Freire
Antonio Freire
Teísmo helénico e ateísmo actual. Braga 1983
PRÓLOGO
Ao ler tantos depoimentos de ateus antigos, modernos e contemporâneos, mais se me corroborou a convicção de que havia acertado ao abraçar o sacerdócio: se o não tivesse feito, tomaria agora mesma a decisão de me tomar padre católico.
Porquê? Salvo o respeito que me merecem esses ateus, como pessoas humanas e alguns deles até honestos, os dislates que, na maioria dos casos, proferiram contra Deus e contra a Religião, deixaram-me uma sensação de pena, uma desilusão tremenda e (com humildade e gratidão a Deus o digo) uma santa e justa ufania como a que sentia Paul Bourget, já convertido: «Sinto-me orgulhoso de ser católico, porque no catolicismo encontro-me como que sobre um miradouro, donde posso descortinar a verdade e discernir o erro».
Tinha razão G. K. Chesterton, quando disse: «A alegria é o segredo gigantesco do cristão». Só ele é detentor da Verdade plena!
Pelo contrário, eu não gostaria de repetir o que disse Ramalho Ortigão: «Os ateus são pobres loucos que pretendem convencer-nos que viemos ao mundo sem pai».
Mas não foi o prurido de escrever mais.um livro a acrescentar à longa bibliografia que existe sobre o ateísmo que me moveu a compor esta obra. Parte da bibliografia sobre o ateísmo encontra-se logo no início deste livro.
Muitas vezes, nas minhas aulas de História da Filosofia Antiga, ao encontrar-me com alunos indiferentes à ideia de Deus, me ocorreu esta apóstrofe: «Mas, então, não te impressiona que os pensadores mais conspícuos da Grécia pagã outra preocupação não tiveram que aprofundar o conceito de Deus?». E, se nem tudo o que a respeito de Deus é válido, fica-nos ao menos essa preocupação sincera e a orientação acertada de muitos dos seus assertos.
Foi para isso que, tendo de dissertar num Colóquio latino-americano, no Brasil, sobre «Valores teísticos helénicos para a superação do ateísmo actual», resolvi ampliar o tema e publicar este volume.
Consciente estou do que dizia Carlyle: «Esquecido Deus, nada merece ser lembrado»; ou, então, do que afirmava S. Agostinho: «Deus não é maior se tu O respeitas; mas tu és maior se o serves»; ou, ainda, daquela sentença de Epicteto: «Sou homem, devo cantar Deus».
Receio muito que, em boa parte dos casos, seja verdadeira a frase de S. Agostinho, mais tarde repetida por Bacon: «Só não existe Deus, para aquele a quem não convém que Deus exista».
Nesta obra, cujo tema central é a religião e a filosofia gregas, encontrarão os leitores elementos copiosos para a História da Cultura e da Filosofia Grega. Aos Pré-Socráticos, a Sócrates, a Platão, a Aristóteles e a Platino dediquei especial atenção. Estes autores constituirão, a meu ver, argumento fulcral para a superação do ateísmo actual.
Braga, Páscoa de 1981
