Do Poimandres aos Hermetistas: Prática Didática
VAN DEN KERCHOVE, Anna. La voie d’Hermès: pratiques rituelles et traités hermétiques. Leiden Boston: Brill, 2012.
CAPÍTULO UM: A REVELAÇÃO DIVINA E A CADEIA HERMÉTICA
A maioria dos tratados herméticos utiliza o diálogo entre um mestre e um discípulo como forma de ensino, legitimando uma via de conhecimento de origem egípcia.
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A forma dialogal aparece na maioria dos tratados, envolvendo figuras como Hermes, Asclépios, Tat, Amon, além de Ísis, Hórus, Osíris, Poimandres, o Intelecto e o Bom Demônio.
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Algumas divindades, como Hermes, Asclépios e Tat, podem assumir tanto o papel de discípulos quanto de mestres em diferentes tratados.
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As personagens, embora frequentemente tenham nomes gregos, têm sua origem reivindicada como egípcia, com referências a templos e cidades como Hermópolis.
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O cenário egípcio, presente em maior ou menor grau, é uma estratégia literária para legitimar o caminho de Hermes como uma tradição válida e antiga.
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Os autores hermetistas empregam uma vasta gama de termos gregos relacionados ao ensino, como διδάσκω, μανθάνω, παράδοσις, παραλαμβάνω, entre outros, para descrever o conteúdo, o modo e a realização da transmissão.
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Essa variedade lexical confirma a importância fundamental do ensino na vida do hermética e indica que essa prática perdura durante toda a sua existência, seja como mestre ou discípulo.
I. A REVELAÇÃO DIVINA: HERMES E SEUS INSTRUTORES DIVINOS
Hermes é a figura central na maioria dos textos, porém a fonte última do saber é apresentada como divina, com outros autores posteriores reconhecendo essa hierarquia ao atribuir o ensinamento a Poimandres.
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Hermes aparece em quinze dos dezoito tratados e em vinte e quatro fragmentos de Stobéu, enquanto Asclépios e Ísis se reivindicam como seus discípulos ou seguidores.
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Zósime, em seu Compte final I 8, e uma coleção siríaca de citações atribuem o ensinamento diretamente a Poimandres, eclipsando Hermes como a autoridade máxima.
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O compilador cristão da coleção siríaca chega a substituir Hermes por Poimandres, demonstrando a consciência de que o saber remonta a Deus, acima de qualquer intermediário humano.
1. Hermes Trismegisto: o discípulo anônimo do CH I?
O autor do CH I não identifica o narrador que dialoga com Poimandres, um anonimato que pode ter uma função específica para o uso do texto, sendo que um trecho do CH XIII 15 sugere que a tradição o identificava com o próprio Hermes Trismegisto.
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A ausência de identificação do narrador em CH I é considerada voluntária e com um papel a cumprir na utilização do texto.
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O narrador de CH I se apresenta como um ser humano recebendo uma revelação divina, o que se alinha com a visão de Hermes Trismegisto como um sábio egípcio, conforme a Crônica de João Malalas.
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Tradições que mencionam a existência de dois, três ou cinco Hermes, como em Ascl. 37 e no testemunho de Jorge Sincelo, criam uma incerteza sobre qual Hermes seria o narrador, mas a literatura hermética em si favorece a identificação com Trismegisto.
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A genealogia confusa apresentada por Jorge Sincelo, onde um Hermes é pai de Tat e outro é seu filho, não corresponde diretamente à relação apresentada nos tratados herméticos, onde Trismegisto ensina Tat como seu filho.
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A figura central em toda a literatura hermética é Hermes Trismegisto, e a breve menção a múltiplos Hermes em Asclépius é uma exceção, não havendo razão interna para identificar o narrador com outro que não Trismegisto.
2. Os três intelectos instrutores divinos de Hermes
Hermes Trismegisto, seja identificado ou não com o narrador de CH I, é o único discípulo que recebe instrução diretamente de entidades divinas, o que atesta sua legitimidade e autoridade como mestre.
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Poimandres é descrito tanto como o Intelecto quanto como a Palavra da Soberania, ensinando por meio de visão noética e por meio da palavra, estabelecendo o papel complementar desses dois elementos no ensino hermético.
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O Bom Demônio de CH XII, cujo ensino é exclusivamente oral, pode estar ligado a uma coleção gnômica chamada “Os Ditos do Bom Demônio”, que representaria uma tradição oral distinta.
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Em CH XI, Hermes é instruído pelo Intelecto, uma entidade divina abstrata que, assim como Poimandres, incentiva o discípulo a prosseguir no aprendizado de forma autônoma usando seu próprio intelecto.
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A ambiguidade do termo “νοῦς” para designar tanto a faculdade humana quanto a entidade divina cria uma confusão voluntária entre o intelecto de Hermes e seus instrutores divinos.
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Todos os três instrutores (Poimandres, Bom Demônio, Intelecto) participam do Intelecto divino indivisível, diferenciando-se apenas pelo grau de individualização e personificação.
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A posse de um intelecto particular, que permite ao discípulo continuar seu aprendizado de forma autônoma após a instrução inicial, justifica o desenvolvimento contínuo e diversificado da literatura e das ideias herméticas.
