Cadeia Hermética
VAN DEN KERCHOVE, Anna. La voie d’Hermès: pratiques rituelles et traités hermétiques. Leiden Boston: Brill, 2012.
III. A CADEIA HERMÉTICA
A cadeia hermética é o local onde o ensino é transmitido e onde suas propriedades principais são preservadas, com cada mestre, à imitação de Hermes e do narrador, devendo se beneficiar das tradições oral e escrita e da formação autodidata.
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A cadeia assegura o caráter divino e sagrado do ensino, a importância do diálogo, a interação entre palavra e intelecto e o propósito salvador.
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Cada mestre, tornando-se um “novo Hermes”, produz um ensino que aparece como uma revelação ulterior que imita a “Revelação primordial”.
1. A implantação da cadeia hermética
Para que a cadeia de transmissão perpetue o ensino sem rupturas e que a ordem de Poimandres (ser um guia para os dignos) seja respeitada, a escolha dos discípulos deve ser regulamentada com base em critérios como filiação, aptidão e vontade divina.
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Em SH 23.6, Ísis lista os sucessores de Hermes: TáT (seu filho e herdeiro), Asclépios Imouthés (pelos desígnios de Ptah e Hefesto) e todos aqueles que investigam com rigor pela vontade da providência.
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A citação de SH 23.6: “Mas, após ele, como sucessores havia TáT, seu filho e ao mesmo tempo herdeiro desses ensinamentos, e logo depois Asclépio Imouthés, segundo os desejos de Ptah e Hefesto, e todos aqueles que estavam prestes a realizar uma investigação com rigor seguro, conforme a vontade da providência rainha de toda a coisa”.
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Em Ascl. 1, Hermes justifica a presença de apenas três discípulos (Asclépios, TáT e Amon) por preocupação em não profanar o ensinamento divino com a intervenção e presença da multidão.
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A citação de Ascl. 1: “Nós não somos tão ciumentos a ponto de afastar Amon do nosso grupo; pois, me lembro, muitos dos meus escritos lhe foram dedicados, como também a TáT, meu filho muito amante e muito querido, muitos dos meus tratados físicos e uma multidão de obras ‘de fora’. E escreverei teu nome (em cabeça) deste tratado. Não chame ninguém além de Amon, uma conversa tão religiosa e (portando) sobre tais assuntos não pode ser profanada pela intervenção e presença do grande número.”
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Os critérios para a escolha de um discípulo incluem a filiação (insuficiente e não indispensável), a aptidão para receber a instrução (indispensável) e a vontade divina, cujo intérprete é o mestre.
b. A sucessão mítica dos mestres
As informações disponíveis permitem reconstituir parcialmente a cadeia de transmissão, com variantes que representam diferentes ramos e que incluem figuras cujos nomes divinos, de origem egípcia, conferem um caráter sagrado à tradição e servem de modelo para a cadeia histórica.
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As figuras nomeadas (TáT, Asclépios, Amon, Kaméphis, Ísis, Hórus) são todas baseadas em divindades egípcias ou têm origem egípcia reivindicada, servindo como modelos divinos para a cadeia de transmissão.
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Asclépios é associado a Imhotep, o arquiteto da pirâmide de degraus de Djoser, uma figura de sabedoria, magia e cura, cujo culto perdura até pelo menos o século III d.C.
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Ísis é inserida na cadeia hermética por meio de uma tradição grega que a associa a Hermes, mas o autor de SH 23 modifica essa tradição ao introduzir Kaméphis como elo entre Hermes e Ísis.
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O título do fragmento SH 23 (Κόρῃ κόσμου) pode significar “pupila do olho do mundo”, referindo-se ao olho do sol e ao papel iluminador e punitivo de Ísis, que permite aos homens ver, algo fundamental para a salvação.
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Kaméphis, figura mencionada apenas em SH 23.32 e por Damasco, é aproximado de Kneph-Kematef, o “criador inicial” da literatura mágica e gnóstica greco-romana, identificado por Jâmblico como o chefe dos deuses celestes e o intelecto que se pensa a si mesmo.
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O nome TáT pode ser uma grafia incorreta de Thot ou uma transcrição do velho-copta TaT, que significa o pilar osírico, símbolo de estabilidade, permanência e fixidez, adequado à sua posição de garantir a transmissão no tempo histórico.
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Essas figuras com nomes divinos conferem um caráter sagrado à cadeia de transmissão, inserem o ensino em um contexto egípcio e, juntas, criam uma representação divina do ensino que serve de modelo para a cadeia histórica dos hermetistas.
