EXEGESE ALEGÓRICA EM PLUTARCO
HANI, Jean. La religion égyptienne dans la pensée de Plutarque. Paris: Les Belles Lettres, 1976.
Na história da exegese alegórica, Plutarco ocupa um lugar de destaque. Ele levantou as questões a ela relativas em repetidas ocasiões e em diversos diálogos, como acabamos de ver; aos diálogos citados acima, deve-se acrescentar o fragmento sobre As festas de Daedalus e o tratado Sobre os oráculos da Pítia, no qual ele reflete, na qualidade de sacerdote de Apolo, sobre a formulação obscura de certos oráculos do deus e o sentido de suas alegorias (cap. 25, 407 E). No entanto, o De Iside é, sem dúvida, a mais extensa das obras de Plutarco em que se aplica o método alegórico.
Em sua empreitada, Plutarco não era um inovador, mas o herdeiro de uma longa tradição helênica, pois o método da exegese alegórica remonta a tempos distantes, até os primeiros filósofos, e parece, aliás, que ela é inerente ao espírito grego, que sempre teve grande apreço pelo mito, o qual já inclui, por si só, a ideia de um pano de fundo e encerra, em maior ou menor grau, o mistério. A exegese alegórica nasceu da grande crise religiosa que abalou a consciência helênica no momento em que surgiu a filosofia. A reflexão filosófica, de fato, não demorou a suscitar um conflito entre as exigências do pensamento racional e os dados, bem como os procedimentos, do pensamento “primitivo” veiculado pelos mitos. Quer se quisesse eliminá-los pura e simplesmente, quer se tivesse o desejo de salvá-los, de qualquer forma os mitos não podiam mais ser aceitos tal como eram. Aqueles que queriam preservá-los foram obrigados a encontrar-lhes um sentido diferente daquele que ofereciam em sua literalidade, a encontrar neles um sentido oculto capaz de satisfazer a razão. A investigação centrou-se principalmente nos mitos transmitidos por Homero e Hesíodo; ela começou no século VI a.C. com os pré-socráticos, e a exegese alegórica se constituiu formalmente com Teagênio de Régio (século VI a.C.), Anaxágoras, Demócrito, os sofistas e os cínicos. Ela atingiu seu pleno desenvolvimento com os estoicos, que levaram muito longe o esforço de racionalização científica dos mitos; após eles, o alegorismo continuou a ser praticado cada vez mais entre historiadores como Evémero, Paloefato, Diodoro e Estrabão, e entre os neoplatônicos e os neopitagóricos.
É entre os epígonos da exegese estoica e os primeiros neoplatônicos que se situa Plutarco. Encontramos em De Iside uma recapitulação de quase todas as formas de exegese alegórica constituídas anteriormente: a exegese física, que vê sob o manto dos mitos e dos deuses realidades de ordem física, relativas aos elementos do mundo ou à sua organização; a exegese ilustrada pelos estoicos, mas que remonta, para além destes, à filosofia pré-socrática da qual depende; a exegese histórica, que remonta aos sofistas, muito em honra na escola aristotélica, especialmente em Paloefato, e que não quer ver nos mitos e nos deuses senão fatos e personagens da história do mundo, mas deformados pelo maravilhoso e mal interpretados: a forma mais aguda dessa exegese, redutora do sobrenatural, foi implementada pelo famoso Evémero; se não se encontra no De Iside a exegese psicológica e moral que se encontra em outros tratados e diálogos, por outro lado, encontra-se ali desenvolvida longamente a exegese mística, de inspiração platônica, cujo pleno desabrochar ocorrerá no século seguinte entre os neoplatônicos e os neopitagóricos, e que vê nos mitos e nos deuses símbolos das realidades espirituais mais elevadas.
É essa exegese — que ele defende com unhas e dentes contra as exegeses materialistas, o historicismo de Evémero e o fisicalismo dos estoicos — que caracteriza profundamente Plutarco e que determinou, como veremos a seguir, a abordagem e o plano de toda a exposição do tratado.
