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autores:charrue:sofista

Sofista

CHARRUE, Jean-Michel. Plotino: lecteur de Platon. 3. éd ed. Paris: Soc. d’Éd. “Les Belles Lettres”, 1993.

A apresentação inicial do estudo assume a forma de um paradoxo deliberado para justificar a interpretação plotiniana do Sofista.

  • A escolha da hipótese máxima e da deformação dos textos visa demonstrar que a interpretação de Plotino contém tanta verdade quanto as outras.
  • Ressalta evidentemente da interpretação de Plotino que o Sofista trata do noûs, sendo necessário precisar e justificar essa conclusão.

I. O COMENTÁRIO DE « ENÉADAS », VI, 2

O tratado VI, 2 é um dos raros casos em que Plotino realiza um comentário sistemático e explícito de um texto de Platão.

  • O tratado apresenta a exegese de certas passagens do Sofista, com referência explícita ao nome de Platão.
  • As alusões a Platão estão distribuídas por todo o tratado, ora esparsas, ora concentradas em alguns parágrafos.

1) A doutrina « dos gêneros » do ser

Os tratados VI, 1, VI, 2 e VI, 3 formam um todo dedicado à doutrina dos gêneros ou categorias do ser, sendo considerados entre os mais difíceis e obscuros das Enéadas.

  • Zeller e outros julgam que essas pesquisas sobre as categorias não influenciam o progresso do sistema, enquanto Steinhart, Richter e outros tentam reabilitá-las.
  • Plotino dedicou os primeiros vinte e quatro capítulos do tratado VI, 1 a estudar as dez categorias aristotélicas para encontrar seu caráter errôneo e arbitrário.
  • A crítica geral de Plotino a Aristóteles é que este acreditava falar dos gêneros do ser, mas se dedicou sobretudo à noção de categoria, realizando um amálgama de coisas díspares.
  • A concepção aristotélica da substância é criticada porque trata indiferentemente da substância sensível e da substância inteligível, sendo inconcebível que haja um gênero comum.
  • Os caracteres comuns citados por Aristóteles para fundar a unidade substancial designam apenas propriedades da substância, sem definir a ousia.
  • Plotino procede a uma longa e minuciosa crítica das outras categorias aristotélicas: quantidade, relação, tempo, lugar, agir e padecer, posição.
  • As categorias de Aristóteles são incompletas porque não concernem aos inteligíveis, afirmando Plotino a partilha entre os gêneros do mundo sensível e os do mundo inteligível.

No tratado VI, 2, diferentemente das categorias aristotélicas que são apenas sensíveis, trata-se dos gêneros do ser inteligível, e Plotino recorre aos gêneros do Sofista.

  • Plotino está à procura do ser verdadeiro, não daquele que devém, mas sim das essências e das formas ideais.
  • Os gêneros primeiros (prota genê) são a tradução plotiniana dos gêneros maiores (megista genê) do Sofista de Platão.
  • Gêneros primeiros são aqueles que não podem ser subordinados uns aos outros, cada um contém termos subordinados, e todos concorrem para uma natureza única que constitui o mundo inteligível chamado ser.
  • Há gêneros que são também princípios: os princípios (arkhai) são elementos constitutivos do ser e visam a gênese ontológica das coisas, enquanto os gêneros (genê) visam sempre uma classificação.
  • Os gêneros que são também princípios permanecem sem mistura, sendo essa a melhor definição do gênero descrito por Plotino em VI, 2.
  • O número de gêneros que compõem o ser é uma aporia: ou há um gênero único, ou vários que se ramificam a um único, ou vários sem subordinação, sendo esta última solução conforme aos dados do Sofista.

2) Os preâmbulos de VI, 2, 4-6 e o « Sofista »

Nos parágrafos 4-6, Plotino pratica a exegese do Sofista, especificamente dos conceitos de 248e e seguintes.

