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A ciência jônica antes de Sócrates

CORNFORD, Francis M. Antes y después de Sócrates. Barcelona: Editorial Planeta, 2011.

  • Gênese da Filosofia Ocidental e Pivô da Crise Socrática
    • Caráter fundacional do período criativo da filosofia helena, abrangendo ciência jônica da Natureza, Sócrates e a filosofia socrática de Platão e Aristóteles.
    • Centralidade da figura de Sócrates como marco divisório entre filosofia pré-socrática e filosofia socrática, atuando como jalão de crise central na história do pensamento.
    • Indagação sobre o uso do nome de Sócrates para designar tanto a filosofia precedente quanto a subsequente, apontando para sua natureza revolucionária.
    • Reconstrução, a partir do diálogo platônico Fedón, da autodescrição socrática de sua revolução no pensamento.
  • Insatisfação Socrática com a Ciência da Natureza Pré-Socrática
    • Desejo inicial de Sócrates por compreender explicações cosmogônicas e da origem dos seres vivos oferecidas pelos primeiros filósofos.
    • Abandono da ciência da Natureza devido a profunda insatisfação com o tipo de explicação oferecido.
    • Crítica ao modelo explicativo mecanicista, exemplificado pela teoria da vida como fermentação desencadeada por calor e frio.
    • Julgamento de que tais explicações, ao reduzir eventos a suas partes ou a eventos predecessores, forneciam descrições detalhadas do como, mas não respondiam à questão do porquê.
    • Busca socrática por uma razão final ou razão para que, de caráter teleológico, que demonstrasse a disposição das coisas para o melhor.
  • Esperança Frustrada em Anaxágoras e a Virada Definitiva
    • Esperança despertada pela leitura de Anaxágoras, que postulava uma Inteligência ordenadora do cosmos.
    • Expectativa de que tal Inteligência explicaria o universo como resultado de um plano orientado para o bem, e não de necessidade mecânica cega.
    • Desapontamento ao constatar que, no sistema de Anaxágoras, a ação da Inteligência limitava-se a iniciar o movimento, recorrendo-se, para todo o resto, a causas mecânicas usuais.
    • Ausência de qualquer propósito de bondade a ser cumprido pelo universo em tal sistema.
    • Decisão de Sócrates de tomar o caminho onde Anaxágoras o deixara, abandonando a esperança de um sistema inteligível da Natureza e desviando-se do estudo das coisas exteriores.
  • Redirecionamento da Filosofia: do Cosmos para a Psique
    • Caracterização do Sócrates histórico, segundo Xenofonte e Platão, como aquele que dialoga sobre vida humana em sociedade, significado do bem e do mal, e fins últimos da existência.
    • Compreensão do momento socrático como virada da filosofia em si, não apenas do indivíduo, do mundo exterior para o mundo interior.
    • Mudança do objeto da reflexão filosófica: do espetáculo cambiante da Natureza para a ordem e os propósitos da vida humana, com foco na natureza da alma individual.
    • Definição da filosofia pré-socrática como período do descobrimento da Natureza e da filosofia socrática como inauguração do descobrimento da alma humana.
    • Adoção do preceito délfico conhece-te a ti mesmo como lema e imperativo metodológico da nova orientação filosófica.
  • Interrogante Histórico-Filosófico sobre a Primazia do Estudo da Natureza
    • Questão fundamental sobre por que a filosofia começou pelo estudo do mundo exterior, adiando a investigação sobre a alma até a proclamação socrática.
    • Necessidade de compreender o caráter e a origem da ciência jônica da Natureza para responder a tal indagação.
    • Investigação sobre as condições históricas e intelectuais que possibilitaram o surgimento da atitude científica desinteressada.
  • Gênese da Ciência Jônica como Pensamento Desinteressado
    • Definição da ciência jônica como inaugurada por Tales de Mileto, representando o surgimento da ciência ocidental como busca do saber pelo saber.
    • Transformação de regras práticas de agrimensura egípcia na ciência teórica da geometria, exemplificando a passagem do problema (algo a fazer) para o teorema (algo a contemplar).
    • Transformação da arte astrológica babilônica na ciência astronômica, abandonando-se o edifício de superstições para reter apenas o fruto das observações.
    • Caracterização da nova atitude intelectual como desinteressada, livre para navegar por mares do pensamento alheios a problemas práticos imediatos.
    • Percepção da verdade como algo universal, cuja utilidade para a vida é contingente, não essencial.
  • O Descobrimento da Natureza como Conquista Intelectual Fundamental
    • Definição do descobrimento da Natureza como a percepção de que o universo circundante é um todo puramente natural, não parcialmente sobrenatural.
    • Compreensão do cosmos como possuindo modos de ação imutáveis, averiguáveis pela razão humana, mas independentes do controle humano.
    • Medida da magnitude dessa conquista a partir da análise de aspectos da era pré-científica.
  • Três Aspectos Fundamentais da Era Pré-Científica
    • Separação Imperfeita entre Sujeito e Objeto
      • Referência ao desenvolvimento infantil como microcosmo da história da espécia, ilustrando o solipsismo inicial e sua superação.
      • Abertura do abismo entre o eu e o mundo exterior, base da filosofia do senso comum.
      • Distinção crucial entre descobrir objetos externos e concebê-los como possuindo uma natureza própria, indiferente a temores e desejos humanos.
    • Inteligência Voltada Exclusivamente para a Ação
      • Uso primário da inteligência, em humanos e animais superiores, como elaboração de meios para fins práticos não alcançáveis imediatamente.
      • Característica de sociedades indígenas, conforme descrito por Malinowski, onde o interesse pelo mundo externo é limitado pela utilidade prática, ritual ou artística.
      • Tendência a isolar objetos importantes, tratando o resto como mero cenário indiferenciado.
