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Fedro e Fédon
CHARRUE, Jean-Michel. Plotino: lecteur de Platon. 3. éd ed. Paris: Soc. d’Éd. “Les Belles Lettres”, 1993.
Abordagem de novos diálogos platônicos através de Plotino implica a confrontação com problemas inéditos e soluções distintas.
A psicologia plotiniana busca fundamentação em Platão como um estudo primordial da alma.
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A investigação percorre o caminho inverso da descensão, partindo da alma em direção ao noûs e ao Um.
A apreensão da natureza extraordinária da alma precede qualquer outra démarche filosófica.
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Do ponto mais baixo da procriação do Timeu, busca-se reconquistar a posse das realidades perdidas.
A alma atua como instrumento plástico e móvel capaz de percorrer a cadeia das realidades.
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Possuindo potências múltiplas, ela ocupa o começo, o meio e o fim das coisas, assimilando-se a cada nível por transformações.
Qualidades intrínsecas da alma conferem-lhe uma vida espiritual de intensidade máxima.
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A descoberta de tais qualidades revela um ser inteiramente devotado à espiritualidade.
A filosofia em Plotino configura-se quase exclusivamente como a ciência da alma ou psicologia.
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O conhecimento da alma é a condição para o conhecimento dos dois mundos entre os quais ela serve de limite e intermediária.
O FÉDRO: O MITO DA ALMA (245C-249B)
A alma caracteriza-se como a grande viajante do mundo metafísico, movendo-se entre o sensível e o inteligível.
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Saindo do lugar inteligível, ela percorre o céu, abandona a contemplação pela diversidade e retorna para contemplar por sua parte superior.
A definição da alma reside em ser um pensamento que se projeta no mundo sensível.
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Plotino oscila entre a tradição animista estoica da força organizadora e a tradição pitagórica da queda como decadência.
A reunião de concepções inconciliáveis permite visualizar o universo como ordem racional e lugar do destino.
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A alma universal, próxima ao Bem, percebe-o melhor e anima o corpo com um movimento celeste adequado.
O mundo sensível é descrito como um local de multiplicidade, divisão e rivalidade oriunda da dispersão.
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Em oposição, o mundo de lá é perfeito, onde tudo — terra, mar, animais e homens — é celeste e reside em repouso eterno.
O mito do Fedro fornece a matéria para as descrições plotinianas sobre as viagens da alma.
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A alma é representada por um carro puxado por dois cavalos, guiado por um cocheiro e sustentado por asas.
A queda da alma ocorre pelo desequilíbrio e pela perda das asas, resultando em esquecimento e perversão.
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Seria possível subir aos cumes e contemplar a verdade onde residem a Ciência, a Justiça, a Sabedoria e a Beleza.
O destino das almas é fixado pelo comportamento, determinando ciclos de mil anos de errância.
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Platão discorre belamente sobre a vinda da alma ao mundo, sendo a perda das asas a causa de sua chegada aqui.
1) Reflexões sobre a natureza da Alma
A investigação inicia-se pela natureza da alma, observando-se seus estados e atos para obter ideias verdadeiras.
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O desejo e o amor existem precisamente porque há atos ou estados da alma, os pathe te kai erga.
A imortalidade da alma é deduzida de sua característica principal: o fato de mover-se a si mesma.
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O que se move a si mesmo nunca cessa o movimento, sendo fonte e princípio para as demais coisas.
O princípio é necessariamente inengendrado e incorruptível, pois não provém de nada.
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Se o princípio de movimento se move a si mesmo, não é possível que ele se aniquile.
A expressão imagética do mito do carro alado é utilizada para facilitar a compreensão humana sobre a natureza da alma.
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Trata-se de uma força ativa natural que une o atrelagem, o cocheiro e as asas.
A exegese plotiniana demonstra conhecimento profundo do texto platônico através de alusões literais.
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O tratado sobre a imortalidade da alma visa demonstrar a espiritualidade desta contra o materialismo estoico e epicurista.
A natureza divina possui o ser verdadeiro, não nascendo nem perecendo, permitindo a conservação do mundo visível.
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A alma automotriz do Fedro dá vida ao corpo e a mantém por si mesma, sem nunca perdê-la.
Plotino utiliza múltiplos textos de Platão para retirar um conjunto de ideias coerentes sobre a vida e o ser.
O Fedro desempenha papel central na demonstração da imortalidade e da natureza incorpórea da alma.
