em sua separação, exigência que nenhuma das teorias anteriores havia formulado nem satisfeito, e à qual deve corresponder uma teoria nova.
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É necessário pensar, como Aristóteles no De anima, o corpo animado em sua irredutibilidade à matéria inerte, mantendo ao mesmo tempo, como Platão, a existência de uma alma impassível e separada.
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É preciso pensar, como sugeria o Timeu, tanto a presença da alma ao corpo quanto sua transcendência.
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Aristóteles e os Estoicos fazem da alma uma simples função ou atributo do corpo; Platão faz do corpo um simples instrumento da alma.
O parágrafo 6 responde às aporias acumuladas no parágrafo 5 por meio da noção de dunamis, redefinida e reinterpretada como operador conceitual que permite a Plotino pensar radicalmente tanto a alma separada quanto o corpo animado, e resolver o problema da união da alma e do corpo, bem como, mais além, o da participação.
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O princípio da solução é simples: se é verdade, como viu Aristóteles, que não há corpo sem alma, a alma não é por isso a entelequia do corpo.
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A alma não é a potência pela qual o corpo é um corpo vivente, mas o ato do qual emana, como de todo ser perfeito, essa potência.
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A alma essencial e separada é por si mesma atual (parágrafo 2, 5-13) e, como tal, está no princípio de uma potência emanada (parágrafo 2, 8 e 11).
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Essa potência é designada pelo termo dunamis (parágrafo 6, 2): uma potência ativa e produtora.
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Ao contrário da dunamis aristotélica — misturada de falta, tensa em direção à alteridade e dependente do ato que lhe falta —, a dunamis plotiniana não tende para o ato, mas dele procede; não é esforço em direção à perfeição, mas efeito do perfeito.
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Sendo a própria superabundância do ser realizado, está isenta de toda falta e toda passividade: atual, acabada e ativa, é ela mesma suscetível de produzir efeitos.
A subversão do conceito aristotélico de dunamis permite a Plotino substituir a teoria da alma-entelequia do corpo pela teoria da alma como ato perfeito.
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A alma não é a soma das potencialidades do corpo nem a vida do corpo, mas a causa desta — e aqui Plotino se opõe tanto a Aristóteles quanto aos Estoicos.
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Não é a própria alma que se mistura ao corpo para animá-lo, mas a potência que dela emana (7, 1-6).
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Separada, a alma permanece inalterada.
A teoria plotiniana da potência assegura um pensamento novo da união como dom sem abandono — efeito de uma superabundância: é porque a alma é atual, perfeita e acabada que está no princípio de uma potência emanada; se dá vida ao corpo, é precisamente porque não se perde nele.
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Além das relações entre alma e corpo, essa fórmula vale para as relações entre o inteligível e o sensível.
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O conceito plotiniano de dunamis está no princípio de um pensamento novo da participação: a separação aparece como a própria condição da união, a transcendência como condição da presença.
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O inteligível tem presença e eficácia apenas porque não está no sensível; pode estar presente a todas as realidades dele derivadas precisamente porque não pertence a nenhuma delas em particular.
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Se está separado, não está cindido: a potência, que tem por condição a separação e que é ela mesma condição da participação, assegura a continuidade entre a causa e seu efeito.
O conceito reelaborado de dunamis está, portanto, no princípio de uma teoria nova da união da alma e do corpo que, além do hilemorfismo aristotélico, permite restituir o dualismo platônico, presidindo também a um pensamento novo da participação que, integrando a crítica aristotélica, assegura do inteligível ao sensível uma separação sem cisão.
