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Filosofia

Guillermo Fraile, Historia de la Filosofía

O fundo ontológico da filosofia epicurista, essencialmente materialista, sensista e empirista, procede do atomismo de Demócrito, e sua norma é a simplicidade e a utilidade para conseguir a felicidade nesta vida.

  • Epicuro desinteressa-se das questões puramente especulativas e rejeita a Matemática por não considerá-la de utilidade prática.
  • Toda filosofia é inútil se não serve para conseguir a felicidade: “Não há que inquietar a ninguém porque não tenha lido uma linha de Homero ou porque não saiba se Heitor era troiano ou grego”.
  • Divide a Filosofia em três partes subordinadas entre si: Canônica (Lógica), Física e Ética.
  • A Canônica trata do conhecimento e das normas para distinguir o verdadeiro do falso, e ordena-se à Física.
  • A Física visa dar um conceito da realidade para libertar o homem do temor ao destino, aos deuses e à morte, que são os três grandes impedimentos para a paz da alma.
  • A Física subordina-se à Ética, que é a parte fundamental e trata dos meios adequados para alcançar a felicidade.

2. Canônica (regra)

A teoria do conhecimento epicurista baseia-se nas sensações produzidas por eflúvios de átomos que se desprendem dos corpos e penetram nos órgãos dos sentidos.

  • A única fonte de conhecimento é a sensação, produzida por eflúvios (imagens) compostos de átomos sutilíssimos e velocíssimos que se desprendem da superfície dos corpos.
  • Esses eflúvios penetram pelos poros nos órgãos dos sentidos, produzindo impressões como um selo sobre a cera.
  • A emanação incessante não altera a constituição interna dos corpos nem diminui seu volume, sendo cópias exatas da figura exterior.
  • Os eflúvios se renovam constantemente, sendo substituídos por outros átomos que afluem do ar circundante.
  • Sua rapidez é tanta que produzem impressão de continuidade, podendo misturar-se e até ascender à abóbada que envolve o mundo, rebotando e deformando-se com o choque.

Epicuro estabelece três critérios de verdade que se reduzem à evidência sensível: os sentidos, a antecipação e as paixões.

  • Os sentidos (percepção sensível) versam sobre objetos atuais e presentes; a percepção pura é meramente passiva, tem evidência própria e é sempre verdadeira, mesmo em loucos e enfermos.
  • O erro provém da opinião ou do juízo, consistindo em afirmar que tal sensação corresponde a um objeto distinto do que a causa.
  • O erro pode ser corrigido pela mesma experiência, comprovando se uma sensação é confirmada ou não por outras sensações.
  • A antecipação (prolepsis) versa sobre objetos longínquos ou invisíveis que não podem ser percebidos diretamente pelos sentidos; os conceitos reduzem-se a sensações que permanecem na memória.
  • As recordações fornecem um meio de prever o futuro por analogia com o passado e de inferir as coisas longínquas e invisíveis fora do alcance da percepção direta.
  • As paixões (pathé) versam sobre coisas presentes na medida em que produzem sensações de prazer ou de dor.

3. Física

A física epicurista, contida na carta a Heródoto, não é original e reduz-se ao sistema atomista de Demócrito com modificações ligeiras, tendo finalidade prática de suprimir o temor ao destino, aos deuses e à morte.