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A alma é de mesma raça que a natureza divina, não possuindo forma, cor ou tangibilidade.
O argumento da automotricidade constitui peça mestra para a prova da imortalidade.
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Busca-se um ser imortal e movido por si mesmo que não participe da morte.
A alma garante a perenidade do cosmos ao insuflar vida em todos os animais e astros divinos.
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Ela criou o sol e o céu imenso, ordenando o movimento de rotação regular por ser de natureza distinta dos seres que faz viver.
A exegese de Plotino identifica que a alma total provê a totalidade das coisas inanimadas.
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Não se admite nenhuma alma estrangeira à alma do universo após esta, pois ela toma sob guarda o todo.
Cada alma individual atua à sua maneira, circulando sob formas sensitiva, vegetativa ou racional.
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As hesitações interpretativas revelam um espírito matizado e de grande reflexão sobre a unidade e a diferença.
A prova da imortalidade no Fedro aplica-se tanto às almas individuais quanto à alma do mundo.
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Ambas são princípios de movimento e contatam os mesmos objetos pela mesma faculdade intelectual.
A alma perfeita da universidade circula nas alturas sem penetrar no mundo, distinguindo-se das almas que perderam as asas.
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O governo da natureza corpórea, sua ordenação e fabricação pertencem necessariamente à alma.
A estrutura composta da alma é evidenciada pela imagem do atrelagem alado.
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Nota-se, contudo, a ausência da figura do cocheiro nas análises detalhadas das Ennéades.
As alusões ao cocheiro em Plotino são escassas e, por vezes, consideradas arbitrárias pela crítica.
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As almas humanas veem suas imagens como no espelho de Dionysos e lançam-se para baixo, mantendo a cabeça fixada acima do céu.
A atitude de Plotino perante o mito oscila entre a negligência de fragmentos e o desenvolvimento seletivo para atingir conclusões rápidas.
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O mito é tratado como instrumento de análise e ensinamento, possuindo valor puramente didático.
2) A Queda da Alma
A jornada da alma pelo céu e seu governo do mundo precedem sua descida ao sensível.
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A vinda aqui embaixo caracteriza-se como a queda da alma, fase inicial de sua viagem.
A queda ocorre quando a alma se inclina para fora do mundo inteligível, desejando ser distinta e autônoma.
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O mundo sensível exerceria uma atração, um encanto mágico que seduz a alma.
Fascinada por sua própria imagem, como Narcisse, a alma dá forma ao reflexo e descende.
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As almas se lançam do alto como se respondessem ao chamado de um heraldo, movidas por uma potência mágica irresistível.
Embora existam perturbações externas, a alma descende espontaneamente por uma inclinação própria.
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A disposição para inclinar-se às coisas sensíveis é necessária para que ocorra a percepção.
O esquecimento de Deus e a ignorância de si derivam da audácia e do desejo de independência.
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O princípio do mal reside na tolma, na geração, na diferença primária e na vontade de pertencer a si mesma.
A audácia não pertence à essência original da alma, surgindo em um intermédio ontológico.
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Ao desejar ser senhora de si, a alma manifesta uma inquietude e insatisfação que rompem a união com a Inteligência.
A alma torna-se audaciosa por sua incompletude e pelo sofrimento, buscando compensação interior.
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Essa curiosidade e imprudência levam-na a pesquisar estados além de sua condição presente, atingindo níveis vegetais ou animais conforme a predominância de suas potências.
A criação resulta de uma iniciativa da alma, tema que ressoa com elementos gnósticos.
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Sedunções, encantos, esquecimentos e descidas por degraus compõem essa narrativa da alma.
Plotino critica a multiplicação de hipóstases dos gnósticos, embora compartilhe certos problemas de sua época.
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Ele rejeita que a causa produtora do mundo seja meramente a inclinação da alma para a matéria.
A angústia sobre o destino humano era sentida com inquietude no período de Plotino.
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Almas queixam-se de serem arrancadas da vida bem-aventurada para serem aprisionadas em tendas ignóbeis.
Plotino descreve sua própria experiência de despertar, fugindo do corpo para ver uma beleza maravilhosa.
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Ele questiona como, após o repouso no ser divino, a alma opera a descida para o corpo.
A serenidade é buscada em Platão, que apresenta visões diversas sobre a vinda da alma ao mundo.
A interpretação plotiniana enquadra o Fedro em uma visão pessimista do mundo.
