Elementos
Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo – Os Elementos Thomas McEvilley. The Shape of Ancient Thougth. Comparative Studies in Greek and Indian Philosophies. New York: Allworth Press, 2002
- Os Elementos
- O complexo do monismo como núcleo da metafísica do mundo antigo e sua contraposição, já desde sua formulação, a tendências críticas e desmistificadoras que se voltam contra a absolutização metafísica e contra a consequente doutrina da ilusão ou doxa, conduzindo ao surgimento de tradições céticas, dialéticas e empiristas que, contemporâneas às formulações construtivas, adquirem hoje relevância equivalente.
- A rejeição da desvalorização metafísica dos valores empíricos em favor de um retorno naturalista ao fenômeno e a consequente emergência de um segundo conjunto de motivos estilizados, complementar ao da metafísica antiga.
- O desenvolvimento da filosofia na Grécia e na Índia segundo um duplo movimento em que, contrariamente ao estereótipo moderno, ambas as tradições abrigaram correntes tanto místicas e transcendentalistas quanto pluralistas, naturalistas, empiristas, céticas e protorracionalistas.
- A Influência da Quaternidade da Idade do Bronze
- A influência da quaternidade da Idade do Bronze na mediação entre monismo e pluralismo por meio do conceito de elementos, entendido como conjunto reduzido de substâncias fundamentais, aceito por Aristóteles e transmitido à alquimia ocidental.
- O compromisso entre a pureza do Ser imutável de Parmênides e a realidade da experiência, assegurado pela hipótese de quatro substâncias inalteráveis cujas combinações explicam as aparências, ainda que sob uma superfície ilusória.
- A dupla vertente desse conceito: de um lado, o desejo metafísico de captar o mundo mediante projeções estruturais; de outro, o impulso naturalista e materialista que abre espaço para investigações empíricas.
- A transposição de cosmologias míticas da Idade do Bronze, organizadas em torno de poucos deuses e deusas familiares, para um esquema reduzido de substâncias físicas, representando uma adaptação da religiosidade da Idade do Ferro.
- O papel da quaternidade como matriz de organização do cosmos, vinculada à imagem sargônida do universo quadripartido, aos quatro pontos cardeais e às quatro idades do ciclo temporal, funcionando como último resíduo mítico antes do pluralismo empírico.
- Olhar sobre a Questão da Difusão
- A problemática da difusão cultural entre Grécia e Índia diante da coincidência exata das listas de elementos, difícil de explicar como desenvolvimento paralelo, uma vez que outras culturas, como a chinesa, elaboraram conjuntos diferentes; a negligência acadêmica quanto à investigação dessa questão de difusão.
- A Doutrina dos Elementos na Índia
- A doutrina dos elementos na Índia como resultado da transposição do monoteísmo teológico em termos materialistas, quando nomes divinos passam a designar substâncias primordiais.
- A identificação de Agni com o princípio universal e a centralidade das águas na cosmogonia védica, em diálogo com mitos mesopotâmicos e egípcios de origem aquática e ascensão solar.
+ “Tu, ó Agni, és Indra, o touro; és o amplo Visnu… Em ti, ó filho da força, estão todos os deuses.” (RV II.1.3, V.3.1)
+ “Quando vós, ó deuses, nas profundezas ali vos abraçáveis… então fizestes surgir Surya, que jazia oculto no mar.” (RV X.72) + “As águas nas quais todos os deuses estavam reunidos…” (RV X.82.5–6; X.121.7–8) * A intensificação da busca pelo princípio último nos hinos do Atharva Veda, em que fogo, água e ar emergem como raízes das coisas. + “O ar ou sopro (prana) é tratado como princípio último.” (AV XI.4) * O Brhadaranyaka Upanisad como síntese cosmogônica do mito do Germem Dourado. + “Não havia absolutamente nada aqui no princípio… Ele criou a mente, pensando: ‘Que eu tenha um eu (mente).’” (BU 1.2.2) * O Chandogya Upanisad e a criação pela multiplicação consciente. + “Ele pensou: Que eu seja muitos, que eu cresça. Ele enviou o fogo. O fogo pensou: Que eu seja muitos, que eu cresça. Ele enviou a água… A água pensou: Que eu seja muitos, que eu cresça. Ela enviou o alimento (terra).” (CU VI.2.3–4) * O Taittiriya Upanisad e o sistema quíntuplo, estendido a oito etapas. + “Deste Self surgiu o éter; do éter, o ar; do ar, o fogo; do fogo, a água; da água, a terra; da terra, as ervas; das ervas, o alimento; do alimento, a pessoa.” (TU II.1.1) * A oficialização dos “cinco grandes elementos” no Aitareya Upanisad. + “Ele é Brahman, ele é Indra… e estes cinco grandes elementos (mahabhutani), a saber, terra, ar, éter, água, luz (fogo).” (AU III.1.3) * A sequência inversa no Svetasvatara Upanisad. + “Quando a qualidade quíntupla do Yoga é produzida, como terra, água, fogo, ar e éter surgem…” (SU II.12) + “Controlado por Ele (esta) obra (da criação) se desenrola, aquilo que é considerado como terra, água, fogo, ar e éter.” (SU VI.2) * Outras tradições indianas que evidenciam quaternidade, como o Sutta Samannaphala. + “Um homem é composto de quatro elementos. Quando morre, a terra retorna à terra, a água à água, o fogo ao fogo, o sopro ao ar, e os órgãos sensoriais ao espaço (akasa).” (D.II.23) * A teoria Ajivika de sete elementos (terra, ar, fogo, água, alegria, tristeza e vida), mostrando a fundação em quaternidade expandida.
