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Pashupatas
Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo – Cínicos e Pashupatas Thomas McEvilley. The Shape of Ancient Thougth. Comparative Studies in Greek and Indian Philosophies. New York: Allworth Press, 2002
- Cínicos e Paśupatas
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O culto de Śiva Paśupata, o deus cornudo e Senhor dos Animais Selvagens, é considerado uma das seitas mais antigas que, na Idade Média, se desenvolveriam nos Śaiva-āgamas, no Śaiva Tantra e no monismo do śaivismo da Caxemira e de outras regiões.
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O principal texto da seita, o *Paśupata Sūtra*, é atribuído a Lakulīśa, figura possivelmente do século I d.C., tido como um brâmane e considerado a 28ª encarnação de Śiva.
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O movimento apresentava afinidades com o Ajīvikismo, o Jainismo e outros cultos śaivas, sendo talvez o “grupo-mãe” de tradições como os Kāpālika, Kālāmukha, Kanphat yogis e Aghoris.
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Há registros de sua difusão ampla no período Gupta e de inscrições que testemunham presença até no Sudeste Asiático.
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Pesquisadores sugerem que sua origem pode remontar à época de Gosāla, ao século VI a.C., e até mesmo à cultura do Vale do Indo, ligada a cultos de deuses cornudos comparáveis aos encontrados em Çatal Hüyük e no Paleolítico europeu.
- A Busca da Desonra
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A prática central consistia em apagar o ego através da busca deliberada de desprezo, humilhação e agressões físicas. “Aquele que é desprezado está feliz, livre de todo apego.” (Paśupata Sūtra III.3) “Maltratado, ele deve vagar.” (Lakulīśa)
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O discípulo deveria adotar comportamentos socialmente repulsivos: agir como lascivo, falar e comportar-se de modo impróprio, viver coberto de imundície, deixar crescer cabelos e unhas, aparentar loucura e frequentar locais marginais.
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Essa conduta imitava o próprio Śiva, descrito como louco, frequentador de cemitérios, nu, coberto de cinzas e adornado de ossos.
- Gosāla e Mahāvīra
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O Ajīvikismo forneceu um solo religioso do qual derivaram elementos do Budismo, do Śaivismo e, em especial, do Jainismo de Mahāvīra.
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Mahāvīra teria convivido com Gosāla por seis anos, período em que este praticava atos de loucura e buscava humilhação deliberada.
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A tradição jainista apresenta Gosāla como ridicularizado e constantemente agredido, enquanto Mahāvīra seria respeitado. Contudo, essa tradição pode ser lida como reflexo da prática da busca de desonra.
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O padrão narrativo aproxima Gosāla da figura do bode expiatório, como no caso de Kisa Vaccha, considerado capaz de atrair insultos e má sorte. “Gosāla nasceu em um estábulo, de onde veio seu nome, significando literalmente 'cocheira de vacas'.”
- Transferência Kármica
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O *Paśupata Sūtra* ensina que, ao ser desprezado e agredido, o asceta transfere seu mau karma para os outros e absorve o bom karma deles.
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Essa teoria subverte a lógica comum da lei do karma, funcionando como um mecanismo de vampirismo espiritual.
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A concepção contrasta com a noção budista de Śāntideva, que propõe transferir o bom karma para os outros por compaixão. “Enquanto em Śāntideva há sacrifício, em Lakulīśa há magia negra: a queda do outro é a salvação do asceta.”
- Conexões Sectárias
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As práticas Paśupata apresentam paralelos claros com o Ajīvikismo, como a nudez ritual, a auto-humilhação e ritos sangrentos.
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Gosāla imitou Śiva em suas práticas finais: cantar, dançar, solicitar favores sexuais e adotar condutas insanas.
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Vários cultos śaivas (Kāpālika, Aghori, Kanphat yogis) compartilharam elementos como necrofagia, magia sexual, ritos de sangue e violação de tabus.
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As tradições relacionam-se a um substrato dravídico e xamânico anterior ao domínio ariano, reaparecendo na Idade Média nos movimentos tântricos e siddhas.
- Um Paralelo Grego
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Pesquisadores como Ingalls identificam analogias entre as práticas dos Paśupatas e a filosofia cínica grega, especialmente em Diógenes.
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Tanto os cínicos quanto os Paśupatas buscavam deliberadamente a desonra e a agressão pública, adotando atitudes chocantes, linguagem obscena, imitação de animais e comportamento insano.
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Diógenes cultivava a *parrhēsia* (liberdade de palavra ofensiva) como meio de provocar o desprezo, tal como Gosāla provocava hostilidade.
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A rejeição de honras fúnebres por Sócrates, Diógenes e Gosāla aproxima-se de tradições de profanação do cadáver. “Gosāla ordenou que seu corpo fosse arrastado pelas ruas, cuspido e desprezado, para transferir o karma de seus discípulos.”
- Imitação Animal
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Tanto cínicos quanto Paśupatas preservaram práticas arcaicas de imitar animais como forma de ascese ou magia.
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O Paśupata deveria mugir como um touro, e havia votos para viver como cães, serpentes, elefantes ou bovinos.
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Diógenes era chamado de “o Cão” e vivia entre cães, assim como mestres aghoris mantinham cães como companheiros espirituais.
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O comportamento animal, associado ao escárnio social, remonta a práticas xamânicas do Paleolítico e a rituais de iniciação em várias culturas indo-europeias.
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A iconografia dos portadores de clava, de Heracles a Lakulīśa, reforça os paralelos simbólicos entre tradições gregas e indianas.
- O Jarro e a Tigela de Diógenes
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A tradição de que Diógenes viveu em um jarro pode corresponder a práticas ascéticas indianas de se recolher em urnas funerárias ou oficinas de oleiro, comuns entre Ajīvikas.
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O uso da tigela ou sua renúncia refletia diferentes estágios da ascese: renunciar ao recipiente e comer com as mãos era sinal de avanço espiritual.
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Textos jainistas e śaivas discutem essas distinções como práticas de purificação e rigor ascético.
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As analogias entre jarros, tigelas e locais de oleiro reforçam as semelhanças simbólicas entre Gosāla e Diógenes.
- A Questão
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As semelhanças entre cínicos e Paśupatas geraram hipóteses de contato direto ou de influências comuns.
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Um modelo sugere a mediação de tradições xamânicas da Cítia e da Trácia, irradiadas para a Índia e a Grécia.
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Outro modelo propõe contato histórico direto, via rotas comerciais da Ásia Central, que uniam cidades como Sinope (pátria de Diógenes) e Broach (cidade associada a Lakulīśa).
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Em ambos os casos, os paralelos sugerem raízes partilhadas em práticas xamânicas de humilhação, loucura ritual e imitação animal.
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