periodo-classico:misterios:mitos-platonicos:alma
Alma
BRUN, Jean. Platão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.
- A definição platônica da alma parte de uma recusa explícita de toda concepção simples ou homogênea do psiquismo humano, introduzindo desde o início uma estrutura interna marcada pela tensão, pelo conflito e pela necessidade de governo.
- A imagem do carro alado no Fedro não tem função meramente ilustrativa, mas exprime simbolicamente a constituição ontológica da alma.
- A alma é concebida como princípio de movimento, mas também como lugar de divisão e de luta interna.
- A condição humana é, desde a origem, uma condição de desproporção que exige direção e medida.
- O mito do carro alado articula três princípios distintos sob a forma do cocheiro e dos dois cavalos.
- O cocheiro representa o princípio racional, responsável pela direção e pela orientação do conjunto.
- Os dois cavalos simbolizam forças heterogêneas que puxam a alma em direções opostas.
- A unidade da alma não é dada, mas deve ser constantemente produzida pelo exercício do governo racional.
- O cavalo branco encarna o princípio que tende espontaneamente à ordem e à verdade.
- Ele é caracterizado pela beleza, pela força e pela docilidade.
- Ama a prudência e o pudor, e associa-se naturalmente à opinião verdadeira.
- Sua obediência à palavra indica uma afinidade estrutural com o logos.
- O cavalo negro representa o princípio da desmesura e da paixão desordenada.
- Ele é descrito como disforme e violento.
- Está associado à hybris, à vaidade e ao excesso.
- Só pode ser contido por meio da coação e da dor, o que revela sua resistência intrínseca à razão.
- A alma humana aparece, assim, como atravessada por uma dualidade interna que impede qualquer harmonia espontânea.
- Ela é simultaneamente atraída pela medida e arrastada pelo excesso.
- A injustiça e a desordem não são acidentes externos, mas possibilidades internas da própria estrutura anímica.
- A vida ética consiste no esforço permanente de direção e domínio.
- Essa concepção simbólica do Fedro encontra sua formulação conceitual na divisão tripartida da alma apresentada no Timeu e na República.
- Platão distingue três partes na alma humana.
- Duas são mortais e ligadas ao corpo.
- Uma é imortal e propriamente racional.
- A concupiscência constitui a parte inferior da alma.
- Seu princípio é o desejo ligado à falta e à carência.
- Ela é a fonte dos apetites corporais fundamentais.
- Sua localização no baixo-ventre indica sua proximidade com a materialidade e o devir.
- A virtude própria da concupiscência é a temperança.
- A temperança não consiste na supressão do desejo.
- Ela consiste na submissão do desejo à ordem racional.
- A moderação torna possível a integração do corpo na vida justa.
- O thymos ocupa uma posição intermediária na estrutura da alma.
- Ele é o princípio das paixões e da cólera.
- Sua sede no diafragma indica sua função mediadora entre corpo e razão.
- Ele é ambíguo por natureza, podendo tanto auxiliar quanto perturbar o governo racional.
- A coragem é a virtude própria do thymos.
- Ela permite resistir aos impulsos da concupiscência.
- Ela sustenta a razão diante da dor e do medo.
- Quando corretamente orientado, o thymos torna-se aliado do logos.
- O episódio de Leonte ilustra exemplarmente essa ambiguidade.
- O desejo sensível entra em conflito com a repulsa moral.
- A cólera volta-se contra o próprio sujeito.
- A divisão interna da alma manifesta-se como experiência concreta do conflito ético.
- O noûs constitui a parte superior e imortal da alma.
- Seu princípio é a razão.
- Sua sede na cabeça simboliza sua função diretiva.
- Ele é o único elemento da alma capaz de apreender o verdadeiro ser.
- A virtude própria do noûs é a prudência.
- A prudência consiste no conhecimento do bem.
- Ela orienta a ação segundo a verdade.
- Ela funda a possibilidade de uma vida verdadeiramente racional.
- A justiça é a virtude que assegura a ordem do todo anímico.
- Ela não se identifica com nenhuma parte isolada da alma.
- Ela consiste na atribuição a cada parte de sua função própria.
- A justiça é harmonia estrutural, não simples conformidade exterior à lei.
- A divisão tripartida da alma possui um alcance que ultrapassa o domínio psicológico.
- Ela fornece o modelo da organização da cidade.
- As mesmas partes que estruturam a alma individual estruturam o Estado.
- A analogia entre alma e cidade funda a filosofia política platônica.
- A justiça política reproduz, em escala coletiva, a justiça da alma.
- Cada classe social corresponde a uma parte da alma.
- A desordem política nasce da usurpação de funções.
- A cidade justa é aquela em que cada elemento permanece em seu lugar próprio.
- A teoria da alma revela, assim, a unidade profunda da ética, da psicologia e da política em Platão.
- O indivíduo e a cidade obedecem à mesma lógica estrutural.
- A justiça é uma forma de ordem ontológica antes de ser uma norma jurídica.
- Conhecer a alma é, ao mesmo tempo, conhecer as condições da vida justa.
periodo-classico/misterios/mitos-platonicos/alma.txt · Last modified: by 127.0.0.1
