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Afrodite

  • Contexto e Estrutura da Genealogia do Amor em Plotino
    • Recuperação e interpretação plotiniana do texto platônico (Fedro, 242d): “Amor, filho de Afrodite”.
    • Consequência: Eros possui natureza divina por sua genealogia.
    • Função atribuída a Eros por Plotino: ser patrono dos belos jovens e despertar as almas para a beleza transcendente, ou intensificar o ímpeto já existente na alma para o transcendente.
    • Análise estrutural do caráter divino do amor em quatro registros:
      • 1. Estabelece o ser divino: o vínculo protetor.
      • 2 & 3. Circunscrevem o estado da alma: pertencem ao amante.
      • 4. Diz respeito ao objeto de amor: o amado.
    • A experiência amorosa é uma ligação de impulso divino entre amante e amado.
    • O amor, apreendido na divindade, torna-se a envoltura de um processo próprio da alma: uma interioridade que se desenvolve.
    • A exterioridade (o “gancho” divino) é referida à interioridade-alma. Ela é o que a precede (o divino) e o que a prolonga (a envoltura terrestre) sob a forma do amado. O amor, como patrono, preserva ou significa esse objeto.
  • O Ser Divino como Estimulador e Estruturante da Alma
    • O ser divino, ao estimular a ligação terra/céu, confere ao ser vinculante (a alma) o aval da exterioridade.
    • A exterioridade é, simultaneamente, o quadro e o estimulador da alma.
    • O amor, como estímulo divino, é o que põe a alma em movimento dentro de uma ligação céu/terra.
  • A Transição para o Ser Daimôn: do Princípio à Imitação
    • A passagem ao ser daimôn seria, nesta perspectiva, um deslizamento na exterioridade, não tanto em seu objeto (que permanece a beleza encarnada e protegida), mas no impulso.
    • O ser daimôn torna-se, mais do que um estimulador propriamente dito, uma ilustração ou modelo de uma relação.
    • Se conservamos a noção de impulso, este seria mais de imitação do que de princípio.
    • A ligação deus-humano, característica do amor no eixo Afrodite-alma-belos jovens, encontra no ser-daimôn sua materialidade expressiva.
    • Desliza-se para uma estimulação mimética, enquanto na concepção da divindade pura ela é de princípio.
    • A imagem, motor de toda mímese, substitui, no ser daimôn, o conceito, próprio ao ser divino.
    • Plotino relembra que é aí que se trata de filosofar. Compreender o movimento postulado in abstracto, e não a deriva mimética, é a investigação propriamente filosófica. O lugar da filosofia é o conceito, não a imagem.
  • A Centralidade de Afrodite e a Exigência do Mito
    • Afrodite é central: “quer se afirme que o amor foi engendrado por ela, quer se afirme que foi engendrado ao mesmo tempo que ela, o discurso sobre o amor parece, portanto, exigir que digamos algo a respeito de Afrodite”.
    • O deslizamento reside na sucessão (“filho de”) ou na concomitância.
    • Afrodite se impõe como objeto central de todo discurso sobre o amor.
    • Plotino aborda o campo do mito com prudência, retraído atrás de uma obrigação lógica (“parece, portanto, exigir”). O filosofar sofreria as exigências de seu objeto, que o dirigiria, e não o contrário.
  • Método e Prudência Filosófica diante da Imagem
    • Plotino pontua seus recuos. O recurso ao mito serve de escusa para avançar onde o filósofo só o faria com cautela: o reino da imagem.
    • A prudência atua como proteção, mantendo a mão na questão. Se é por ela que se chega à imagem, por ela também se deve sair.
    • As perguntas “Quem é Afrodite?” e “Como Eros é gerado?” tentam impor relevo à imagem, caçar o deslizamento. Porém, a própria questão pode apagá-lo, pois sucessão e concomitância podem se reduzir ao mesmo dentro da esfera da imagem.
    • A esfera da imagem (Afrodite) é primeira; ela precede e apaga as distinções conceituais que lhe opomos. A imagem brinca com as distinções.
  • A Dualidade de Afrodite e os Dois Amores
    • Afrodite é dupla, conforme a tradição platônica (Banquete, 180d-e):
      • Afrodite Uraniana: a mais antiga, filha de Urano (sem mãe), “celeste”.
      • Afrodite Pandêmica: mais jovem, filha de Zeus e Dione, “popular” ou “terrena”, patrona dos casamentos.
    • Plotino retoma textualmente esta classificação, especificando para a Uraniana: não tem mãe, está acima dos casamentos (pois não há casamentos no céu/Urano) e vem de Kronos (o Espírito, filho de Urano).
    • A distinção é central: há dois amores, correspondentes às duas Afrodites.
    • Em Pausânias (no Banquete), a dualidade serve para evacuar o que não é digno de louvor (o amor pandêmico), isolando o amor uraniano como objeto de elogio.
    • A pergunta enigmática de Pausânias — “como para a deusa negar essa dualidade?” — sugere que, por mais que se desenvolva a distinção, o duplo permanece e se impõe.
    • A dualidade de Afrodite quebra qualquer veleidade de inscrever o amor exclusivamente na esfera divina ou na do uso. Ela constitui o ser mesmo da terceira via (a via intermediária, do daimôn?).
    • Plotino, porém, desliza: aborda a dualidade, mas não a coloca como fundamental (como a questão de Pausânias sugere), mas como hierárquica. A Uraniana prevalece sobre a Pandêmica.
    • A origem define a pureza: maior pureza em vir de um só (Uraniana, sem mãe) do que de dois (Pandemica, de Zeus e Dione). A Uraniana está associada à castração primordial de Urano (como nota Lacan), sendo alheia à “duplicidade dos sexos”.
    • Plotino, significativamente, não utiliza o termo 'pandêmico' e não aborda seu significado. O salto é feito da Uraniana diretamente para o ser daimôn, omitindo ou subsumindo a esfera pandêmica.
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