-Platon-Orpheus-Jainas
Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo
Platão, órficos e jainas
O orfismo é o grande mistério da filosofia grega. “Sem o orfismo,” afirma um estudioso moderno, “não podemos explicar Pitágoras, nem Heráclito, nem Empédocles, e naturalmente não Platão e tudo o que dele se derivou.” “Tudo o que dele se derivou” é, de fato, uma categoria vastíssima se se pensa na célebre observação de que toda a filosofia ocidental seria uma série de notas de rodapé a Platão. A afirmação parece exagerada, todavia, na medida em que o orfismo de Platão não parece ter tido muito a ver, por exemplo, com sua abordagem analítica, como o método de diairesis e synagoge exposto no Fedro, diálogo por outros aspectos muito órfico. O lado órfico de Platão coexistiu com seu lado lógico e analítico, embora não pareçam idealmente compatíveis.
Ainda assim, é verdade que a marca de Platão está em toda parte no pensamento ocidental — e especialmente na tradição sobre o além e o destino da alma. Ele tinha uma orientação particular a esse respeito. Como o mesmo autor observa, “Platão começou a falar de imortalidade quando começou a falar dos mitos órficos… Serão os impulsos da visão órfica que moverão Platão a empreender sua ‘segunda navegação’, isto é, a empreender o caminho que o conduzirá à descoberta do mundo suprassensível.” Nesse caso, o orfismo se apresenta como a fonte de toda a tradição ocidental da alma — com todas as ramificações em termos de teorias transcendentalistas de muitos tipos.
Entre as várias hipóteses acadêmicas aventadas acerca da origem dessa tradição misteriosa e poderosa (Trácia, xamanismo cita, e assim por diante), uma tende a ser esquecida — a observação aparentemente casual de Daniélou de que a doutrina que conhecemos como orfismo teria sido semeada na Grécia por missionários jainistas vindos da Índia. “O orfismo,” diz Daniélou, “deriva da influência do jainismo.” A afirmação, não acompanhada, tal como é apresentada, de qualquer argumentação, pode soar inverossímil. Contudo, trata-se de uma conclusão a que cheguei independentemente a partir de pesquisas sobre antigas doutrinas. O pensamento jainista guarda paralelos com a doutrina órfica em pontos cruciais que exigem explicação especial. O mais importante deles, talvez, envolve um ajustamento difícil, encontrado apenas nessas duas tradições, entre atomismo e dualismo mente-corpo.
DUALISMO
Para os jainistas, assim como para Platão, um ser animado é composto de uma alma e de um corpo absolutamente distintos entre si. As almas, que em sua própria natureza são totalmente imateriais, são eternas; o corpo material é efêmero. A união antinatural dos dois resulta do desejo. Os desejos, segundo os jainistas, “causam o influxo da matéria” — isto é, atraem a matéria para a alma, ou o contrário — “e impedem a alma de exercer sua função natural em plena medida. As almas são substâncias caracterizadas pela inteligência, e as diferenças entre as almas decorrem do grau de sua conexão com a matéria.” Os desejos mergulham a alma cada vez mais fundo na matéria, conduzindo-a através de uma série de encarnações; “o eu nunca se separa da matéria até sua libertação final.”
Tanto para Platão como para os jainistas, a alma, enquanto separada do corpo, é perfeita e pura. Ambos “acreditavam que a origem do mal residia no corpo, com seus apetites e paixões.” Uma vez encarnada, a alma, enfeitiçada pela instrumentalidade do corpo em satisfazer os próprios desejos, esquece-se de si mesma e mergulha cada vez mais na matéria, pondo em movimento uma cadeia causal que a prenderá à roda por muitas encarnações.
Mesmo quando o corpo morre, diz Platão, a alma não consegue escapar; tenta abrir as asas e elevar-se às alturas, mas está “saturada de matéria quando parte, e assim logo cai de volta em outro corpo, onde cria raízes e cresce” (Fédon 83d). A parte enigmática dessa doutrina exposta no Fédon é a noção de que a alma, depois de ter deixado o corpo, ainda está “saturada de matéria”; isso parece uma contradição em termos. Não há como explicá-lo em termos do pensamento grego — mas os jainistas têm a mesma doutrina aparentemente contraditória.
- Dualismo
- Duas espécies de átomos
- A perambulação da alma
- O destino da alma
- O caminho para fuga
- Empédocles
- Orfeus o jina?
- Atlântida e Jambudvipa
- A questão da difusão
- A situação cronológica
