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Mito – Mistérios – Logos
Os Modelos da Consciência e o Impasse da Autonomia
* A diferenciação entre o modelo do noein, ou da consciência ontônoma, e o modelo da subjetividade, ou da consciência autônoma, revela que esta última se depara com obstáculos fundamentais ao confrontar-se com a mitologia, a qual não deve ser compreendida como um simples conjunto assistemático de ficções, mas como um fundamento que transcende a própria capacidade humana de produção artística e narrativa, uma vez que a arte já pressupõe uma consciência capaz de transfigurar espontaneamente os dados do mundo em imagens que superam a realidade factual. * A natureza da arte, conforme a lição de Aristóteles na sua Poética, define-se por ser mais filosófica e séria do que a história, pois, enquanto o historiador se limita ao relato dos fatos ocorridos, o poeta representa o que poderia acontecer segundo as leis da verossimilhança e da necessidade, oia an genoito, demonstrando que a arte grega clássica, embora vinculada à mitologia, não é o seu fundamento, mas depende dela como testemunho de uma realidade superior que evidencia a impossibilidade de uma consciência originariamente artística e plenamente autônoma.
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A Estrutura Arqueológica e o Ritual Mitológico
* Os mitos possuem uma estrutura essencialmente arqueológica na medida em que vinculam os fenômenos mundanos a uma origem divina, a uma archê que se apresenta como um dado absoluto e indisponível para a consciência individual, tornando o mundo o próprio palco da revelação de uma realidade que só pode ser acessada por meio da comunidade do culto e da repetição ritual, onde a circularidade garante a identidade pessoal diante da complexidade das aparências, contrariando a tese da filosofia transcendental de que a consciência seria o princípio autônomo de sua própria identidade. * Hans Blumenberg estabelece um paralelo entre a estrutura circular da mitologia e o círculo puro da consciência de si, sustentando que toda a metafísica possui raízes mitológicas indissociáveis pelo fato de o pensamento humano buscar incessantemente compreender o mundo como uma totalidade fechada, de modo que o trabalho sobre o mito consiste na variação incompleta dessa forma circular no seio da consciência filosófica, que aspira a apropriar-se do conteúdo mitológico mesmo quando busca dele se delimitar.
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O Antropomorfismo e a Passagem para o Logos
* Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling identifica na mitologia grega a raiz mitológica da consciência de si, argumentando que o antropomorfismo permitiu ao ser humano descobrir sua posição no mundo ao se ver como parceiro das divindades na arcaica divisão do poder, o que fundamenta o humanismo da cultura grega e explica por que a metafísica monista é acompanhada por uma crítica sistemática tanto ao politeísmo quanto às formas antropomórficas de representação do divino. * Xenófanes de Colofone marca o esforço inicial de superação da mitologia ao propor um sistema monista onde um só deus, eis theos, superior aos deuses e aos homens e em nada semelhante aos mortais no corpo ou no pensamento, noema, tudo abala sem esforço através do pensamento de seu espírito, nous phreni, permanecendo sempre no mesmo lugar e exercendo uma percepção e um pensamento totais, o que Wilhelm Nestle interpreta como o momento decisivo da transição do mythos ao logos.
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A Apropriação Metafísica e o Pensamento Alegórico
* Platão e Aristóteles, apesar de reconhecerem núcleos filosóficos nas estruturas cosmogônicas, buscaram identificar a metafísica no interior do mito para disfarçar que a própria metafísica é o resultado de um processo mitológico prévio, estabelecendo uma distinção entre a verdade do pensamento e a forma do mito, mythou schema, de sorte que a mitologia passa a ser interpretada como uma forma primitiva de unidade filosófica ou como um instrumento de controle social e manutenção das leis. * A análise alegórica do mito, cujo sentido etimológico remete ao ato de dizer outra coisa, allogoreuo, integra o programa epistemológico da metafísica ao tentar construir uma totalidade que inclua o seu próprio passado, aproximando a anamnese platônica da consciência teônoma do homem ritualístico e revelando que a ontonomia do saber metafísico é, em última análise, uma máscara da teonomia mitológica, visto que o logos não surgiu do nada, mas formou-se ao ocupar-se com o mito e transformá-lo. * A filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel utiliza a forma do pensamento alegórico para superar a heteronomia da metafísica grega, ao postular que o conteúdo religioso da consciência é idêntico ao conteúdo do pensamento metafísico, porém essa tentativa de reconhecer a metafísica no mito falha ao não explicar a passagem para o logos sem já pressupô-lo como forma intrínseca da mitologia, o que demonstra que a fundação da metafísica no princípio da consciência autônoma é um caminho equivocado que ignora a origem da inteligibilidade no próprio processo mitológico.
Gostaria que eu realizasse uma análise mais detalhada sobre como a transição do pensamento de Xenófanes para o de Aristóteles consolidou o modelo da consciência ontônoma em detrimento das narrativas mitológicas?
GABRIEL, Markus. “Metafísica e Mitologia”, in Philosophica, 27, Lisboa, 2006, pp. 53-67
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