2. As relações entre o mestre e seus discípulos
As relações entre o mestre hermético e seus discípulos são modeladas nas existentes entre Hermes e seus discípulos, adaptando-se à realidade de uma instrução que se prolonga no tempo e onde o caráter individual e privado do ensino é enfatizado, apesar da possível presença de ouvintes.
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Na maioria dos tratados, Hermes se dirige a um único discípulo, enfatizando o caráter individual da instrução, embora outros possam estar presentes como ouvintes, como no Asclépius.
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A dedicatória a um discípulo, como em CH X 1, implica que o mestre conversa apenas com ele durante toda a lição, mesmo que outros, como Asclépios, estejam presentes e se beneficiem indiretamente.
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Embora a instrução possa ser pública (diante de alguns discípulos), ela se quer teoricamente privada, com seus efeitos agindo pessoalmente sobre cada discípulo conforme seu nível de avanço, refletindo a situação escolar da época.
b. Mestre e discípulo, pai e filho
As designações de “pai” (πατήρ) e “filho” (τέκνον) na literatura hermética, embora possam refletir um topos de parentesco espiritual, também indicam, no caso de TáT, uma relação de parentesco biológico com Hermes, o que o distingue dos demais discípulos.
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Embora a opinião geral seja a de que se trata de uma relação exclusivamente espiritual e de um topos literário, o uso desses termos revela particularidades.
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Hermes chama TáT de τέκνον e παῖς com frequência, e TáT o chama de πάτερ, ao passo que Asclépios e Amon nunca usam esses termos, dirigindo-se a Hermes por seu nome ou epiclese.
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TáT é o único discípulo qualificado por superlativos como “muito amante”, “muito querido” (Ascl. 1) e “muito jovem” (CH XIV 1), similar à forma como Ísis se dirige a seu filho Hórus.
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Em SH 23.6, TáT é dito “υἱός” (filho) de Hermes, e o critério de filiação biológica parece preceder o da juventude para a obtenção das qualidades de “herdeiro” (παραλήπτωρ) e “sucessor” (διάδοχος).
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Em CH XIII 2-3, TáT reivindica ser um “filho legítimo” (γνήσιος υἱός) de Hermes em um momento importante de sua instrução sobre a regeneração, após ter demonstrado estar purificado e pronto.
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O termo υἱός é usado em outros contextos herméticos para designar uma relação forte e de caráter divino comum entre Deus e seu filho (a Palavra, o mundo, o homem), transcendendo a parentela biológica.
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A relação filial biológica no mundo dos protagonistas, transposta para o mundo dos destinatários, reforça a relação pessoal e acentua o papel do mestre espiritual como guia e paradigma, cuja educação se dá pela imitação, como no mundo greco-romano.
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A relação espiritual existe para Asclépios, mas não é explicitamente destacada porque ele não vive experiências iniciáticas semelhantes às de Hermes ou TáT nos tratados existentes.
d. A aliança entre mestre e discípulo
Assim como entre Poimandres e o narrador, a relação entre mestre e discípulo hermética é fundada em uma aliança, onde o discípulo recorda uma promessa do mestre e o agradece ao final da formação, refletindo a realidade social da época com seus direitos e deveres recíprocos entre pai e filho.
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Em CH XIII 3 e NH VI, 6, o discípulo inicia a lição recordando uma promessa anterior do mestre, e TáT pede a Hermes que não seja ciumento (um vício contrário a Deus) e que seja generoso com a instrução.
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A citação de CH XIII 22: “Eu te agradeço, pai, por me dizer isso enquanto eu rezo”, mostrando o discípulo agradecendo ao mestre por sua atitude e ensinamentos.
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A relação social entre pai e filho no mundo greco-romano envolvia deveres mútuos: o pai devia cuidar da educação do filho, e o filho devia reconhecimento e piedade filial (προέρχομαι χάριν, σέβομαι, προσκυνῶ) para com o pai.
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No contexto hermético, esse reconhecimento em relação ao mestre assume um caráter religioso devido à natureza divina do mestre (Poimandres, Hermes), sobrepondo-se à piedade para com os deuses.
e. Amon, o rei anônimo e o profeta
As relações na cadeia hermética podem variar, como exemplificado pelo papel de TáT em CH XVII, onde ele atua menos como um mestre e mais como um “profeta” ou “servo do deus” que instrui um rei anônimo sobre seus deveres religiosos.
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Em CH XVII, TáT assume o papel de um “servo do deus” (como os pastophoroi egípcios) que indica ao rei o que ele deve fazer em matéria de culto e rito para ser um bom rei piedoso.
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Nesse tratado, a decisão final de encerrar o diálogo parte do rei, que se dirige a TáT como “profeta” (προφῆτα), mostrando uma inversão na relação de poder devido à função régia do discípulo.
