Ceticismo
Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo
Ceticismo, empricismo e naturalismo
- Os primórdios do humanismo secular na Grécia
- Os milesianos
- Os primórdios na Índia
- Hedonismo
- Pitágoras Theologos
- Ceticismo emergente: Xenofanes
- Reações
- A linhagem democritiana
- De volta para Índia
- Jainismo
- Naturalismo budista
- Alguns paralelos gregos
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Sumário Analítico
- O surgimento do ceticismo, do empirismo e do naturalismo na Grécia e na Índia, no século VI a.C., manifesta-se como reação aos sistemas monistas e ritualistas precedentes, estabelecendo uma atitude filosófica voltada à observação sensorial e à autonomia do pensamento humano.
- O naturalista aceita a experiência sensorial como principal via de conhecimento, rejeita o caráter esotérico ou intuitivo da sabedoria, e reconhece o mundo externo como realidade objetiva independente da consciência individual.
- A ordem e regularidade do mundo não implicam teleologia sobrenatural, e sua transformação depende da manipulação física, não de prece, magia ou sacrifício.
- A ética naturalista é humanista: o homem, ser biológico dotado de finalidade própria, deve descobrir seu propósito por meio da razão moral inserida no contexto natural.
- Os primórdios do humanismo secular na Grécia manifestam-se na poesia arcaica e na crítica aos pressupostos teológicos da tradição homérica.
- Arquíloco proclama que “todas as coisas são feitas pelos mortais mediante seu próprio esforço e cuidado”, negando tanto a providência divina quanto o destino imposto.
- Mimnermo, em sua analogia entre as gerações humanas e as folhas, rejeita a noção de que o bem e o mal procedem dos deuses, afirmando que o destino humano depende apenas da ação e da decisão humanas.
- A passagem do mito à observação racional é consolidada pelos filósofos milesianos, que explicam a natureza a partir da experiência cotidiana, sem recurso ao mito.
- A distinção entre teólogos (theologoi) e naturalistas (physiologoi) estabelecida por Platão marca o início da tensão entre idealismo e materialismo na filosofia grega.
- Os theologoi, de linha órfica e pitagórica, sustentam a primazia da alma sobre a matéria e concebem o cosmos como resultado de desígnio inteligente.
- A filosofia milesiana, inaugurada por Tales, representa o primeiro esforço sistemático de interpretação naturalista do mundo.
- Tales, ao afirmar que “todas as coisas são água”, seculariza a linguagem mítica, transformando o elemento primordial em princípio físico.
- Anaximandro substitui a água por uma substância indeterminada (ápeiron), explicando os fenômenos naturais por processos internos de diferenciação, sem apelo divino.
- Anaxímenes, com a teoria da condensação e rarefação, desenvolve uma explicação física dos processos de transformação, antecipando o princípio do atomismo.
- Na Índia antiga, a oposição entre as escolas astika (ortodoxas) e nastika (heterodoxas) reflete a mesma divisão entre transcendentalismo e naturalismo observada na Grécia.
- As seitas nastika — Cārvākas, Ājīvikas, budistas e jainistas — negam a autoridade dos Vedas e propõem sistemas materialistas e deterministas.
- Os Ājīvikas formulam um atomismo determinista em que a natureza se governa por leis próprias, rejeitando o livre-arbítrio e o efeito moral do karma.
- Os Cārvākas reduzem a consciência a transformação material, reconhecendo apenas a percepção sensorial como fonte de conhecimento e denunciando os dogmas religiosos como construções de interesse sacerdotal.
- O hedonismo, tanto na Grécia quanto na Índia, emerge como ética correspondente ao naturalismo.
- Mimnermo exalta o prazer sensual e efêmero como essência da vida humana.
- Os Cārvākas identificam o “céu” e o “inferno” com estados de prazer e dor presentes na experiência terrena, considerando a dissolução do corpo como libertação final.
- A figura de Pitágoras representa a transição entre o empirismo naturalista e o espiritualismo teológico.
- Embora envolvido em experimentação e observação, Pitágoras transforma a matemática em via religiosa para a contemplação da ordem imaterial do cosmos.
- Sua doutrina da transmigração das almas, baseada em pretensas percepções extrassensoriais, inaugura a linhagem dos theologoi em oposição aos physiologoi.
- Xenófanes de Cólofon retoma o naturalismo jônico e critica a superstição religiosa, inaugurando o ceticismo empírico.
- Rejeita os dogmas e o antropomorfismo divino, afirmando que “mesmo que alguém diga a verdade, não poderá saber que a disse”, o que antecipa o problema epistemológico da certeza do conhecimento.
- Valoriza a observação direta e a experiência sensível como base do saber, afastando o mito e as explicações sobrenaturais.
- Seu pensamento antecipa o empirismo científico dos hipocráticos e de Alcmeão de Crotona, que aplicam métodos experimentais ao estudo da natureza e do corpo.
- O racionalismo de Parmênides surge como reação à crescente confiança no empirismo.
- Parmênides sustenta que apenas a razão pode alcançar a verdade, rejeitando a multiplicidade enganosa dos sentidos.