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A queda é considerada má, uma imersão que degrada e arruína o conjunto alado da alma.
O debate sobre a culpa da alma envolve sua simplicidade ou sua composição com uma espécie passional.
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Plotino sugere que inclinar-se é iluminar o que está abaixo, comparando o ato a projetar uma sombra, onde o culpado seria o objeto iluminado.
A alma é acusada tanto por ter descido quanto pelas más ações cometidas aqui embaixo.
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No Fedro, a descida parece ser mais uma fraqueza ou necessidade física de quem não pôde seguir Zeus do que um mal deliberado.
O mal seria uma impotência interna, inserida em uma procissão concebida como degradação lenta desde o Um.
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A alteridade é um defeito conatural a todos os seres, manifestando-se como imperfeição ontológica.
A alteridade em Plotino possui uma coloração moral, significando alienação ou alteração.
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Distingue-se uma alteridade horizontal na Inteligência e uma alteridade vertical em cascata que dispersa a alma.
O individualismo e o desejo de independência são vistos como uma condenação do ser-à-parte.
A queda consiste em tombar na multiplicidade, afastando-se da unidade original.
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Plotino permanece fiel às lições do Parménide ao tratar da alma como una e múltipla.
3) A Ascensão da Alma
O amor plotiniano insere-se em uma dialética ascendente inspirada no Fedro e no Banquet.
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A alma agita-se sob a influência do alto, sendo transportada pelo aguilhão do desejo.
Ganhando forças pela proximidade do inteligível, a alma desperta suas asas e eleva-se pelo resgate da memória.
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Trata-se de uma emoção amorosa em direção ao Belo em si, marcada por uma vitalidade nova.
O amor compartilha traços com o desejo, sendo fruto de uma carência que busca a plenitude.
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Eros é o filho de Poros e Penia, um ser incompleto que busca o futuro para compensar sua falta.
O amor-paixão pode degradar-se em desejos excessivos, mas sua natureza geral é voltada ao Bem.
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A alma ama o Bem porque foi impelida por ele, e esse amor não depende das belezas de aqui embaixo.
O delírio amoroso é o prelúdio para um retorno ao centro, longe da dissipação nos desejos mundanos.
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A inteligência seria inerte sem o desejo do Bem, que gera o chatoiement e a graça necessários ao impulso.
Plotino utiliza o vocabulário do Fedro para expressar uma experiência mística profunda.
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O vocabulário do amor carnal serve de alegoria para a jornada em direção à contemplação do belo e à êxtase suprema.
A teoria do belo é complementar à do amor, sendo a causa e o objeto do sentimento ascendente.
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A ascensão exige entrar em si, purificar-se e polir a alma como uma estátua para contemplar as ideias.
A dialética passa da beleza física à beleza inteligível, conforme descrito no Banquet e no Fedro.
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A alma rejeita a feiura como discordante e estrangeira, comprazendo-se no espetáculo de seres de seu mesmo gênero.
A reação face ao belo envolve alegria, espanto, desejo e um prazer acompanhado de temor.
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Essas emoções ocorrem especialmente na alma amorosa diante de realidades invisíveis e verdadeiras.
A beleza está presente em todos os corpos e na harmonia dos sons, mas sua forma plena reside na inteligência.
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As faces da Justiça e da Temperança são belezas inteligíveis superiores à beleza física dos corpos.
Os deuses são belos por sua inteligência sempre sábia e impassível, não por seus corpos.
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O belo em si é idêntico à inteligência que contempla a essência no Fedro.
A beleza define-se pela ordem, proporção e harmonia conferidas por uma forma ou ideia.
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A ideia reduz a multiplicidade a um todo convergente, criando unidade por ser ela mesma uma.
A beleza autêntica reside no ser-um da Inteligência, devendo ser objeto de contemplação.
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No Fedro, as almas sob a condução de Zeus experimentam bem-estar ao contemplar as realidades verdadeiras.
A contemplação é uma unificação que eleva a alma além de qualquer lugar ou diferença.
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A alma remonta a partir da reminiscência para ver os seres em um estado de estupor alegre.
A visão do Belo é uma fonte de inspiração filosófica que Plotino analisa detalhadamente.
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Zeus lidera a procissão, e a luz divina ofusca os seres de baixo, permitindo que apenas os capazes contemplem a Justiça e a Sabedoria.
