Neoplatonismo – Supressão da Matéria
FRAILE, G. Historia de la Filosofía. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1997.
1. Supressão da matéria. — No composto humano, a última diferença é a matéria, que constitui o corpo. Por isso, o primeiro passo é libertar a alma do corpo e das sensações (aisthesis). “É preciso deixar a alma sozinha e separada de todas as coisas”.
É necessária a libertação dos sentidos e de todas as sensações, especialmente as da visão e da audição. A alma deve “deixar de se inclinar demais para as coisas inferiores e imaginá-las” (III 6,5). E, além disso, emancipar-se da atração das coisas externas, “especialmente do apetite pelo domínio e pelo poder” (I 6,7). Os meios para conseguir isso são o recolhimento, a concentração dentro de si mesmo, a solidão, o desapego de tudo. É preciso fechar os olhos do corpo para ver o brilho da beleza inefável, sua claridade solitária, que brilha repentinamente em nós. Porque as coisas sensíveis não são mais do que imagens e sombras fictícias da verdadeira realidade. São sonhos, fantasmas, aparências de ser, jogos fugazes, mentiras em ação. Aqueles que acreditam nos corpos são “como sonhadores, que tomam como evidente o que percebem entre sonhos”.
O estado ao qual o homem chega após essa etapa de purificação é a impassibilidade estoica (ataraxia, apatheia).
O mesmo resultado é alcançado pela prática das virtudes, em um aspecto ético. Plotino distingue entre virtudes políticas (politikai aretai), que moderam a sensibilidade inferior. São as quatro virtudes cardinais platônicas: prudência, fortaleza, temperança e justiça. E acima delas, em um plano mais elevado, a sabedoria (sophia). Acima destas estão as virtudes purificadoras (kathartikai), que não apenas moderam a parte inferior, mas também desprendem o homem das coisas sensíveis. São as mesmas anteriores, mas consideradas na medida em que exercem uma função superior. E, por último, encontram-se as virtudes paradigmáticas (paradeigmatikai), que não só desprendem o homem das coisas sensíveis, mas o colocam em disposição de contemplar as inteligíveis.
