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Kundalini

Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo

Platão e Kundalini

  • O paralelo Kundalini
  • O sistema vascular oculto
  • História da doutrina na Índia
  • História da doutrina na Grécia
  • Possibilidades de difusão
  • Difusão da Índia para a Grécia
  • Complexidade cronológica
  • A evidência indo-européia e semita
  • Egito de novo
  • O paralelo taoista
  • Influência mesopotâmica na cultura do vale do Indus
  • Mesmo idades mais remotas?

—- No Timeu, Platão distingue entre aquilo a que chama alma inferior — a parte apetitiva da personalidade, obcecada pelos prazeres corporais — e alma superior — a parte espiritual cujas aspirações transcendem o domínio corpóreo. Ele não inclui o desejo sexual entre os apetites da alma inferior, mas o considera uma forma degenerada da atividade da alma superior. A alma superior deseja apenas reunir-se novamente com a Alma do Mundo; isto, segundo Platão, constitui a forma verdadeira e pura de eros. Quando, contudo, a alma se encarna e se torna sujeita a influências externas por meio dos canais dos sentidos, surge uma forma degenerada de desejo pelo Uno e pela imortalidade no Uno. Confusa pela existência no tempo, a alma passa agora a ver erroneamente a fusão com a espécie como fusão com o Uno, e deseja alcançar a imortalidade por meio da prole. Outros fatores também intervêm, como a visão, em um objeto sexual, da sombra da Ideia de Beleza, e a busca equivocada da Ideia na sombra que despertou a lembrança dela. Assim, o verdadeiro eros, que é desejo de conhecimento supremo, liberdade e eternidade, é temporariamente substituído por um falso eros, que é o desejo sexual. Platão prossegue descrevendo a fisiologia do sexo (Tim. 73b ss., 91a ss.). A potência da alma, afirma ele, reside em uma substância úmida cuja verdadeira morada é o cérebro, sede da alma superior. O cérebro, contudo, está ligado ao pênis e, no percurso, ao coração, por um canal que atravessa o centro da espinha dorsal e conecta-se à uretra. Sob o estímulo do falso eros, o fluido anímico presente no cérebro é conduzido pelo canal espinhal e ejaculado pelo pênis sob a forma de sêmen, o qual é capaz de gerar novas criaturas vivas precisamente porque constitui substância anímica. Pode-se inferir, embora Platão não trate diretamente desse ponto, que a prática da filosofia (que exige o celibato, salvo para a geração de filhos) envolve manter a substância anímica localizada no cérebro, isto é, impedir que ela flua para baixo através do canal espinhal. Tal inferência está implícita na doutrina platônica, que sustenta que o filósofo transcende o falso eros e alcança o verdadeiro eros celeste. Dado que o falso eros atrai o fluido seminal pelo canal espinhal, a transcendência do falso eros deve pôr fim a esse fluxo descendente.

O PARALELO COM A KUNDALINI O que se tornará imediatamente evidente (embora aparentemente não tenha sido antes observado na literatura erudita) é que essa descrição da doutrina de Platão no Timeu também se aplica à doutrina hindu da kundalini. Na versão hindu, igualmente, o lugar natural ou próprio da kundalini, ou potência anímica, situa-se no ápice do cérebro; quando nela se encontra, o yogin está em estado de união com o divino (como Platão afirmou acerca do filósofo). Tal como na versão platônica, contudo, a potência kundalini está especialmente incorporada no sêmen e, em uma pessoa impura, desce no sêmen do cérebro ao pênis através do canal espinhal. Manifestando-se então não como união divina, mas como impulso à união sexual, é dissipada pelo pênis durante a ejaculação. Diversas práticas são recomendadas para forçar o sêmen a subir novamente pelo canal espinhal até que volte a residir no cérebro, onde sua força vital pode expressar-se conferindo vida espiritual em vez de física. Existem sete sedes, ou cakras, que a kundalini pode ocupar no percurso descendente ou ascendente: a da base da espinha, a do topo do cérebro e cinco intermediárias, das quais Platão mencionou apenas duas, a da garganta e a do coração.

O SISTEMA VASCULAR OCULTO Essa correspondência já é tão notável que convida à interpretação; porém, há mais. Os textos indianos distinguem numerosos canais “sutis” (nadis) no corpo. O principal é o canal pelo qual a kundalini passa para cima e para baixo pela espinha (sushumna-nadi); quase tão importantes são dois canais que percorrem a espinha, mas por fora dela (ida e pingala). Esses dois canais laterais conformam-se ao ícone das serpentes entrelaçadas. Entre sua origem no alto do cérebro e sua terminação na base da espinha, cruzam-se cinco vezes, passando o da direita para a esquerda e vice-versa; seus pontos de interseção são os cinco cakras intermediários. Platão também, no Timeu (77c ss.), conhece essas duas veias (que os anatomistas físicos não conseguem identificar) que percorrem os lados da coluna espinhal e se cruzam um número desconhecido de vezes (Platão menciona apenas o cruzamento na garganta). Tanto em Platão quanto nos textos indianos, essas veias secundárias são portadoras acessórias da potência anímica. Em ambas as tradições, a imagem da serpente aparece nesse contexto. A medula espinhal foi associada à serpente por Eliano (De Nat. Anim. l.51) e por outros, como na tradição ióguica, em que a potência kundalini é descrita como uma serpente que, uma vez despertada, desliza pelo canal da medula na espinha; segundo Eliano, a medula espinhal de um homem desliza para fora de seu corpo sob a forma de serpente quando ele morre. Que essas ideias, às quais parece evidente que nem o estudo de cadáveres nem o mero raciocínio poderiam conduzir, tenham surgido tanto na Grécia quanto na Índia, convida — e de fato exige — alguma explicação.

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