Cornford
Francis Macdonald Cornford (1874-1943)
“A musa filosófica não é uma Atena órfã de mãe: se o intelecto individual é seu pai, seu progenitor mais velho e mais augusto é a religião.”
As palavras “religião” e “filosofia” talvez sugiram para a maioria das pessoas dois campos distintos do pensamento, entre os quais, se (como os gregos) incluirmos a ciência na filosofia, existe normalmente uma espécie de guerra de fronteiras. No entanto, também é possível pensar nelas como duas fases sucessivas, ou modos, de expressão dos sentimentos e crenças do homem sobre o mundo; e o título deste livro implica que nossa atenção se concentrará nesse período da história do pensamento ocidental, que marca a passagem de um para o outro. É geralmente aceito que o passo decisivo foi dado pelos gregos cerca de seis séculos antes de nossa era. Naquele momento, um novo espírito de investigação racional afirmou sua pretensão de se pronunciar sobre questões fundamentais que até então eram objeto de crenças tradicionais. O que desejo provar, no entanto, é que o advento desse espírito não significou uma ruptura repentina e completa com as formas antigas de pensamento.
Há uma continuidade real entre a especulação racional mais antiga e a representação religiosa que estava por trás dela; e isso não é mera questão de analogias superficiais, como a equação alegórica dos elementos com os deuses da crença popular. A filosofia herdou da religião certas grandes concepções — por exemplo, as ideias de “Deus”, “Alma”, “Destino”, “Lei” — que continuaram a circunscrever os movimentos do pensamento racional e a determinar suas principais direções. A religião expressa-se em símbolos poéticos e em termos de personalidades míticas; a filosofia prefere a linguagem da abstração seca e fala de substância, causa, matéria e assim por diante. Mas a diferença exterior apenas disfarça uma afinidade interior e substancial entre estes dois produtos sucessivos da mesma consciência. Os modos de pensamento que alcançam uma definição clara e uma afirmação explícita na filosofia já estavam implícitos nas intuições irracionais da mitologia.
(Prefácio a From Religion to Philosophy)