- Empédocles responde à crítica parmenídica demonstrando experimentalmente a corporeidade do ar e fundando, assim, o método inferencial baseado em observação — marco na história da ciência.
- A tradição atomista, de Leucipo e Demócrito, consolida o materialismo mecanicista e elimina a teleologia sobrenatural.
- O cosmos é composto por átomos em movimento segundo necessidade, e a consciência é um fenômeno físico resultante desses movimentos.
- A religião é explicada como projeção psicológica de emoções sobre os fenômenos naturais.
- A ética democriteana propõe a ataraxia, ou serenidade imperturbável, como ideal moral, em analogia com o caminho budista da moderação.
- O subjetivismo protagórico representa a culminação da virada antropocêntrica e relativista da filosofia grega.
- A sentença “O homem é a medida de todas as coisas” expressa o abandono da busca de verdades absolutas e a afirmação da experiência como único critério do real.
- Essa posição corresponde à distinção entre physis (natureza) e nomos (convenção), reconhecendo a moldabilidade cultural das instituições humanas.
- O humanismo de Protágoras substitui a teologia pela razão prática e pela ideia de progresso técnico e civilizacional.
- O epicurismo prolonga a tradição atomista e leva o ateísmo grego à negação explícita da providência divina.
- Epicuro e Lucrécio ensinam que a alma é composta de átomos sutis e que a morte implica sua dispersão natural.
- A felicidade resulta do conhecimento das leis da natureza e da libertação do medo dos deuses, em consonância com o hedonismo moderado e racional.
- O pensamento indiano contemporâneo a essas correntes compartilha fundamentos semelhantes.
- Uddālaka propõe uma doutrina materialista da alma, composta de partículas finas, e distingue viver segundo a natureza de viver segundo a superstição.
- Makkhali Gośāla, dos Ājīvikas, formula um determinismo integral análogo ao de Demócrito.
- Brihaspati, mestre dos Cārvākas, denuncia os rituais e as penitências como artifícios dos sacerdotes para exploração dos ingênuos.
- A crítica à reencarnação, comum a Cārvākas e a Lucrécio, questiona a ausência de memória das vidas passadas.
- O jainismo combina elementos naturalistas e metafísicos, propondo uma teoria do conhecimento baseada no realismo e na relatividade dos pontos de vista.
- O anekāntavāda e o syādvāda exprimem a ideia de que a realidade possui múltiplos aspectos e que toda afirmação é verdadeira apenas em certo sentido.
- A doutrina das sete nayas representa a sistematização dos diversos pontos de vista legítimos, cuja parcialidade explica a origem das disputas filosóficas.
- A tensão entre relativismo empírico e absolutismo metafísico define o desenvolvimento posterior do pensamento jainista.
- O naturalismo budista apresenta afinidades metodológicas com o empirismo e o pragmatismo modernos.
- Siddhārtha Gautama rejeita o autoritarismo e o racionalismo especulativo, ensinando que apenas a experiência direta conduz ao conhecimento.
- A verdade é identificada com o que pode ser verificado pela observação e pela prática, e o critério ético fundamental é a redução do sofrimento.
- As quatro proposições universais — impermanência, sofrimento, ausência de substância e causalidade — são formulações indutivas derivadas da observação.
- O método empírico budista inclui verificação intersubjetiva e rejeição de toda autoridade que não derive da experiência pessoal.
- O recurso a percepções extrassensoriais, entendido como extensão natural da observação, distingue o empirismo budista do empirismo ocidental.
- O problema da onisciência e da verificação do conhecimento é discutido de modo crítico nas tradições budista e jainista.
- O próprio Buda rejeita a pretensão de conhecimento absoluto, preferindo o saber prático e útil ao acúmulo de informações.
- Textos posteriores, como o Milindapañha e o Kalpa Sūtra, elaboram a noção de onisciência como liberação do condicionamento material, conceito paralelo ao da reminiscência platônica.
- Pensadores como Dharmakīrti e Śāntarakṣita reafirmam a primazia do conhecimento aplicado e denunciam o dogmatismo metafísico.
- O budismo primitivo cumpre os seis princípios definidores do naturalismo: base sensorial do conhecimento, acessibilidade universal da verdade, objetividade do mundo, causalidade sem teleologia, ausência de intervenção divina e ética humanista.
- Paralelos entre Grécia e Índia revelam convergências no tratamento do empirismo, do ceticismo e do materialismo.
- Filósofos gregos como Pitágoras e Empédocles associam a observação natural a intuições místicas, enquanto os indianos integram percepções suprassensíveis ao empirismo.
- A doutrina platônica da reminiscência, segundo a qual o conhecimento é inato e obnubilado pela matéria, assemelha-se à concepção jainista de sarvajñatva, o saber total da alma libertada.
- A contraposição entre o nirvāṇa naturalista, entendido como dissolução dos elementos, e o nirvāṇa transcendental, descrito como esfera imaterial e eterna, corresponde à oposição entre o materialismo de Lucrécio e o idealismo de Platão.
- Em ambas as civilizações, o conflito entre naturalismo e transcendentalismo estrutura a história da filosofia e define a tensão permanente entre a ciência e a metafísica.