    • Crença em Poderes Sobrenaturais e a Magia
      • Projeção não reflexiva de elementos de personalidade (vontade benévola ou malévola) sobre objetos que auxiliam ou frustram a ação.
      • Emergência de numina, poderes com conteúdo expresso em nomes abstratos, como matéria-prima do mundo sobrenatural.
      • Desenvolvimento desses elementos fragmentários em deuses antropomórficos completos.
      • A magia como conjunto de práticas para controlar forças sobrenaturais, cujo comportamento é incalculável e irregular.
      • A mitologia como narrativa para fixar esses poderes invisíveis em forma definida, dotando-os de substância concreta.
      • Criação de uma distinção entre conhecimento ordinário (experiência) e conhecimento revelado (acessível ao inspirado, ao mago, ao poeta).
  • Ruptura Jônica e a Unificação do Conhecimento
    • Suposição tácita dos cosmólogos jônicos de que todo o universo é natural e cognoscível por conhecimento racional ordinário.
    • Ampliação do conceito de Natureza para incorporar tudo o que antes era domínio do sobrenatural, que desaparece enquanto categoria distinta.
    • Negação implícita da distinção entre revelação e experiência, e entre vida sobrenatural e natural.
    • Consequente afirmação de que tudo quanto verdadeiramente existe é natural.
  • Condições Históricas para o Surgimento da Ciência Jônia
    • Contexto das cidades gregas da Ásia Menor no século VI a.C., no auge da civilização ocidental.
    • Afastamento das práticas mágicas (ainda presentes no campesinato) e superação crítica da religião olímpica homérica.
    • Imaginação helênica de clareza visual única, que levou a antropomorfização extrema dos deuses, facilitando seu reconhecimento, mas também o ceticismo.
    • Crítica de Xenófanes ao antropomorfismo religioso como prelúdio intelectual para a explicação naturalista.
    • Exemplo de explicação científica de Anaximandro para o trovão e o relâmpago, substituindo a ação divina por causas naturais (explosão do vento).
    • Separação completa entre objeto (impessoal, indiferente) e sujeito, com o intelecto descolando-se da ação.
  • Sobrevivência e Reinterpretação do Mito
    • Reconhecimento de que a conclusão científica não foi compartilhada pela maioria do mundo helênico, com práticas religiosas persistindo por séculos.
    • Percepção, por algumas mentes profundas (como Eurípides), de que o mito continha verdades para além de projeções psicológicas ou personificações ficcionais.
    • Destino do mito a sobreviver ao racionalismo jônio e aguardar reinterpretação filosófica.
  • Evolução da Cosmologia Jônia: da Cosmogonia à Busca da Substância
    • Moldagem dos sistemas do século VI em forma cosmogônica, respondendo a como o mundo ordenado surgiu de um estado inicial (arché).
    • Exemplo do sistema de Anaximandro: evolução a partir de uma massa ilimitada e indiferenciada, com diferenciação pelo conflito entre calor e frio, formação de corpos celestes e surgimento da vida no lodo.
    • Importância da rejeição de qualquer elemento sobrenatural, traduzindo a formação do mundo em termos de forças ordinárias da experiência diária.
    • Contraste com teogonias poéticas (Hesíodo) e narrativas de origem (Gênesis), onde o passado é progressivamente menos semelhante ao mundo conhecido.
    • Mudança de orientação no século V: a cosmogonia particulariza-se na investigação sobre a constituição última e permanente da substância material.
  • Atomismo Democritano como Apogeu e Limite da Ciência Pré-Socrática
    • Teoria da substância corpórea e tangível como busca da realidade permanente por trás das aparências sensíveis.
    • Distinção entre propriedades consideradas reais (táteis: resistência, forma) e não substanciais (visuais, gustativas), que dependem do percipiente.
    • Definição de átomos como corpúsculos indivisíveis, sólidos, impenetráveis, destituídos de qualidades sensíveis, movendo-se no vazio.
    • Postulação da indestrutibilidade e imutabilidade atômicas como exigência da razão, correspondendo ao princípio de que nada surge do nada.
    • Analogia com princípios de conservação da ciência moderna (inércia, massa, energia).
    • Aspiração do atomismo a ser não apenas hipótese científica, mas filosofia completa, explicando a totalidade da realidade.
  • Materialismo e Negação do Espírito no Atomismo Antigo
    • Caráter materialista radical da doutrina: a substância material corpórea não só é real, mas constitui a realidade integral.
    • Explicação mecanicista de todos os fenômenos, inclusive os anímicos, como colisões e movimentos de átomos.
    • Explicação da alma como composta de átomos esféricos, particularmente móveis, sendo sensação e pensamento resultados de colisões atômicas.
    • Redução de qualidades sensíveis e estados psíquicos a interações mecânicas, aniquilando o espiritual como categoria distinta.
    • Tese de que a imaginação grega, ao levar o antropomorfismo ao extremo, desacreditou a própria existência de um mundo espiritual, facilitando a conclusão materialista-ateia.
    • Reconhecimento do valor da hipótese atômica para a física e química, mas crítica a sua insuficiência como explicação total da realidade, especialmente do aspecto espiritual.
  • Filosofia Socrática como Reação e Redirecionamento Necessário
    • Compreensão da revolução socrática como reação contra o desvio materialista da ciência física pré-socrática.
    • Necessidade de abandonar temporariamente a busca pela substância material na Natureza externa para redescobrir o mundo espiritual.
    • Retorno ao interior, à investigação da natureza da alma humana, como único caminho para restabelecer a realidade do espiritual.
    • Preceito délfico Conhece-te a ti mesmo como programa fundador de uma nova via filosófica, que culminaria nos sistemas de Platão e Aristóteles.
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