  • Os elementos eternos constitutivos de todas as coisas são a matéria (átomos), o vazio (espaço) e o movimento.
  • O Universo é infinito, pois não tem nada que o limite; fora dele não existe nada, sendo infinitos o vazio-espaço e os corpos que se hallam nele.
  • A matéria é composta por um número infinito de átomos invisíveis, cuja existência é afirmada porque assim o exige a razão (prolepse), embora não possam ser percebidos pelos sentidos.
  • Os átomos têm distinta magnitude, peso e figura; suas classes são muito numerosas, embora não infinitas, mas dentro de cada classe há um número infinito de átomos.
  • Existe o vazio, ou espaço, que separa e distingue uns átomos de outros, contém todas as coisas e é necessário para explicar a distinção, agrupamento, disgregação, mutações e movimento dos átomos.
  • Os átomos estão agitados no vazio por um movimento eterno em forma de turbilhão; sua queda natural é vertical ou retilínea, todos caem com a mesma velocidade, mas os menores são oprimidos pelos maiores e tendem a subir.
  • Além do movimento geral de gravidade, os átomos possuem outro movimento muito tênue de declinação (clinamen), pelo qual podem desviar-se da vertical, para salvar a liberdade e evadir-se da lei da necessidade ou do destino.
  • No interior de cada átomo existe um movimento de vibração, que é causa de sua elasticidade nos choques.
  • Todas as coisas se originam dos choques fortuitos entre os átomos; uns rebotam, outros se acoplam conforme suas figuras, constituindo os diversos corpos.
  • Nada sai do nada e nada volta ao não-ser: “Antes de tudo, nada provém da nada, pois tudo nasceria de tudo sem necessidade de sementes”.
  • Dentro do turbilhão geral formam-se turbilhões parciais, cada um dos quais dá origem a outros tantos mundos infinitos que nascem, mudam sem cessar e se destroem, havendo mundos de formas muito diversas.

Supressão das causas de intranquilidade: não há que temer o destino, pois não existe; só existe o acaso.

  • Tudo se muda, se transforma e se destrói sem sujeição a nenhuma lei, em virtude de causas puramente mecânicas.
  • Nada é necessário; não se pode prever nenhum acontecimento, pois no Universo não existe ordem nem finalidade.

Supressão do temor à morte: a alma humana compõe-se de átomos esféricos, lisos, sutis e sumamente móveis, estendidos pelo corpo como uma rede, e não sobrevive ao corpo.

  • A alma, de si, não possui sensibilidade, adquirindo-a apenas quando unida ao corpo; separada dele, nem sente, nem sofre, nem goza.
  • A alma humana tem a faculdade de pensar, localizada no meio do peito.
  • No momento da morte, os átomos da alma se disgregam, deixando de existir juntamente com o corpo, voltando ao turbilhão do movimento no vazio.
  • Epicuro admite uma certa liberdade suficiente para que o sábio possa dirigir sua vida e governar-se a si mesmo (eleição); os átomos da alma têm “declinação” para libertar-se, até certo ponto, do destino cego.
  • “A morte, pois, o mais horrendo dos males, em nada nos atinge. Pois enquanto nós vivemos não veio ela, e quando ela veio já não vivemos nós. Assim, a morte não é contra os vivos nem contra os mortos, pois naqueles ainda não está e nestes já não está”.

Supressão do temor aos deuses: Epicuro cria evidente a existência dos deuses, mas eles não têm parte na formação dos mundos nem exercem providência nos assuntos humanos.

  • A existência dos deuses é atestada pelas aparições, pela experiência dos sonhos e pelo consentimento universal dos homens.
  • “Cree que los dioses existen porque es necesario que exista una naturaleza excelente y de la cual no pueda hallarse nada mejor”.
  • Os deuses são compostos de átomos aeriformes mais sutis e perfeitos que os das almas, com figura semelhante à dos homens, porém muito mais bela.
  • Residem em jardins maravilhosos nos espaços que separam uns mundos de outros (metacosmias), seu número é incalculável, e não conhecem os mundos nem exercem providência.
  • A intervenção nos assuntos do mundo poderia turbar sua felicidade; nem os bens nem os males dependem deles.
  • “Dios, o bien quiere impedir los males y no puede, o puede y no quiere, o ni quiere ni puede, o quiere y puede. Si quiere y no puede, es impotente, lo cual es imposible en Dios. Si puede y no quiere, es envidioso, lo que, del mismo modo, es contrario a Dios. Si ni quiere ni puede, es envidioso e impotente; por lo tanto, ni siquiera es Dios. Si puede y quiere, que es lo único que conviene a Dios, ¿de dónde proviene entonces la existencia de los males y por qué no los impide?”
  • São inúteis as orações, os sacrifícios e os atos de culto, mas os deuses, por sua excelente natureza, são credores de veneração; nisso consiste a piedade e a única forma racional de religião.
  • “Es mejor seguir la mitología de los dioses que someterse a la inevitable necesidad de la Naturaleza, porque los dioses dan la esperanza de dejarse aplacar mediante el culto, mientras que la Naturaleza es implacable y ciega”.

