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autores:ucciani:amor-estado-alma

Amor, Estado da Alma

Ucciani (UPGA:157-178)

  • A redução dos deuses a Deus, do múltiplo ao uno, é um momento de passagem que Plotino, em filosofia, torna possível, encontrando seu eixo na fórmula do amor.
    • A fórmula plotiniana (“quando se ama um objeto e se tem parentesco com ele, também se é atraído pelas imagens desse objeto”) enuncia a difração da unidade pela imagem, que é signo da dispersão.
    • O amor, ao buscar na dispersão o que se dispersa, corre o risco de se perder no engodo da imagem, exigindo seu ultrapassamento em direção ao princípio.
    • A atração pelas imagens no mundo terreno é derivada da atração primordial pelo modelo no alto, tornando a busca amorosa um substituto da ligação fundamental e primeira.
  • A fórmula do amor estabelece um eixo de ligação vertical que se difrata em imagens, relativizando a busca do indivíduo no disparate e reduzindo-a a um substituto.
    • A exegese de Hadot, ao inverter a perspectiva plotiniana, tende a fazer da imagem apenas um detonador, antecipando o ultrapassamento que em Plotino ainda mantém a imagem como uma consequência positiva da ligação primária.
    • Enquanto Platão enfatiza a loucura inerente ao amor como uma extração de si desconectada, Plotino insiste na presença constante do laço de parentesco, guiando o indivíduo pelo tênue fio do vínculo em direção ao modelo.
    • A imagem em Platão possui uma positividade própria, enquanto em Plotino ela é relativa, e a experiência amorosa pode, em tese, prescindir dela, pois o laço preexiste à sua manifestação.
  • Plotino extrai de sua fórmula um modo de explicação que dissocia a origem do amor (parentesco com a beleza em si) de sua manifestação (atração pelas imagens), articulando dois graus.
    • O amor como estado de alma é um movimento ascendente que encontra seu sentido na parentela inicial, não necessitando, em última análise, de materialidade.
    • O amor materializado, que passa ou não pela união dos corpos, é um movimento descendente suscitado pela atração de um reflexo do já visto original.
    • Essa estrutura de dois graus se articula com a tripartição da alma (parte sempre junto aos inteligíveis, parte em relação com o sensível, e uma parte entre ambas), onde o amor surge da nostalgia da plenitude perdida.
  • O amor pelos corpos não encontra sua justificativa em si mesmo, mas em uma instância exterior que faz laço, como o prolongamento de si na procriação.
    • A união dos corpos, ao ser guiada pela natureza para produzir, perde sua autonomia e se torna o elo material que prova e materializa o elo abstrato com o ser.
    • Diferente de Platão, onde a procriação visa a perpetuação do nome individual, em Plotino ela é vista principalmente como uma finalidade utilitária para a espécie ou uma segurança narcísica.
    • A perspectiva plotiniana despossui radicalmente o sentimento amoroso, reduzindo o indivíduo a um instrumento inconsciente entre a ligação abstrata e a ligação concreta.
  • O “fazer-laço” plotiniano se impõe para circunscrever a falha platônica da extração de si, desautonomizando a imagem ao afirmar o laço da reminiscência.
    • Para aqueles que se recordam da beleza arquétipa, a beleza terrena é apenas uma imagem; para os que não têm essa reminiscência, ela parece a verdadeira beleza, mas o laço invisível continua a agir.
    • Na extração platônica, o “estranho misto” do apelo do corpo e do gozo da reminiscência institui uma desligação radical antes da estabilização filosófica.
    • Enquanto Platão mantém uma certa autonomia para a imagem e uma passagem por salto, Plotino institui um percurso de ligação contínuo, onde o amor é um percurso do vínculo, não um salto.
  • A distinção entre as perspectivas platônica e plotiniana revela que, enquanto em Platão o amor pode encontrar sua plenitude na imagem, em Plotino a plenitude só vem do retorno ao ser.
    • O laço plotiniano, ao impor a temperança como substituto do conhecimento, redistribui a terceira via (a via das imagens e da singularidade) nas esferas do uso e da divindade.
    • A temperança, como retenção na busca incessante das imagens, permite que o indivíduo que não tem visão do laço abstrato aja como se o tivesse, submetendo a terceira via à regulação.
    • A via da natureza (terceira via), quando regulada pela lei e pelo uso, encontra sua proteção contra o desvio que leva à falta, considerada como a busca do prazer pelo prazer, cortada do dever de procriação ou de fidelidade.
  • A tipologia dos estados da alma no amor estabelece gêneros conforme seu vínculo com a perpetuação (concreta) e com o laço abstrato, reafirmando a superioridade do amor independente que não precisa gerar.
    • O segundo gênero de amante, aquele que deseja produzir, revela uma incompletude fundamental, pois busca suprir sua indigência na produção de sua própria imagem, confundindo a ligação concreta com a abstrata.
    • Um terceiro gênero, derivado do segundo, descreve aqueles que, querendo gerar de modo contrário às leis e à natureza, caem, desviando-se do caminho, por não compreenderem o desejo de geração e a essência da beleza.
    • A chute (quebra) é definida como a incompreensão que leva o indivíduo a se desviar do fluxo natural da perpetuação, querendo recomeçar eternamente, em uma perversão que rompe com a natureza e a lei.
  • A temperança, como estado central entre o não-agir e o agir do prolongamento de si, surge como o regulador que define o amor como um olhar sem contato, dissociando o sentimento amoroso da sexualidade.
    • O amor propriamente dito, sentimento primeiro da alma, é duplo: uns veneram apenas a beleza daqui (que pode bastar), outros veneram também a beleza transcendente, vendo a beleza daqui como um efeito lúdico.
    • O amor é redefinido como um jogo que, quando levado a sério como um fim em si mesmo, conduz à laideur moral, pela confusão entre o belo aparente e o bem que se busca.
    • A introdução da noção de “chute” (ekpotamai) não rompe o laço, mas marca o momento em que o belo se separa do bem, um “declinamento” da assimilação que inova em relação à perspectiva platônica da equivalência das ideias.
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