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Gazolla de Andrade

GAZOLLA DE ANDRADE, Rachel. Platão: O Cosmo, o Homem e a Cidade. Um Estudo Sobre a Alma. Petrópolis: Vozes, 1994

“… Assim como o selvagem explica habitualmente os processos da natureza inanimada supondo serem produzidos por seres vivos que operam no interior ou por trás dos fenômenos, assim também ele explica os fenômenos da vida. Se um animal vive e se movimenta, isso só pode acontecer, no seu entendimento, porque há dentro dele um pequeno animal que o movimenta; se o homem vive e se movimenta, só pode ser porque há nele um homenzinho ou animalzinho que o agita. O animal dentro do animal, o homem dentro do homem, é a alma”. (J.G. Frazer, O ramo de ouro).

1. Circunscreve-se este trabalho à leitura atenta dos textos platônicos e ao cuidado, sempre limitado, de resgatar as noções do filósofo a partir de seu próprio solo originário, procurando o movimento das suas reflexões nos diálogos e respeitando o modo específico de que ele se utiliza para expô-las passo a passo, numa dramaticidade fundamentalmente didática. Esse estilo platônico, mormente no que se refere às perguntas e respostas, acaba por influenciar o estilo do pesquisador que privou de seus textos por muito tempo, o que pode criar uma certa surpresa no possível leitor hodierno, acostumado a leituras mais ágeis.

W. Jaeger, na Introdução da sua Paideia, notou que “…não se pode evitar o emprego de expressões modernas… quando se fala sobre os gregos”. Todavia, quando a tradução de uma expressão grega, devido à cristalização de seu uso, nos parece ter perdido sua força significativa, achamos preferível conservá-la na língua original, para que seu sentido, dentro do próprio texto, venha a apresentar-se de forma mais diferenciada e próxima da filosofia platônica.

Demais tópicos na Introdução:

