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Alma
BRUN, Jean. Platão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.
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A definição platônica da alma parte de uma recusa explícita de toda concepção simples ou homogênea do psiquismo humano, introduzindo desde o início uma estrutura interna marcada pela tensão, pelo conflito e pela necessidade de governo.
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A imagem do carro alado no Fedro não tem função meramente ilustrativa, mas exprime simbolicamente a constituição ontológica da alma.
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A alma é concebida como princípio de movimento, mas também como lugar de divisão e de luta interna.
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A condição humana é, desde a origem, uma condição de desproporção que exige direção e medida.
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O mito do carro alado articula três princípios distintos sob a forma do cocheiro e dos dois cavalos.
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O cocheiro representa o princípio racional, responsável pela direção e pela orientação do conjunto.
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Os dois cavalos simbolizam forças heterogêneas que puxam a alma em direções opostas.
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A unidade da alma não é dada, mas deve ser constantemente produzida pelo exercício do governo racional.
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O cavalo branco encarna o princípio que tende espontaneamente à ordem e à verdade.
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Ele é caracterizado pela beleza, pela força e pela docilidade.
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Ama a prudência e o pudor, e associa-se naturalmente à opinião verdadeira.
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Sua obediência à palavra indica uma afinidade estrutural com o logos.
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O cavalo negro representa o princípio da desmesura e da paixão desordenada.
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Ele é descrito como disforme e violento.
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Está associado à hybris, à vaidade e ao excesso.
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Só pode ser contido por meio da coação e da dor, o que revela sua resistência intrínseca à razão.
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A alma humana aparece, assim, como atravessada por uma dualidade interna que impede qualquer harmonia espontânea.
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Ela é simultaneamente atraída pela medida e arrastada pelo excesso.
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A injustiça e a desordem não são acidentes externos, mas possibilidades internas da própria estrutura anímica.
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A vida ética consiste no esforço permanente de direção e domínio.
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Essa concepção simbólica do Fedro encontra sua formulação conceitual na divisão tripartida da alma apresentada no Timeu e na República.
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Platão distingue três partes na alma humana.
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Duas são mortais e ligadas ao corpo.
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Uma é imortal e propriamente racional.
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A concupiscência constitui a parte inferior da alma.
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Seu princípio é o desejo ligado à falta e à carência.
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Ela é a fonte dos apetites corporais fundamentais.
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Sua localização no baixo-ventre indica sua proximidade com a materialidade e o devir.
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A virtude própria da concupiscência é a temperança.
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A temperança não consiste na supressão do desejo.
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Ela consiste na submissão do desejo à ordem racional.
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A moderação torna possível a integração do corpo na vida justa.
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O thymos ocupa uma posição intermediária na estrutura da alma.
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Ele é o princípio das paixões e da cólera.
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Sua sede no diafragma indica sua função mediadora entre corpo e razão.
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Ele é ambíguo por natureza, podendo tanto auxiliar quanto perturbar o governo racional.
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A coragem é a virtude própria do thymos.
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Ela permite resistir aos impulsos da concupiscência.
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Ela sustenta a razão diante da dor e do medo.
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Quando corretamente orientado, o thymos torna-se aliado do logos.
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O episódio de Leonte ilustra exemplarmente essa ambiguidade.
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O desejo sensível entra em conflito com a repulsa moral.
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A cólera volta-se contra o próprio sujeito.
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A divisão interna da alma manifesta-se como experiência concreta do conflito ético.
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O noûs constitui a parte superior e imortal da alma.
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Seu princípio é a razão.
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Sua sede na cabeça simboliza sua função diretiva.
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Ele é o único elemento da alma capaz de apreender o verdadeiro ser.
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A virtude própria do noûs é a prudência.
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A prudência consiste no conhecimento do bem.
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Ela orienta a ação segundo a verdade.
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Ela funda a possibilidade de uma vida verdadeiramente racional.
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A justiça é a virtude que assegura a ordem do todo anímico.
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Ela não se identifica com nenhuma parte isolada da alma.
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Ela consiste na atribuição a cada parte de sua função própria.
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A justiça é harmonia estrutural, não simples conformidade exterior à lei.
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A divisão tripartida da alma possui um alcance que ultrapassa o domínio psicológico.
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Ela fornece o modelo da organização da cidade.
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As mesmas partes que estruturam a alma individual estruturam o Estado.
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A analogia entre alma e cidade funda a filosofia política platônica.
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A justiça política reproduz, em escala coletiva, a justiça da alma.
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Cada classe social corresponde a uma parte da alma.
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A desordem política nasce da usurpação de funções.
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A cidade justa é aquela em que cada elemento permanece em seu lugar próprio.
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A teoria da alma revela, assim, a unidade profunda da ética, da psicologia e da política em Platão.
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O indivíduo e a cidade obedecem à mesma lógica estrutural.
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A justiça é uma forma de ordem ontológica antes de ser uma norma jurídica.
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Conhecer a alma é, ao mesmo tempo, conhecer as condições da vida justa.
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