  • O objetivo da investigação é a busca do ser verdadeiro, e para isso considera-se primeiramente se o corpo corresponde a esse ser.
  • Ao examinar uma pedra, constata-se que há uma coisa que é como o sujeito da pedra, outra que é sua quantidade (grandeza) e outra que é sua qualidade (cor).
  • O ser corpóreo tem o defeito de ser múltiplo e um, mas mais múltiplo do que um.
  • A alma tem mais chance do que o corpóreo de corresponder ao ser verdadeiro porque é ainda uma e múltipla, mas muito mais múltipla do que uma.
  • A alma contém duas coisas essenciais: o ser e a vida, pois ela é um ser, mas não desses seres acrescentados chamados acidente, sendo uma essência porque tem a essência em si.
  • A vida não é algo supérfluo ou acidental na alma, mas aparece como um elemento necessário à sua constituição, sendo a contemplação a manifestação suprema dessa vida.
  • Na alma encontram-se a essência e a vida, enquanto na inteligência esses dois constituintes estão sempre presentes, mas a vida toma a forma do movimento.
  • Com a alma e com a inteligência, Plotino associa alternadamente o ser e a vida, que são dois dos quatro qualificativos que o Sofista dava ao ser totalmente real (ser, alma, vida, pensamento).

3) A doutrina dos gêneros segundo o « Sofista »: § 7-8

Ao abordar os parágrafos 7-8, Plotino chega ao cerne de seu propósito: o estudo dos gêneros do ser inteligível.

  • Plotino coloca no início do § 7 o ser como primeiro gênero, sendo a vida primeira essência e movimento.
  • O ser é um gênero que tem várias espécies, e a alma não é o ser mesmo, mas um ser (ti on), pois a essência é uma parte do conjunto que é a alma, mas não esse conjunto.
  • O ser (to on) é o primeiro gênero do ser, e Plotino emprega indiferentemente os termos to on e he ousia para qualificá-lo, demonstrando a ausência de terminologia fixa.
  • O movimento é estabelecido como segundo gênero, sendo o movimento que é comum a toda vida, e a vida primeira é essência e movimento.
  • A vida era apenas um sucedâneo do movimento, a manifestação em um nível inferior do movimento, e a inteligência contém efetivamente esses dois gêneros: o ser e o movimento.
  • A separação do movimento e do ser é feita pelo pensamento, e uma comparação com a sombra do ser nas coisas sensíveis ajuda a compreender essa divisão dos gêneros.
  • O movimento não deve ser subordinado ao ser nem colocado nele como em um sujeito, pois ambos estão no mesmo plano e suas duas naturezas não fazem mais do que uma.
  • O movimento se manifesta no ser sem que o ser saia de sua própria natureza.
  • O repouso é o terceiro gênero, sendo mais evidentemente próximo do ser do que o movimento, podendo ser assimilado à realidade imutável de um ser eterno.
  • O repouso é diferente do ser e do movimento, sendo necessário manter a cada gênero sua existência própria.
  • Assim como se separa o movimento do ser, separa-se também o repouso do ser pelo pensamento, para fazer dele um novo gênero nos seres.
  • Recusa-se a confusão que adviria da ausência de diferença entre os gêneros, pois não poderia haver um gênero único que resumisse todos os outros.
  • É necessário admitir vários gêneros: o ser, o movimento e o repouso formam três gêneros distintos.
  • A conclusão de Plotino assemelha-se estreitamente à da dedução dos gêneros do ser no Sofista (254b e seguintes), onde Platão recapitula os gêneros maiores.
  • Plotino não cessa de sublinhar a união mútua que liga os gêneros, encontrando-os contidos uns nos outros, ao mesmo tempo em que os apresenta como separados para provar sua realidade autônoma.
  • Os temas da separação (khôrismos) dos gêneros e de sua comunidade mútua (koinônia tôn genôn) já haviam sido desenvolvidos no Sofista.
  • O mesmo e o outro são o quarto e o quinto gêneros, derivando o outro da relação que os três primeiros termos têm entre si e o mesmo da redução à unidade.
  • Ao deduzir o mesmo e o outro a partir dos três primeiros gêneros, Plotino ajusta-se a Platão e particularmente à passagem correspondente do Sofista (254d4-255c7).
  • O mesmo e o outro abandonam o simples estatuto de atributo para se erigirem em gêneros autônomos, totalizando cinco gêneros.
  • Os gêneros não são componentes diretos da inteligência, pois esta é feita das ideias (eidê) ou da soma de todas as idealidades, sendo os gêneros descobertos na relação que se estabelece entre seus elementos ou no interior de cada ideia.
  • O domínio dos gêneros pertence não apenas à ontologia, mas também à lógica.
  • Plotino detalha a composição da inteligência utilizando a metáfora da visão: um olhar fixado sobre ela a desvela, revelando um mundo inteligível organicamente estruturado por seres, vida e pensamento.
  • O texto de Platão que Plotino visa não pode ser senão a passagem do Sofista (248e-249d), onde Platão aborda o mundo inteligível com a doutrina do ser totalmente real (ser, alma, vida, pensamento) e onde o conceito de inteligência desempenha um grande papel.
  • Os intérpretes divergem sobre se o movimento se atribui diretamente às ideias, mas o ser totalmente real designa o conjunto do mundo inteligível e não as ideias sozinhas.
  • Acredita-se que Platão queira falar da inteligência nessa passagem, pois é inconcebível que o ser total seja vazio de intelecto (noun ouk ekhon).
  • O Sofista, em geral, porta mais sobre um estudo das ideias e de suas relações do que sobre a inteligência, sendo o trecho anterior apenas provisório e circunstancial para refutar os Amigos das Ideias.
  • Enquanto Platão fala em geral das ideias, Plotino faz uma filosofia da inteligência, apoiando-se nessa única passagem para fazer dela a regra geral.
  • A inteligência é uma idealidade hipostasiada: pelo seu aspecto hipóstase, ela reúne em si todos os elementos e funciona como uma totalidade homogênea, ocupando o lugar que as ideias ocupavam.
  • Pelo seu aspecto idealidade, a inteligência prolonga a teoria platônica das ideias, sendo um sistema complexo onde a ideia desempenha um papel essencial.
  • Os gêneros se inserem entre as ideias e no seio de cada ideia, organizando as relações que elas têm entre si e participando de um grau mais fino do que as ideias à infraestrutura do mundo noético.
  • À medida que aparecem os cinco gêneros no domínio das ideias, elabora-se a hipóstase da inteligência.