4. Ética

Dado o conceito materialista da realidade, o fim do homem é lograr a felicidade possível neste mundo, que consiste em evitar o dor (único mal) e conseguir a maior quantidade possível de prazer (único bem).

  • Todos os seres viventes buscam os prazeres e fogem das dores; este é o único critério que deve presidir a conduta humana.
  • Epicuro não é um puro hedonista: sua doutrina sobre o prazer é mais elevada e oposta à dos cirenaicos.
  • O homem é um composto de corpo e alma, e a cada um correspondem seus próprios prazeres; a alma tem uma classe de prazer mais elevado, denominada “gozo” (chara).
  • A alma, dotada de conhecimento e reflexão, deve reger e regular a vida do sábio, refreando as atividades do corpo mediante a prudência (phronesis), moderando os apetites e visando o equilíbrio, a paz interior e a tranquilidade.

A virtude consiste no meio de evitar o dor e de conseguir a maior quantidade possível de prazer, e o sábio deve moderar seus apetites pela temperança e saber calcular as sensações.

  • Nem todos os dores são absolutamente maus (às vezes são preferíveis aos prazeres, pois podem trazer um bem maior), e nem todos os prazeres são desejáveis (podem ser causa de dores).
  • O sábio deve moderar a satisfação de seus apetites mediante a virtude da temperança, pois o abuso dos prazeres pode ocasionar dor.
  • Deve saber calcular as sensações, distinguindo sua duração, intensidade e consequências, não elegendo a cegas qualquer prazer, especialmente os do corpo.
  • Epicuro recomendava uma vida austera e refrear os apetites imoderados, distinguindo entre necessidades naturais e não naturais ou não necessárias.
  • O sábio deve excluir o luxo, contentando-se com o necessário para a vida: com pão, água e um alimento frugal é mais feliz do que com festins.
  • Epicuro dava exemplo com sua conduta, contentando-se com água e pão moreno, e em uma carta a um amigo escreveu: “Envia-me um pouco de queijo citrídeo para que eu possa fazer uma comida mais excelente”.

No prazer, distinguem-se dois aspectos: o negativo (ausência de dor, repouso, imperturbabilidade), que é o principal e produz a paz interior da alma, e o positivo (ligado ao movimento e à atividade do corpo ou da alma).

  • A ausência de dor (aponía), o repouso, o descanso e a imperturbabilidade (ataraxia) produzem a paz interior da alma, livre de dores, temores e perturbações, o que é característico do sábio.
  • O sábio deve livrar-se dos cuidados da família, das riquezas, dos negócios e honras, e de tudo quanto possa perturbar a paz de seu espírito.
  • “Se queres fazer rico a Pítocles, não lhe acrescentes riquezas, mas diminui-lhe os desejos”.
  • O aspecto positivo do prazer vai unido ao movimento e à atividade próprios do corpo ou da alma, mas o sábio deve sobrepor-se a tudo mediante severa disciplina.
  • Sua norma é bastar-se a si mesmo, contentando-se com pouco e logrando a autossuficiência.
  • Epicuro condenava o suicídio como meio de libertação das dores físicas ou morais.

Dentro de uma filosofia materialista que nega a providência divina, a imortalidade da alma e as sanções além desta vida, a moral de Epicuro permanece num plano de dignidade humana, aconselhando a austeridade e pondo a felicidade na paz e tranquilidade da alma.

  • A moral epicurista não consiste num puro hedonismo nem é uma moral de libertinagem.
  • Aconselha a austeridade de vida, pondo a felicidade não no desregramento das paixões nem nos prazeres inferiores do corpo, mas na paz e na tranquilidade da alma, na “graça”, no bom humor e na equanimidade do sábio.
  • Epicuro sobrelevou suas doenças com grandeza de alma e até com alegria, pelo que seus discípulos o tiveram na mais alta estimação.
  • Os discípulos, porém, não souberam manter a dignidade de conduta do mestre e, com mais lógica do que ele, deduziram de seus princípios outras tendências inclinadas ao hedonismo em seu aspecto menos elevado.
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