Sócrates - conhecer-se a si mesmo
2. O conhecimento interior: a) conheça a si mesmo. — Diga-me, Eutidemo, você já esteve em Delfos? — Duas vezes. — Você notou, em alguma parte do templo, a inscrição: conheça a si mesmo? — Sim. — Bem, você não prestou atenção a essa inscrição ou a gravou em sua mente e se voltou para si mesmo para examinar quem você é? — Na verdade, não me preocupei com isso, pois acreditava saber perfeitamente e dificilmente poderia conhecer outra coisa, se não me conhecesse a mim mesmo. Mas, desses dois, quem você acha que se conhece: aquele que só sabe seu próprio nome, ou aquele que se examinou como se examina um cavalo que se deseja comprar… ou seja, que se examinou em que condições se encontra em relação ao ofício a que o homem está destinado e que conheceu suas próprias forças? (Xenofonte, Memorab., IV, 2).
A vida sem exame é indigna de um homem (Plat., Apol., XXVIII).
(O “conheça a si mesmo” era, na inscrição de Delfos, uma advertência dirigida ao homem, para incitá-lo a reconhecer os limites da natureza humana 7 e a não aspirar a coisas divinas (“nada em excesso”), pois seria insolência não tolerada pelos deuses. Essa era também a advertência essencial dos Sete Sábios e de Tales. Mas Sócrates chega depois de um desenvolvimento da filosofia, ou seja, de investigações sobre as coisas divinas eternas, e nelas coloca o valor da vida, a purificação do espírito e a própria missão. Mas ainda lhe resta uma característica importante da antiga advertência sobre a limitação humana: a consciência da seriedade e gravidade dos problemas, que impede toda presunção de conhecimento fácil e se afirma como consciência inicial da própria ignorância (ver mais adiante, parágrafo d)).
b) o conhecimento, condição de sabedoria e virtude. — Nunca (poderia) consentir que um homem, que não tem conhecimento de si mesmo, pudesse ser sábio. Pois chegaria mesmo a afirmar que precisamente nisto consiste a sabedoria, em conhecer-se a si mesmo, e concordo com aquele que em Delfos escreveu a famosa frase (PLAT., Carmides, 164).
Então, o quê? Podemos saber qual é a arte que torna cada um melhor, enquanto ignoramos o que somos nós mesmos? — Impossível. . . Então, até que nos conheçamos a nós mesmos e sejamos sábios, poderemos saber o que é bom para nós e o que é ruim? (PLAT., Alcib. prim., 128 e 133).
c) O método da introspecção. — Será fácil conhecer a si mesmo, e foi um homem de pouco valor quem escreveu este preceito sobre o templo de Apolo, ou será algo difícil e inacessível a todos? Vamos, coragem! De que maneira se poderia descobrir a si mesmo? … O que é o homem? — Não sei dizer. — Mas você sabe dizer que é aquele que se serve do seu corpo. — Sim. — E quem se serve do corpo, senão a alma? … Conhecer a alma, então, nos ordena aquele que nos ordena: conheça a si mesmo. — Assim parece.
Agora bem, como podemos conhecê-la da maneira mais clara? … Tente você também. Se (a inscrição de Delfos) tivesse dito ao olho, como a um homem, para aconselhá-lo: olhe para si mesmo, como e para que você acha que ela o exortaria? Talvez a olhar para aquilo, olhando para o qual o olho poderia se ver a si mesmo? … Evidentemente, então, a se olhar em um espelho ou algo semelhante. —Exatamente—. Agora, não há também algo semelhante em (outro) olho, no qual possamos olhar? —Certamente—. Um olho, portanto, se quiser se ver a si mesmo, precisa olhar em um olho, primeiro naquela parte do olho em que reside a virtude do olho, que é precisamente a visão… Ora, também a alma, se quiser se conhecer a si mesma, não precisa, talvez, olhar em uma alma, e sobretudo naquela parte dela em que reside a virtude da alma, a sabedoria? E quem olhar para ela e conhecer todo o seu ser divino poderá conhecer a si mesmo, sobretudo, desta maneira (Plat., Alcib. primeiro, 1, 129, 130, 132-3).
(Por meio da comparação com o olho, Platão tende aqui para o método indireto da autoobservação, que você encontra mais claramente explicado na Magna moralia, da escola aristotélica; “da mesma forma que, quando queremos ver nosso próprio rosto, o vemos olhando no espelho, assim, quando queremos nos conhecer, podemos nos conhecer olhando para o amigo, porque o amigo é, por assim dizer, um outro eu” (c., 15, 1213)).
d) o primeiro resultado: a ignorância erudita (consciência dos problemas). — Querefonte (vocês o conhecem) . . . tendo ido uma vez a Delfos, ousou interrogar o oráculo . . . se havia alguém mais sábio do que eu. A Pitia respondeu: ninguém. Então, ao ouvir tais palavras, pensei: O que o Deus está dizendo? O que se esconde em suas palavras? Pois não tenho consciência, nem muita nem pouca, de ser sábio. O que ele quer dizer, então, ao afirmar que sou o mais sábio? E por muito tempo permaneci duvidando do que ele queria dizer. Depois, com dificuldade, comecei a investigar da seguinte maneira. Fui visitar um daqueles que parecem sábios e disse a mim mesmo: Agora, desmentirei a profecia e demonstrarei ao oráculo que ele é mais sábio do que eu; e você, por outro lado, disse que sou eu (mais sábio). E eis o que me aconteceu. Tendo começado a conversar com ele, pareceu-me que esse homem, embora parecesse sábio para muitos outros homens, e especialmente para si mesmo, na verdade não era. E tentei provar isso a ele: você acredita ser sábio, mas não é. Depois que fui embora, comecei a raciocinar e disse a mim mesmo: eu sou mais sábio do que esse homem, pois, pelo que me parece, nenhum de nós dois sabe nada de bom ou belo, mas ele acredita saber e não sabe; eu não sei, mas também não acredito saber. E parece que, por essa pequenez, eu sou mais sábio, pois não creio saber o que não sei (PLATÃO, Apol., V-VI).
Parece-me ver uma espécie maior, mais perigosa e bem definida de ignorância, que tem (por si só) um peso igual ao de todas as outras partes dela. —Qual? —Aquela que não sabe e acredita saber, pois, por causa dela, corremos o risco de que aconteçam a todos nós os disparates que cometemos com a inteligência (PLAT. Sofista, 229).
(O conhecimento da própria ignorância não é, para Sócrates, a conclusão final do filosofar, mas seu momento inicial e preparatório. Para transmitir esse conhecimento, ele emprega, justamente, a refutação, que purifica e liberta o espírito dos erros: depois disso, o espírito se encontra disposto a gerar a verdade, estimulado pela maiêutica.
