Uno, princípio de tudo
CROUZEL, Henri. Origène et Plotin: comparaisons doctrinales. Paris: P. Téqui, 1992.
No nono tratado, o último da 6ª Enéada, segundo a ordem estabelecida por Porfírio (VI, 9, 3) (14-22), o Um é sempre designado como o princípio de tudo, o Bem e o Primeiro: é por isso que, para alcançar seu conhecimento, é preciso aproximar-se dele, afastar-se do sensível e de toda malícia, unificar-se a si mesmo, tornar-se inteligência. Mas o Um é mais puro e mais perfeito do que a Inteligência, que é um dos seres, enquanto o Um não é um dos seres, mas está antes dos seres (34-38). Ele gera todas as coisas, mas não é nada do que gera (39-40). Quando se diz que ele é causa, não se enuncia assim um caráter acidental que se relacionaria com ele, mas algo que se relaciona conosco (49-54). Somos efeitos sem que se possa dizer com rigor que ele é causa, pois isso não acrescenta nada ao que ele é. Ele é conhecido pelo que gera, a substância (VI, 9 (9) 5,1. 34), e sua natureza é ser a fonte dos melhores bens, a potência que gera os seres, permanecendo em si mesma e nem mesmo diminuída pelo que produz (35 ss). Um pouco mais adiante, o Um é chamado de fonte da vida, fonte da inteligência, princípio do ser, causa do bem, raiz da alma. Mas tudo isso não flui dele como se ele sofresse uma perda: ele não é (19) como uma massa que se divide no que produz e que, por isso, é perecível. É por isso que o que ele produz não é perecível, mas, ao contrário, eterno, porque o princípio não se divide e permanece inteiro: “Não estamos separados nem isolados dele, mesmo que a natureza do corpo, insinuando-se, nos tenha atraído para si, mas respiramos e somos conservados, pois ele não se retira depois de dar, mas sempre nos fornece enquanto é o que é” (VI, 9 (9) 9,1-11). As dificuldades da frase plotiniana vêm em parte da vontade de expressar as antíteses contínuas necessárias para significar o divino, tal como elas emergem tanto da experiência espiritual quanto do raciocínio do autor: trata-se de uma realidade que se comunica aos seres, os faz existir e, no entanto, não sai de si mesma.
