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Ciclo Cósmico

Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo

O Ciclo Cósmico

- A figura histórica de Empedocles e a construção de sua persona

  1. Identificação de Empédocles como um pensador pré-socrático tardio, com maturidade entre 470-430 a.C.
  2. Caracterização da tradição biográfica e doxográfica como a mais primitiva entre os pré-socráticos, associando-o a feituras de milagres.
  3. Possibilidade de Empédocles ter deliberadamente conformado sua persona a um arquétipo religioso ou de ter sido alvo de projeções posteriores, como as de Heráclides Pôntico.
  4. Popularidade e disseminação da narrativa de sua morte ao descer voluntariamente no vulcão do Monte Etna.
  5. Participação ativa de Empédocles na mitologização de sua própria carreira, com alegações de habilidades de cura e controle das forças naturais nos fragmentos de seus poemas.

- Contexto social, religioso e político de Empédocles em Acragas

  1. Pertencimento de Empédocles a uma família aristocrática de Acragas, na Sicília.
  2. Seu envolvimento com as tendências órficas e pitagóricas da Magna Grécia, possivelmente influenciado por pregadores órficos itinerantes.
  3. Caracterização de Empédocles como o exemplo mais perfeito da transição cultural de atividades xamânicas para atividades filosóficas.
  4. Comparação com os primeiros filósofos da Índia, cuja atividade se inseria num milieu religioso de ascetismo e feituras de milagres.
  5. Atribuição, por fontes tardias, de feitos como controlar o vento, ressuscitar os mortos e acalmar paixões violentas com a lira, à semelhança de Orfeu.
  6. Relato de Heráclides Pôntico sobre a revivescência de uma mulher que estivera em transe sem pulso ou respiração por trinta dias.
  7. Adoção de uma persona pública teatral e arrogante, modelada a partir de Anaximandro, usando vestes sacerdotais, sapatos de bronze e uma coroa de louros.
  8. Associação ao motivo da recusa de um reinado, semelhante a Heráclito, e seu envolvimento político do lado popular, apesar de sua origem aristocrática.
  9. Existência de uma estátua de bronze em Agrigento que o retratava com a cabeça misteriosamente coberta.

- A produção filosófica de Empédocles: os poemas *Purificações* e *Sobre a Natureza*

  1. Produção de um pensamento filosófico rigoroso e ordenado, contrastando com sua personalidade extravagante.
  2. Autoria de dois poemas em hexâmetros heroicos: *Purificações* (*Katharmoi*) e *Sobre a Natureza* (*Peri Physeos*).
  3. Conteúdo das *Purificações*: doutrina de reencarnação, purificação e libertação, sob influência órfica e pitagórica.
  4. Conteúdo de *Sobre a Natureza*: mediação entre o eleata, entre o Caminho da Verdade e o Caminho da Opinião de Parmênides.
  5. Diferentes registros de fala: como cultista ou profeta nas *Purificações* e como filósofo addressing questões mais amplas em *Sobre a Natureza*.
  6. Perspectiva de que os dois textos podem ser vistos como contraditórios ou representando diferentes estágios da vida do autor.

- A solução filosófica de Empédocles para o impasse eleata

  1. Proposta de uma solução para o impasse eleata através de dois dispositivos mediadores.
  2. Primeiro dispositivo: mediação metafísica pela interposição de um reino do “Poucos” entre o Um e os Muitos.
  3. Estrutura Um-Poucos-Muitos, posteriormente reaparecendo na Teoria das Ideias de Platão.
  4. Encarnação prática da estrutura como Um-Quatro-Muitos, através dos Quatro Elementos, ecoando a ênfase da Idade do Bronze do Oriente Próximo na quaternidade cósmica.
  5. Segundo dispositivo: separação temporal, declarando o Um e os Muitos como fases recorrentes de um único processo cíclico.
  6. O Um e os Muitos não como realidades diferentes, mas como fases de dominância alternada num ciclo infinito.

- O sistema de tempo cíclico de Empédocles baseado na quaternidade

  1. Base do sistema cósmico na quaternidade, análoga ao sistema material dos quatro elementos.
  2. Evolução do cosmos através de quatro estágios repetidos infinitamente.
  3. A Idade do Amor, ou do Um, caracterizada pela unidade indiferenciada na Esfera, uma Idade de Ouro sem conflitos.
  4. A fase seguinte: disruptura gradual da unidade pela força contrária, o Ódio ou a Discórdia.
  5. A terceira idade: Idade do Ódio propriamente dita, o oposto da Idade do Amor, um inferno de separação.
  6. A quarta idade: reaparecimento gradual do Amor e recessão da Discórdia, restaurando a unidade para uma nova Idade do Amor.