- Os Elementos e os Dois Fogos
- A relação entre a doutrina dos elementos e a teoria dos Cinco Fogos e Dois Caminhos, com a lógica de condensação e a anomalia da posição do fogo entre ar e água.
- As listas de transformações materiais associadas às trajetórias da alma, como no Chandogya e no Brhadaranyaka Upanisads.
+ “Eles retornam novamente… do espaço (akasa) para o ar; do ar tornam-se fumaça; da fumaça névoa; da névoa nuvem; da nuvem chove. Nascem aqui como arroz e cevada, ervas e árvores.” (CU V.10.5–6)
+ “Eles passam por este espaço (akasa), do espaço para o ar, do ar para a chuva, e da chuva para a terra.” (BU VI.2.16)
- A Doutrina dos Elementos na Grécia
- A formulação empedocliana dos quatro “raízes” (terra, ar, fogo e água), com antecedentes homéricos e hesiódicos.
+ “Ouvi, primeiro, as quatro raízes das coisas: o brilhante Zeus e a portadora de vida Hera, e Aidoneus, e Nestis que faz brotar com suas lágrimas uma fonte mortal de umidade.” (Empédocles, Fr. 6)
- A associação empedocliana dos elementos a divindades, preservando a dignidade do divino nos novos princípios.
- O debate sobre a origem autônoma ou difusa da doutrina, considerando Ferecides de Siros como elo intermediário entre tradição mítica e filosófica.
+ “Ferecides de Siros disse que Zeus, Tempo e Terra sempre existiram… e que Tempo, de sua semente, produziu fogo, sopro e água, distribuindo-os em cinco compartimentos.” (DK 7A8–9)
- A sistematização progressiva de Tales (água) a Anaximandro (apeiron e opostos) e Anaxímenes (ar em rarefação e condensação), em paralelo com os Upanisads.
+ “Anaxímenes… postula o ar como substância subjacente, que difere em rarefação e densidade. Rarefeito, torna-se fogo; condensado, torna-se vento, depois nuvem, depois água, depois terra e pedras.” (Simplicius, Phys. 24.26 = DK A5)
- A mediação empedocliana entre o rigor eleático e a multiplicidade empírica.
+ “Do que de nenhum modo existe é impossível que algo venha a ser; e que o Ser pereça por completo é impensável.” (Empédocles, Fr. 12)
+ “Não há criação de substância em qualquer existência mortal, nem fim na morte execrável, mas apenas mistura e separação…” (Empédocles, Frs. 8–9)
- O Quinto Elemento
- O problema do quinto elemento na tradição grega, introduzido pelos pitagóricos ou Platão, consolidado por Aristóteles como aither.
+ “Os corpos da esfera são cinco: o fogo, a água, a terra, o ar, e quinto o veículo da esfera.” (Filolau, DK 44B12)
- O aither como substância celeste, alma do cosmos e música das esferas, paralelo ao conceito indiano de akasa como meio do som e estágio intermediário da alma.
- Conclusões Provisórias
- A doutrina dos quatro elementos provavelmente teve origem única, mais clara na tradição indiana, difundindo-se à Grécia em versões distintas; o quinto elemento, tanto akasa quanto aither, parece corresponder a um mesmo conceito, possivelmente transmitido da Índia para a tradição pitagórica.