  • Pluralidade Metodológica na Abordagem de uma Filosofia
    • Diálogo com tradição interpretativa estabelecida sobre tema já debatido.
    • Leitura que faz emergir época do filósofo através de tema persistente em contexto histórico ampliado.
    • Leitura imanente, restrita à obra do próprio filósofo.
    • Reconhecimento da hibridez metodológica como condição frequente e legítima da pesquisa.
    • Distinção entre projetos de longa duração e abordagens que privilegiam aspectos específicos.
  • Princípio Norteador: Busca do Filósofo Platão além da Tradição Interpretativa
    • Crítica à imagem tradicional de Platão como pensador dicotômico (sensível-inteligível), sistemático e metodologicamente claro ab initio.
    • Rejeição da visão que o aprisiona como precursor de um racionalismo cartesiano, em busca de revelação metódica de floresta obscura.
    • Reconhecimento de que rastrear tema em todos os diálogos, marginalizando questões colaterais, constitui abordagem redutora e pouco platônica.
    • Assunção de pecado metodológico: preferência por reflexão em união com o lógos do filósofo, em detrimento de método esclarecedor e ordenador a priori, assemelhado à atitude científica.
  • Frutificação da Aproximação Imanente e seus Riscos
    • Potencial fecundo da leitura próxima ao texto para aproximar-se de pensamento rico e complexo.
    • Crítica a leituras que vestem noções platônicas com roupagens de outra época, a do intérprete.
    • Rejeição de abordagens que tentam matar ou salvar Platão mediante comparação anacrônica com outros filósofos.
    • Dependência de uma leitura autêntica em relação ao trabalho cuidadoso de tradução recente, ainda considerado em estágio inicial para a obra platônica.
  • Justificativa para o Estudo de Obra Longínqua: Pertinência Filosófica
    • Questionamento sobre por que estudar obra aparentemente distante, cuja resposta equivale a responder por que a filosofia, hoje?.
    • Rejeição da visão arquivística do passado como mera acumulação de informações.
    • Aspiração a participação no Aiôn, temporalidade divina que apresenta passado, presente e futuro em instante único, através de olhar semelhante ao de Zeus (de larga visão).
    • Tarefa da filosofia, conforme sua gênese divina e política: abarcar o presente além do visível, buscando o invisível para compreender seu movimento transformador.
    • Pertinência do pensamento platônico no presente, atestada por seu estudo contínuo, ainda que mediado por variáveis platonismos carregados do espírito de cada época.
  • Tendências Contemporâneas na História da Filosofia
    • Sinalização, nas últimas décadas, de rigor na apreensão das palavras do filósofo.
    • Superação, sem destruição, da exigência de método pré-ordenador para aproximação do filósofo.
    • Emergência, entre pesquisadores, da necessidade de resgatar a reflexão filosófica em seu modo originário.
    • Opção metodológica assumida: privilegiar contato direto com texto, limitando debate com intérpretes e comparações doutrinárias intra ou inter-épocas, apesar de reconhecer riqueza potencial de tais relações.
  • Gratificação e Natureza Daimônica do Encontro com Platão
    • Reconhecimento da aridez possível do trabalho, mas gratificação no processo de estudo.
    • Experiência de perambulação de mais de um Platão através das reflexões, desde o primeiro contato até a conclusão do estudo.
    • Caráter dinâmico e aberto da leitura, com expectativa de surgimento de novos Platões no futuro.
    • Definição da leitura dos textos platônicos como ocupação daimônica por excelência.
  • Desconstrução de Visões Redutoras sobre Platão
    • Recusa da imagem de Platão habitante exclusivo das alturas (no sentido deleuziano).
    • Reconhecimento de Platão como fundador da metafísica e teórico fundamentador da prática.
    • Contestação da caricatura de Platão como elitista, dualista extremado e pregador de prazeres teóricos solitários.
    • Afirmação de que a filosofia de Platão não coincide necessariamente com a apresentada na maioria dos manuais.
    • Compreensão da autêntica filosofia platônica como fruto de contínuo exercício de intimidade e aprumo com seu texto.
  • Centralidade e Complexidade da Noção de Alma (Psyché) como Tema de Estudo
    • A noção de alma como sustentáculo de muitas leituras platônicas de inspiração medieval e moderna, mesmo que tacitamente.
    • Antiguidade e atualidade da noção, tornando reflexão sobre ela equivalente a reflexão sobre o homem em amplo espectro.
    • Definição da psyché como anima, princípio de vida, fundamento de todo conhecimento humano (teórico e prático) e de todo cosmo em movimento.
    • Distinção crucial: psyché não é ratio nem essentia agostiniana.
    • Perda, para o homem moderno, do sentido de alma como princípio de vida (anima).
    • Sentidos residuais modernos: alma como razão; alma como substância sobrevivente (guarda religiosa); alma como conjunto físico misterioso; alma como adjetivo relacionado à piedade ou intensidade (ter alma).
    • Participação contínua da noção de alma em interrogações contemporâneas, seja para negação ou afirmação.
    • Citação de Heráclito (Fragmento 45) como testemunho da profundidade e insondabilidade do lógos da alma.
  • Metodologia para Investigar O que é a Alma em Platão?
    • Apresentação das definições platônicas a partir de diálogos maduros considerados mais explicativos: Fédon, Fedro, Leis e Timeu.
    • Abordagem não estritamente vinculada à ordem cronológica possível dos diálogos.
    • Reconhecimento do Timeu como diálogo de aprofundamento máximo da noção, tratando de sua gênese, potências (dynámeis) e relações com o corpo, após estabelecê-la como princípio vital e causa do movimento.
    • Consideração do caráter mítico do relato no Timeu e de sua importância central, não redutível a teoria astronômica específica ou conhecimento hipocrático.
    • Compreensão do Timeu como texto que articula princípios metafísicos fundamentais, presentes também em outros diálogos.
  • Princípios Metafísicos do Timeu como Fundamento da Investigação
    • Três princípios fundamentais: Ser que sempre é (imutável), Ser que sempre devém (mutável) e Chora (receptáculo, espaço de geração).
    • Explicitação desses princípios como base do conhecimento para seres duplos (corpo e alma).
    • Conclusão da primeira parte da investigação: alma como ousía segunda (em referência à totalidade das ousíai), realidade misturada em sua gênese.
    • Implantação mítica da alma em corpos de natureza diversa, resultando em afecções e manifestação de potências (dynámeis), justificando investigação específica sobre estas.
  • Transição para a Segunda Parte: Da Alma à Expressão Humana na Comunidade
    • Escolha de A República como campo de investigação não arbitrária, considerando a questão: melhor forma de vida em comunidade à luz da composição da alma humana.
    • Riqueza temática e reflexiva de A República.
    • Passagem da alma cósmica para a alma da cidade, mediada pela reflexão sobre o homem e sua individualidade.
    • Estruturação da segunda parte obedecendo ao movimento interno do texto platônico e ao entrelaçamento de noções (imitação, técnica, dialética) com as partes da alma (desejante, timocrática, logística).
    • Priorização da dificuldade interna das noções sobre método pré-estabelecido.
  • Terceira Parte: O Filósofo Prático e a Busca da Medida
    • Condução da investigação à difícil noção de noûs (intelecto) e à figura do filósofo-dialético.
    • Necessidade de cuidado especial com a parte logística da alma, sede do noûs, cujo bom uso conduz à felicidade.
    • Apresentação de Platão como filósofo transformador e civilizador, preocupado com a época e o homem.
    • Fundamento da ação transformadora na teoria da alma tripartida.
    • Apontamento dos caminhos difíceis da phrónêsis (sabedoria prática).
    • Aceitação do excesso de relativização inerente às coisas humanas (tema resgatado pela Sofística) e reflexão sobre modos de contornar limites humanos.
    • Ideia de medida (métron) como solo reflexivo para limitada aproximação entre devir humano e permanência.
  • Evolução do Pensamento Platônico sobre a Alma
    • Trajetória da definição da alma à expressão humana no mundo sublunar, sujeito à geração, corrupção e Acaso.
    • Maturação do pensamento platônico, possivelmente com maior distância emocional da condenação de Sócrates.
    • Reflexão madura sobre carências humanas com maior agudeza.
    • Emergência da noção de alma como nuclear na maturidade, posição não tão clara nos diálogos de juventude.
  • Conclusão Ampliada: A Alma como Noção Nuclear da Filosofia Platônica
    • Reconhecimento da obrigatoriedade de ampliar campo de noções ao estudar a psyché.
    • Impressão final de que toda a filosofia platônica remete, em última instância, à alma.
    • Justificativa: a filosofia mesma é expressão da alma como princípio de vida, movimento, ordem e harmonia.
    • Interrogação retórica final sobre possibilidade de uma filosofia sem alma.

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