- O paralelismo geral com as tradições indianas

  1. Presença de paralelos próximos para o modelo de Empédocles nas tradições indianas.
  2. Visões cíclicas do tempo comuns no Hinduísmo, Jainismo e Budismo.
  3. Versão budista do *Abhidharmakosha* como a mais próxima em seus contornos gerais, reproduzindo o sistema de quatro idades.
  4. Versão hindu, conforme apresentada nas *Leis de Manu*, arranjando as quatro idades como um processo de degeneração seguido de um retorno ao início, semelhante a Hesíodo.
  5. Paralelo geral incluindo não apenas a ciclicidade, mas também a estrutura de quatro idades e o juízo de valor que vê a Unidade como perfeição.
  6. Modelo Jain mais próximo ao de Empédocles, mostrando degeneração ocupando metade do ciclo e regeneração a outra metade.

- A visão circular do tempo como norma no pensamento antigo

  1. A visão circular do tempo como uma das principais diferenças entre as atitudes antigas e modernas.
  2. Ensino desta visão pela maioria dos filósofos indianos e gregos.
  3. Versões encontradas ou atribuídas a Hesíodo, Pitágoras, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Diógenes de Apolônia, Xenófanes e Platão na Grécia.
  4. Padronização desta visão entre os filósofos hindus, budistas e jainistas na Índia.
  5. Contrastação com a visão linear do tempo na tradição judaico-cristã-islâmica, de origem zoroastriana.
  6. Manutenção de uma visão linear secularizada no Ocidente, associada à ideia de progresso científico.
  7. Predominância, na maioria das culturas, da visão do tempo como um círculo ou espiral, enfatizando a repetição.
  8. Descrição do tempo como uma roda giratória tanto por órficos e Empédocles quanto por budistas e jainistas.
  9. Expansão macrocósmica dos rituais de renovação do mundo para o conceito de um “Grande Ano”, o tempo de vida de um mundo ou era.
  10. Fim de uma era mundial frequentemente visto como uma catástrofe análoga ao inverno (inundação) ou verão (fogo).

- Revisão das tradições: as origens e desenvolvimento da ideia na Índia e na Grécia

  1. Dificuldade em ascertain a origem da ideia na Grécia e na Índia, sugerindo uma origem externa a ambas.
  2. Na Índia, tentativas de rastreamento remontam ao *Rig Veda*, especificamente ao hino 1.164, atribuído ao poeta Dirghatamas.
  3. Simbolismo da roda de doze raios, comumente interpretada como o ano de doze meses lunares e 360 dias.
  4. Correspondência no *Aitareya Aranyaka* entre as numerologias do corpo humano e do calendário lunar: 720 partes correspondendo a dias e noites do ano.
  5. Menção a uma roda com noventa cavalos e quatro no *Rig Veda*, possivelmente referindo-se a quatro estações de noventa dias.
  6. Primeira sugestão de um Grande Ano no *Atharva Veda*, com a sugestão de uma destruição mundial pelo fogo e dissolução no oceano primal.
  7. Doutrina da procedência e retorno do universo à Unidade primeiro encontrada na *Svetasvatara Upanisad*, por volta de 200 a.C., com implicação de periodicidade.
  8. Declarações absolutamente claras do mito do Grande Ano encontradas apenas no período Épico, nos textos das *Leis de Manu* e do *Mahabharata*.
  9. Complexo mito das quatro *yugas* (*idades*) com numerologia elaborada e ciclos de *kalpas*.
  10. Versão Jain dividida em doze estágios, com piora na primeira metade e melhora na segunda, ecoando a estrutura de Empédocles e do *Político* de Platão.
  11. Versões budistas iniciais com quatro idades degenerativas e subdivisões variadas em textos posteriores.
  12. Evidências na Grécia incluindo a imagem do círculo e da roda, utilizada pelos órficos e por Empédocles.
  13. Mito detalhado das idades cíclicas encontrado em Hesíodo, *Trabalhos e Dias*, com quatro idades de deterioração: Ouro, Prata, Bronze e Ferro.
  14. Inserção por Hesíodo de uma “Idade dos Heróis” não condizente com o padrão, sugerindo importação e adaptação do mito de quatro idades.
  15. Evidências do mito do tempo cíclico entre os primeiros filósofos gregos: Pitágoras e a doutrina da repetição exata dos eventos.
  16. Opinião de Anaximandro sobre inúmeros mundos nascendo e dissolvendo-se sucessivamente, de acordo com a “ordenação do Tempo”.
  17. Crença de Anaximandro no ressecamento progressivo do mundo pelo sol, implicando um conceito análogo ao do Grande Ano.
  18. Visões semelhantes atribuídas a Xenófanes, Demócrito, Heráclito (doutrina da *ecpirose*), Platão e Aristóteles.
  19. Imagens hindus de dissolução no oceano ou no fogo paralelamente às versões gregas, especialmente a dos estoicos, que emprestaram de fontes anteriores.
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