II. PLOTINO E O « SOFISTA » DE PLATÃO

O balanço da interpretação plotiniana do Sofista indica que Plotino considera esse diálogo como essencialmente consagrado à ontologia.

  • A ontologia de Plotino encontra suas principais recursos na ontologia do Sofista, mas não é recebida sem transformações, sendo a mais importante a que faz do ser um noûs.
  • O tratado VI, 2 mostra os aspectos dessa apropriação da ontologia platônica por Plotino, visando apenas alguns trechos particulares do Sofista (entre 248a e 256d), ou seja, o núcleo do diálogo.
  • Plotino ignora a forma própria e particular do diálogo para lhe preferir as especulações sobre os temas ontológicos, realizando uma exegese doutrinal.

1) O tema ou a doutrina do Ser Totalmente Real (Pantelôs On)

Quando Platão conclui sua longa crítica aos materialistas e aos Amigos das Ideias, pergunta se se deixará convencer de que o movimento, a vida, a alma e a pensamento não têm lugar no seio do ser universal.

  • A expressão pantelôs on pode receber uma grande variedade de sentidos: ser plenamente ser, totalmente ser, ser absoluto.
  • Para compreender o significado do ser totalmente real, é necessário recolocá-lo em seu contexto polêmico contra os Amigos das Ideias, que recusavam que o ser fosse definido pelo agir e pelo padecer e o colocavam apenas nas formas ideais, imutáveis e idênticas.
  • Platão argumenta que o ser é suscetível de movimento pelo simples fato de ser conhecido, animando-se e possuindo a vida, sendo conhecido pela virtude da dianoia (pensamento) que está na alma ou melhor ainda pela inteligência.
  • Há, portanto, no ser, o movimento, a vida, a alma e a inteligência (kinesis, zôê, psykhê, phronêsis).
  • O ser totalmente real pode ser a soma de todas as formas ou espécies do ser, a totalidade do mundo visível e ideal, ou o conjunto do mundo inteligível, sendo esta última interpretação favorecida pelo caráter polêmico da passagem e pela presença do movimento, da vida, da alma e da pensamento.
  • No tratado VI, 2, Plotino não menciona diretamente a teoria do ser totalmente real, mas descreve com cuidado minucioso as noções de vida, inteligência e alma e suas relações, parafraseando Platão.
  • Em outros tratados (VI, 7, 13; III, 6, 6; III, 7, 3; V, 5, 1; V, 3, 16; I, 6, 7; I, 8, 2), Plotino também concede relevo à noção de vida, descrevendo a inteligência em seu rapporto com a vida.
  • A vida é como uma espécie de movimento no interior da inteligência, e o movimento permite, segundo suas capacidades mais ou menos grandes, a realização mais ou menos intensiva da vida.
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