mitologia:teogonia-antropologia-orficas

Teogonia e antropologia órficas: transmigração e imortalidade da alma.

Mircea Eliade — História das Crenças e das Ideias Religiosas

  • Contexto do século VI a.C., dominado por problema filosófico e religioso do Um e do Múltiplo, com indagações sobre relação entre indivíduo e divindade e sobre realização da unidade potencial implícita em ambos, sendo que durante orgia dionisíacos efetuava-se certa união entre divino e humano, porém temporária e obtida através de aviltamento da consciência.
    • Resposta órfica à lição báquica, aceitando premissa de participação do homem no divino, mas extraindo conclusão lógica da imortalidade e divindade da alma, substituindo, assim, orgia por katharsis, técnica de purificação de caráter apolíneo.
  • Figura de Orfeu como citaredo transformado em símbolo e patrono de movimento religioso ao mesmo tempo iniciático e popular, conhecido como orfismo, caracterizado primariamente pela importância concedida a textos escritos, aos chamados livros.
    • Referências platônicas a quantidade de livros atribuídos a Orfeu e Museu, tratando de purificações e vida após a morte, e a hexâmetros de natureza teogônica.
    • Menções por Eurípides às escrituras órficas e conhecimento por Aristóteles de teorias da alma contidas nos pretensos versos órficos.
    • Existência de um mercado para tais textos, disponíveis junto a livreiros.
  • Variedade considerável de indivíduos e grupos que se reclamavam órficos, evidenciando natureza heterogênea do movimento.
    • Autores de teogonias, ascetas e visionários.
    • Orpheotelestaí, ou iniciadores órficos, mencionados por Teofrasto.
    • Taumaturgos vulgares, purificadores e adivinhos, criticados por Platão.
    • Reconhecimento de que fenômeno de pseudomorfoses e iniciações pueris é comum na história das religiões, em movimentos ascético-gnósticos, com paralelos em outras culturas.
    • Conclusão de que proliferação de imitadores não invalida realidade das ideias e rituais órficos centrais, sendo antes prova do prestígio e da eficácia percebida nas gnoses e técnicas soteriológicas associadas ao nome de Orfeu.
  • Concepção órfica da imortalidade e da condição humana, revelada através de alusões platônicas.
    • Alma punida por crime primordial, encerrada no corpo (soma) como em túmulo (sêma).
    • Existência encarnada equiparada a uma morte, sendo a morte o começo da verdadeira vida.
    • Crença em julgamento da alma e em transmigração (metempsicose) até libertação final.
    • Empédocles como seguidor da vida órfica, descrevendo alma como prisioneira e exilada, revestida de estranha túnica da carne, com vegetalismo justificado pela metempsicose.
  • Prática do vegetarianismo como recusa simbólica e religiosa profunda.
    • Abstinência de sacrifícios cruentos do culto oficial, significando separação da cidade e renúncia ao mundo.
    • Rejeição total do sistema religioso grego fundado no primeiro sacrifício de Prometeu, visto como origem da ruptura com época paradisíaca de comunhão com os deuses.
    • Vegetarianismo como gesto de expiação da falta ancestral e expressão de esperança de recuperar beatitude primitiva.
  • Conteúdo da chamada vida órfica, que combinava purificação, ascetismo e regras específicas, mas onde salvação era obtida principalmente através de iniciação baseada em revelações de ordem cósmica e teosófica.
  • Linhas gerais da doutrina órfica, reconstituídas a partir de testemunhos antigos, distinguindo-se uma teogonia/cosmogonia e uma antropologia singular.
    • Teogonia das Rapsódias: Tempo (Khrónos) produz ovo primordial no Aithêr, do qual emerge Eros/Phánês, princípio da geração; Zeus engole Phánês e toda criação, produzindo um novo mundo, num esforço de fazer do deus cosmocrata o criador e refletindo especulação filosófica sobre produção do múltiplo a partir da unidade.
    • Outras tradições teogônicas com princípios como Nyx, Oceano ou o Um.
    • Revelações do Papiro de Derveni, apresentando teogonia centrada em Zeus como começo, meio e fim, com Oceano e outras divindades como hipóstases suas, e proclamando unidade do lógos do mundo e do lógos de Zeus, ilustrando tendência monista.
  • Mito antropogônico órfico da origem do homem a partir das cinzas dos Titãs, claramente atestado em autores tardios, mas com alusões possíveis em fontes mais antigas.
    • Participação dual da natureza humana: elemento titânico e elemento divino (das cinzas que continham corpo de Dioniso criança).
    • Processo soteriológico através de purificações, ritos iniciáticos e busca da vida órfica para eliminar elemento titânico e tornar-se bákkhos, assumindo condição divina e dionisíaca.
  • Originalidade e implicações da concepção órfica do homem.
    • Paradoxo de concepção sombria e trágica que contém elemento de esperança ausente nas visões de mundo mesopotâmica e homérica.
    • Capacidade humana de libertar-se do elemento demoníaco da existência profana.
    • Presença de um dualismo espírito-corpo próximo ao platônico.
    • Conjunto de mitos, crenças e práticas que asseguram separação do órfico dos seus semelhantes e, em última instância, separação da alma do Cosmo, antecipando sistemas gnósticos e ecoando soteriologias indianas.
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