A visão inteligível exige o esquecimento de si para que o sujeito e o objeto não sejam mais estranhos.
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Quem possui visão penetrante vê o objeto em si mesmo, abolindo a exterioridade espacial.
Devenir o Belo é a condição para estar verdadeiramente no Belo.
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O vidente e o visto tornam-se idênticos na contemplação, em uma união que não cinde a unidade do todo.
A alma identifica-se com a Inteligência e suas diversas modalidades de ser e luz divina.
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A beleza penetra a alma inteira, eliminando a distinção entre quem vê e o que é visto.
A contemplação é henosis, uma tendência para a unificação absoluta no Um.
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Trata-se de uma visão particular onde se deve unir ao objeto até não formar mais que um com ele.
4) A escatologia
A escatologia descreve as finalidades últimas e o que ocorre no mundo do além.
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O tema da errância mostra a alma entre a decadência extrema e o estágio de repouso sem dor.
A justiça de Adrastée distribui as existências conforme a visão que as almas tiveram das realidades verdadeiras.
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Existem nove graus de encarnação, desde o filósofo até o tirano, em ciclos que duram milênios.
Plotino retoma a fórmula de Adrastée para evocar uma justiça imanente onde o agressor sofre o que causou.
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O julgamento depende de uma lei divina, e vícios enormes recebem castigos sob vigilância de demônios vingadores.
A descida ao corpo envolve julgamentos, sorteios e necessidades que punem ou recompensam a alma.
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Plotino parece fundir a queda original com as descidas sucessivas do mito eschatológico.
A reencarnação em corpos de animais gera reticência em Plotino e repulsa em Porphyre.
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Estima-se que a parte superior da alma nunca desça até as feras, assistindo-as sem estar presente nelas.
Plotino seleciona partes da escatologia platônica e negligencia detalhes como o número exato de anos de errância.
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Sua atitude reflete o uso analítico do mito em detrimento de uma fidelidade literal às narrativas.
O «FÉDON»
A riqueza maior da alma reside em sua própria interioridade, onde encontra o Um como sujeito puro.
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Descida e ascensão designam apenas a atitude interna de aproximação ou afastamento de uma transcendência imóvel.
O abandono da dimensão espacial em favor da dimensão interior marca um ponto de inflexão na história das ideias.
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A interioridade permite que a alma recupere o superior, tornando a filosofia uma atitude espiritual.
Socrate convidou o homem ao conhecimento de si e ao desprezo pelos prazeres corpóreos no Fédon.
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A alma deve recolher-se e concentrar-se em si mesma, pois Deus não é exterior a nenhum ser.
A filosofia é uma regra de vida voltada ao problema da morte e ao desapego dos sentidos.
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Plotino desaconselha o suicídio, ensinando que a violência para retirar a alma do corpo a mantém impura e presa à matéria.
O sábio deve conformar-se ao destino, pois o suicídio transgride a vontade dos deuses.
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A filosofia é o prelúdio para a morte, permitindo que a alma se junte ao divino no universo.
A morte é a separação da alma e do corpo, não sendo um mal para quem busca isolar-se do corpóreo.
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Sem o corpo, a alma exerce com maior plenitude sua atividade própria.
1) A alma e o corpo
O dualismo platônico separa o homem em duas partes heterogêneas: alma e corpo.
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O filósofo busca desatar a alma do comércio com o corpo o máximo possível.
Alma e corpo permanecem realidades irredutíveis, embora a alma use o corpo como instrumento.
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A presença da alma no corpo é descrita como uma presença que é também uma ausência.
O conjunto de alma e corpo forma o que se chama animal, sendo o corpo apenas o utensílio da alma.
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A alma não participa das paixões do corpo, sendo absurdo atribuir-lhe tristeza ou desejos mundanos.
A alma comporta-se como uma realidade à parte, não formando um verdadeiro misto com o corpo.
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Toda essência permanece pura, e naturezas heterogêneas não podem unir-se para formar uma substância única.
A teoria da separação percorre as Ennéades, reafirmando a preeminência do termo superior sobre o inferior.
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Se houvesse mistura, a alma tornaria-se pior ao participar da irracionalidade e mortalidade corpóreas.
O Fédon ensina que o corpo e suas necessidades são obstáculos para a posse da inteligência.
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Gnósticos levaram o desprezo pelo corpóreo ao paroxismo, utilizando expressões platônicas de fuga da geração.
