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Digressões sobre a Natureza Plástica

CRAGG, Gerald R. (ORG.). The Cambridge Platonists. Repr ed. Lanham: Univ. Pr. of America, 1968.

  • Proposição de uma natureza plástica artificial, metódica e subordinada como via intermediária necessária para explicar a ordem do cosmos, evitando tanto o mecanicismo fortuito dos atomistas quanto o voluntarismo ocasionalista que obrigaria a Divindade a intervir direta e laboriosamente na formação de cada organismo ínfimo da criação.
    • Insuficiência das leis divinas puramente extrínsecas ou comandos verbais para governar a matéria inanimada, exigindo-se a existência de uma agência energética e operativa que atue como braço ministerial da Inteligência Suprema, garantindo que a queda de uma pedra ou a formação de um inseto sigam um curso regular sem a necessidade de milagres perpétuos.
  • Crítica sistemática ao teísmo mecanicista por converter a Divindade em espectadora ociosa de um mundo morto e estatutário, desprovido de vitalidade interna, onde a sabedoria divina permaneceria clausurada no intelecto absoluto sem exercer qualquer influência real sobre a estruturação biológica e astronômica da realidade.
    • Refutação da tese de que razões materiais e mecânicas seriam as únicas explicações filosóficas legítimas, demonstrando fenômenos que transcendem ou contrariam as leis do movimento local, como a respiração animal e a inclinação dos polos celestes, os quais demandam a presença de uma substância incorpórea governante.
  • Caracterização da natureza plástica como arte divina incorporada, que atua de forma intrínseca e imediata sobre a matéria, diferenciando-se da arte humana por operar silenciosamente a partir do interior do objeto, sem o uso de instrumentos externos, ruídos ou deliberações hesitantes que marcam a imperfeição dos artífices mortais.
    • Preeminência da agência natural sobre a técnica humana por sua infalibilidade e constância, agindo como um instinto vital que não necessita de consulta ou arrependimento, funcionando como o selo de uma Onisciência que imprime suas assinaturas em toda a extensão do mundo corpóreo através de um labor mágico e vital.
  • Definição da natureza plástica como uma vida ectípica e derivada, representando a razão imersa e obscurecida na matéria, que, embora execute planos artificiais para fins determinados, não possui consciência expressa ou autopercepção de seus próprios atos, assemelhando-se ao operário manário subordinado ao arquiteto.
    • Manifestação da imperfeição da natureza plástica através de erros e formações monstruosas quando confrontada com a contumácia ou ineptidão da matéria, o que comprova que este agente não é irresistível nem onipotente, mas uma potência ministerial que pode ser frustrada por obstáculos físicos.
  • Demonstração da incorporeidade essencial do princípio plástico fundamentada na necessidade de uma unidade diretiva que sustente o modelo integral de um organismo, coordenando partes distantes da matéria de forma conspirante e harmônica, capacidade esta vedada à extensão material passiva e fragmentada.
    • Identificação da vida plástica como a mais baixa das vidas, sendo inferior à vida sensitiva e racional, funcionando como uma irradiação sombria da alma intelectual que atua fatal e simpaticamente sobre o mundo, servindo como o verdadeiro destino das coisas corpóreas sob a supervisão de uma providência intelectual superior.
  • Refutação das distorções hilozoístas e cosmoplásticas que pretendem elevar a natureza plástica ao status de divindade absoluta, denunciando o erro categorial de derivar a consciência racional e a inteligência de uma base irracional e inconsciente, o que inverte a hierarquia ontológica do universo.
    • Crítica à pretensão de que a matéria sensível possua sabedoria intrínseca ou que a organização corpórea possa gerar autopercepção, reafirmando que a existência de uma natureza plástica metódica depende essencialmente de uma Mente Arquetípica anterior, da qual é apenas um eco ou sombra imitativa.
  • Proposição de uma natureza plástica geral para todo o globo terraqueo, responsável pela organização de vegetais e minerais que transcendem o poder do mecanismo fortuito, estabelecendo que a vida do universo é participada por cada ente particular, assim como o calor de um corpo deriva do calor do sistema que o circunda.
    • Conclusão sobre a dignidade da vida racional humana como superior à vida plástica, visto que o homem é senhor de sua sabedoria e age por eleição consciente, enquanto a natureza opera meramente como serva e executora drástica de leis transcendentes das quais não é mestre nem conhecedora.
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