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Posição espiritual e significação de Plotino

PUECH, Henri-Charles. En torno a la gnosis. Madrid: Taurus, 1982.

O principal legado confiado a Plotino por todo um passado de Razão consistia na concepção de um universo único e coerente, solidário e habitado por uma íntima simpatia, tanto na totalidade de sua forma e de sua vida quanto em cada um de seus membros, e que, como o sábio que era seu morador, bastava a si mesmo. O estoicismo, em particular, havia imposto a imagem orgânica de um mundo contido e animado por uma Razão que era ao mesmo tempo uma Força imanente: o Logos. Mas a própria evolução do estoicismo, a autoridade dos outros grandes sistemas filosóficos: o platonismo com seu mundo das Ideias presidido pelo Bem, o aristotelismo com sua hierarquia de poderes e atos coroados por um Primeiro Motor que é o Pensamento que pensa, o neopitagorismo com a escalonamento de seus Números e seu gosto pelo ascetismo, bem como, sem dúvida, a necessidade de evasão fora do sensível própria de toda a época, haviam, se assim se pode dizer, conduzido a dirigir verticalmente e no sentido de uma transcendência aquela unidade solidária que o antigo estoicismo havia desdobrado no plano horizontal da imanência. Desta forma, o universo plotiniano se apresenta como uma hierarquia de realidades subordinadas umas às outras, mas como uma hierarquia que é expansão e como uma subordinação que é continuidade. “Todas as coisas são, portanto, como uma Vida que se estende em linha reta; cada um dos pontos sucessivos da linha é diferente; mas a linha inteira é contínua. Tem pontos incessantemente diferentes; mas o ponto anterior não desaparece naquele que o segue” (Enn., V, 2, 2).

A especulação poderá distinguir, sem dúvida, ao longo de tal linha vertical, determinados momentos ou aspectos que terá de estabilizar e realizar em entidades ou “hipóstases”: o Um —Primeiro Princípio—, a Inteligência, a Alma. Mas tais cortes não supõem a fragmentação dessa continuidade dinâmica. São como tantos passos graduais de um único movimento de procissão que a superabundância do Um (V, 2, 1) põe em movimento à maneira de uma irradiação espontânea (V, 1, 6; V, 4, 1) e que, à medida que diminui, se expande na forma de uma multiplicidade cada vez mais dispersa e descontínua: unificada e contraída na Inteligência, mais fraca na Alma, quase pura na proximidade da Matéria, até expirar na imobilidade. Não há, portanto, aqui e ali, mais do que uma única e mesma realidade percebida em níveis sucessivos.

Ao mesmo tempo — e este é o segundo legado do racionalismo grego a Plotino —, essa hierarquia solidária não pode ser, em sua necessidade, senão eterna (II, 9, 3). Uma criação, uma modificação ou um fim do universo são tão impossíveis de conceber quanto um começo ou uma cessação na procissão do Um. Dessa eternidade resulta a coexistência contínua entre si dos graus da realidade: sua solidariedade recíproca é simultaneidade. Por isso — reciprocidade significa aqui hierarquia —, haverá implicação permanente do inferior no superior e, ao mesmo tempo, presença perpétua do superior no inferior. Ou ainda: o superior continua sendo transcendente, mas o inferior é imanente a essa transcendência. “Todo ser gerado por outro existe, ou no próprio ser gerador, ou em outro ser, se é que existe além do gerador. Como esse ser foi gerado por outro e precisa de outro para ser gerado, ele precisa essencialmente de outro; e, por isso, existe em outro. Consequentemente, os últimos seres existem naturalmente naqueles que os precedem imediatamente, os de primeiro grau existem naqueles que ainda estão à sua frente, e um ser existe assim em outro, até chegar ao primeiro princípio. O princípio, que não tem nada antes dele, não tem nada que o contenha; e não tendo nada que o contenha, e visto que todas as coisas existem naquelas que estão antes delas, ele contém todas as outras coisas” (V, 5, 9).

De uma forma mais imaginativa, a realidade pode ser comparada a uma série de esferas encaixadas umas nas outras, diferentes devido à expansão de sua periferia, mas coincidentes em um mesmo centro a partir do qual se dilatam sucessivamente, ou também a um círculo que se alarga continuamente, mas cujos raios se alongam cada vez mais e se multiplicam, tendo todos eles em um único ponto sua origem e a causa de sua permanência.

Em outros termos, haverá uma interioridade tanto do superior para o inferior, quanto do inferior para o superior. O próprio Um, que “é por si mesmo tudo o que é”, encontra-se “totalmente voltado para si mesmo e é interior a si mesmo” (VI, 8, 17), enquanto “tudo o que há fora dele é ele mesmo, uma vez que ele abraça todas as coisas. Ou melhor, encontra-se dentro das coisas e em sua profundidade” (VI, 8, 18). Ou ainda: “É preciso voltar-se totalmente para o interior… Deus não é exterior a nenhum ser; está em todos os seres; só que eles não sabem disso. Fugindo dele ou, melhor dizendo, fugindo de si mesmos” (VI, 9, 7).

Por outro lado, o inferior tem dentro de si a presença do superior, de onde extrai sua origem e tem seu ser. Recolhendo-se em si mesmo por meio de um movimento de concentração e regressão, como uma corrente de água que reflui para sua fonte ou como um raio de luz contraído sobre seu foco, pode, se remontar de sua multiplicidade momentânea à unidade primordial, descobrir tudo em seu próprio interior: “O sábio, já penetrado pela razão, extrai de si mesmo o que descobre aos outros; olha para si mesmo; e não apenas tende a se unificar e se isolar das coisas externas, mas volta-se para si mesmo e encontra em si todas as coisas (kai patita eisó)” (III, 8, 6).

Essa interioridade tem uma importância capital para o pensamento de Plotino: é ela que lhe permite desenvolver uma mística da imanência inscrita dentro de uma metafísica da transcendência.

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