Plotino compartilha o ideal de desapego, mas mantém sobriedade e medida em suas descrições.
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É permitido não se prender ao corpo, ser puro e desprezar a morte para buscar os seres superiores.
As imagens do corpo como prisão ou túmulo são empregadas para ilustrar o mal da união.
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A alma humana sofre no corpo o chagrin e o medo, vivendo em um mundo comparado a uma caverna.
O corpo é um impedimento grave por propor cuidados indignos e distrações à alma.
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A união é insuportável por obstruir o pensamento e preencher a alma com temores e prazeres.
A realização da alma exige que ela se volte para o alto na conversão noética.
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O corpo é um obstáculo para a inteligência, cujas funções não se realizam através de órgãos corpóreos.
O prazer e a dor funcionam como pregos que fixam a alma ao corpo, distorcendo a visão da verdade.
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Enquanto misturada ao corpo, a alma mène uma vida obscurecida pelo mal e pela morte.
2) A purificação
A purificação conduz à semelhança com Deus, sendo condição prévia e indissociável da contemplação.
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Analogias, negações e virtudes guiam a alma através de seu ordenamento interior.
Purificar-se significa recolher-se em si mesmo, retirando-se do mundo exterior e de sua indeterminação.
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Platão denomina esse núcleo de homem interior, que deve ignorar as coisas de fora.
O isolamento e a simplificação caracterizam o processo de recueillement.
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A alma deve separar-se não apenas do corpo, mas de tudo o que está a ela anexado.
Imagens de desnudamento, fuga e polimento ilustram a passagem da multiplicidade para a unidade do eu.
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Trata-se de uma concentração para reencontrar a alma, dotada de uma tonalidade mística e religiosa.
A separação não é local, mas consiste em não ter inclinação para o corpo, nem mesmo em imaginação.
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A alma purificada não permite opiniões estrangeiras à sua natureza e não se assemelha mais ao corpo.
Despertar-se de sonhos absurdos e cessar a inclinação para coisas inferiores constitui a separação espiritual.
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O corpo deve ser governado facilmente, sem que suas exalações masquem a luz da alma.
A purificação extrema assemelha-se à morte por ser um levantar-se sem o corpo.
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Retirar tudo é o paroxismo da dialética negativa para atingir a verdade.
As virtudes são purificações que permitem à razão dominar sem resistência.
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A temperança, o coragem e a justiça preparam a alma para pensar o inteligível sem paixão.
A purificação plotiniana transita do nível moral para o nível metafísico.
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Ser semelhante a Deus é o resultado do processo de separação essencial entre alma e corpo.
3) A Imortalidade da Alma
Plotino aborda os argumentos do Fédon sobre a imortalidade da alma em seus próprios tratados.
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Analisa-se a alma como princípio de vida que possui uma existência que não pode perder.
A alma não possui a vida como um substrato surajustado, mas é vida por substância.
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Se a alma traz a vida ao objeto em que se apresenta, ela não pode receber o contrário do que sempre aporta.
A reminiscência prova que a instrução é o resgate de uma ciência eterna anterior ao corpo.
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A alma nasceu com o conhecimento das realidades em si, o que garante sua eternidade.
A natureza simples e incomposta da alma protege-a da decomposição que afeta o que é múltiplo.
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O que permanece sempre na identidade é incomposto e indissolúvel, ao passo que o corpo é sujeito à dissolução.
A alma é uma natureza única que existe totalmente no fato de viver, sendo necessariamente indestrutível.
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A morte atinge apenas o que é composto, onde a alteração suprime a forma mas deixa a matéria.
O argumento da alma-harmonia é refutado por considerar a alma um mero atributo do corpo.
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Se a alma fosse uma harmonia resultante das cordas da lyre, ela pereceria com a quebra do instrumento.
A precedência da alma sobre o corpo é um ponto fundamental contra o materialismo.
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A alma existe antes da composição e tem a função de comandar e contrariar os fatores corpóreos, agindo como mestre.
A alma não pode ser uma harmonia porque governa o corpo, enquanto a harmonia apenas segue os elementos que a compõem.
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Plotino sustenta que a natureza da alma é divina demais para ser reduzida a um simples acorde.
A prova final identifica a alma como o próprio princípio da vida, comparável ao fogo que é princípio do calor.
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Assim como o fogo não admite o frio, a alma, que aporta a vida, é imortal por não admitir a morte em sua essência.```
