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Genealogia de Afrodite

Confusões familiares; incestos divinos: essa é a origem, e basta sermos duplos! Orientar-se nesses primórdios, “nessas matérias elevadas” [Platão, Crátilo, 396c] não é tão simples; tentemos traçar um ponto de referência. Dizem-nos que no início existe o Caos, de onde surge Gea, enquanto acima deles se desenvolve Ananke ou Destino. Da união do Caos e de Gea nascem os Titãs e as Titanides, entre os quais Ouranos, Cronos e Reia. Urano se unirá à sua própria mãe e devorará, por ordem do Destino, os filhos nascidos dessa união. Essa mesma mãe dará a Cronos os materiais necessários para fabricar a foice do tempo, com a qual ele mutilará Urano. E da união de Cronos e Reia nascerá Zeus, que finalmente porá fim ao reinado dos Titãs. Os diferentes impulsos que percorrem o mundo estariam aí: dois tempos. À confusão própria dos Titãs, baseada na violência recíproca e no incesto, segue-se a progressão linear imposta por Zeus, que aparece como pertencente certamente aos dois espaços, mas na medida em que é passagem. É a essa dupla pertença que ele deve o duplo de sua própria nomeação? — Platão, de fato, se detém nisso: «Uma forma de frase, eis o que é simplesmente este nome: depois de o dividir em dois, ora usamos uma parte, ora a outra; ora o chamamos Zen de Zeus, ora Div. Mas estas duas partes, pela sua união num todo, manifestam a natureza deste Deus» [Ibid., 396a]. Subsiste, segundo Platão — e veremos aqui a entrada no linear — “que esse Deus é corretamente chamado de ‘aquele por quem’ *di hon*, a ‘vida’ Zen, pertence sempre aos vivos” [Ibid., 396b]. É isso que se torna possível a partir dele: que o vivo viva.

Afrodite é uma das doze divindades que se sentam ao redor de Zeus no Olimpo. Nisso, ela é elemento da ordem linear, do depois e do agora. Mas, assim como Zeus, ela está imediatamente ligada ao tempo da confusão. Filha de Ouranos, nascida da espuma, fruto do encontro do sangue derramado por Ouranos sob os golpes de Cronos e do Oceano, Afrodite participa dos dramas que marcaram o reinado dos Titãs. E se a Pandémica, filha de Zeus, é realmente o ser proveniente da ordem divina controlada, a Ouraniana escapa-lhe pela sua dualidade original. Da mesma forma que para Zeus, o reinado da confusão a funda. Nesse sentido, a confusão não deve ser entendida como um estado negativo que a positividade da lei divina torna caduca. Mas ela é o antecessor da lei, ou seja, o que propriamente a fundamenta. É isso que Plotino retomará, seguindo Platão, que, a respeito de Cronos, a quem designa filho de Urano e não irmão, lembra a positividade da confusão: “ora, este último Deus (Cronos) é, segundo a tradição, filho de Urano e, por outro lado, é com razão que se dá o nome de “celestial”, ourania, a essa visão que se eleva para a região superior, “que vê as coisas de cima”, horosa ta ano » [Ibid., 396c].

Assim, tanto em Plotino quanto em Platão, a genealogia de Afrodite a remete à esfera pré-divina e pré-legal. De onde ela vem, nem a lei nem a divindade têm validade. É por isso que Afrodite, como eixo da terceira via, não pode ser reduzida às outras duas, exceto, eventualmente, em sua segunda face de Pandémienne. Mas, ao mesmo tempo, essa autonomia radical em relação às outras duas vias a enraíza propriamente no pré-temporal e no “lá em cima” espacial. É aí que ela encontra seu sentido, e não tanto no que aconteceu. Ora, nesse domínio, se Platão se contenta em sinalizar a ascendência exclusiva de Ouranos, Plotino combina o texto do Banquete com o do Cratilo. Ele especifica, a partir dos dados biográficos atribuídos a Ouranos e Cronos, a genealogia, “e essa Afrodite que chamamos de Ouraniana porque vem de Cronos, o espírito que é filho de Ouranos”. Em outras palavras, ele, que levantava a questão própria do nascimento demoníaco ou divino, opta aqui por uma filiação que envolve Cronos, ou seja, que introduz uma ambiguidade tal que não se sabe mais se Afrodite é filha de Urano e, portanto, se Cronos é seu filho, irmão de Cronos ou filha de seu próprio irmão. É certo que a obrigação incestuosa imposta aos titãs seria suficiente para manter a confusão, mas Plotino contorna-a transformando a imagem, própria do mito, em conceito. Nessa operação, Ouranos e Cronos perdem o aparato próprio dos titãs para se tornarem princípios. Aqui, portanto, os da frente. O interesse da passagem reside, portanto, mais em seu aspecto metodológico (ligação ao princípio) do que em seu simbolismo. Trata-se de excluir a terceira via do mito, para isso extraí-la da esfera advinda da divindade (o Olimpo) sobre a qual se baseiam, como vimos, os jogos cênicos, e propulsá-la para a esfera do princípio: “ela deve necessariamente ser a alma mais divina, que vem diretamente de Cronos, ela, pura e sem mistura, dele, puro e sem mistura, a alma que permanece no alto”. Podemos parar nessa necessidade e questionar o que a fundamenta. Diríamos que é a vontade organizacional do filósofo. Por outro lado, vemos muito bem o que decorre disso: a pureza e o corte radical com o mundo terreno. A leitura lacaniana do mito faria sinal aqui: “ela não participa em nada da mulher, não tem mãe, nasceu da projeção na terra da chuva gerada pela castração primordial de Urano por Cronos”. A pureza estaria ligada a essa dupla característica em que o amor aparece separado daquilo que precisamente o fundamenta aqui na terra: a mulher e o sexo? Afrodite e o amor que ela simboliza são o amor sem o corpo. A passagem do símbolo ao conceito pareceria impor esse abandono do corpo. Mas, ao mesmo tempo, surge o que poderíamos chamar de problema da natureza, que será entendida como pertencente a dois tempos ou dois registros. Primeiro, aquele comumente admitido, do qual o corpo participa, e um segundo, além do corpo, ligado ao amor sem o outro, do qual o espírito seria o único ocupante. Reconhecemos a divisão habitual em Plotino entre o aqui e o lá. É ela que, aqui mais uma vez, será operacional. Afrodite é a sua impregnação e marca. Plotino enumera as suas características. Em primeiro lugar, há aquelas que derivam do seu progenitor Cronos: ela é necessariamente a alma mais divina, e desse mesmo Cronos viria a sua pureza e a sua não mistura. A operação de Plotino, que pontua o perturbador necessariamente, resume-se a uma integração do mito no quadro geral e já bem demarcado de sua filosofia. Afrodite é a alma superior, assim como Cronos é o Nous. Não é mais tanto Afrodite que dá suas qualidades à alma, mas o contrário. E se podemos notar, como faz Hadot em seu comentário, que a alma mais divina não é sobreponível à alma do mundo, não deixa de ser verdade que a transferência do mito para o logos, da imagem para o conceito, passa por uma tradução de correspondência. Nesse sentido, a imagem não deve ser percebida como algo que diz mais do que o conceito, mas como uma correspondência a ser estabelecida, que ainda não o foi. Tratava-se de um método filosófico; ele se manifesta aqui por meio da necessidade da correspondência. Nesse aspecto, Plotino iria mais longe do que Platão. Onde este último entrega o mito, Plotino o traduz.

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