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Cosmo
BRUN, Jean. Platão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.
A construção do mundo e os mitos cosmológicos em Platão
- A cosmologia platônica é apresentada como um discurso racional-mítico que visa tornar inteligível a gênese do mundo sensível a partir de um princípio inteligível, sem reduzir essa gênese nem a uma criação arbitrária nem a um processo puramente mecânico.
- O Timeu é concebido como um relato verossímil, não como ciência demonstrativa, pois trata do devir e não do ser plenamente estável.
- A qualificação do diálogo como «romance físico» indica que o discurso cosmológico opera numa zona intermediária entre o logos rigoroso e a narrativa simbólica.
- A presença de motivos pitagóricos não deve ser entendida como plágio, mas como integração filosófica de uma tradição matemática e harmônica numa ontologia do devir.
- O mundo é construído segundo um modelo inteligível eterno, o qual permanece absolutamente idêntico a si mesmo e não está sujeito ao tempo.
- Esse modelo corresponde ao vivo em si, isto é, ao conjunto das ideias enquanto totalidade ordenada.
- O mundo sensível não é senão uma cópia, marcada estruturalmente pela instabilidade, pelo devir e pela imperfeição.
- A diferença entre modelo e cópia funda a distinção ontológica entre ser e vir-a-ser.
- A intervenção do Demiurgo não é arbitrária, mas orientada por uma intenção normativa do bem.
- O Demiurgo não cria ex nihilo, mas ordena uma matéria prévia segundo o paradigma inteligível.
- A finalidade da obra é a realização do máximo de beleza e bondade possíveis no domínio do devir.
- A noção de providência exprime a racionalidade finalista inscrita na estrutura do cosmos.
- O mundo é concebido como um vivente dotado de alma, o que implica a rejeição de uma concepção mecanicista da natureza.
- A Alma do mundo é constituída pela mistura do Mesmo e do Outro, mediada por uma terceira substância.
- Essa mistura exprime a articulação entre identidade inteligível e alteridade sensível.
- A divisão da alma segundo proporções geométricas pitagóricas introduz a ordem matemática no cosmos.
- A Alma do mundo ocupa uma posição ontológica central e abrangente.
- Ela é colocada no centro do corpo do mundo e estende-se por toda a sua extensão.
- Sua função é garantir a inteligibilidade dos movimentos cósmicos.
- O cosmos torna-se assim um todo animado, inteligível e ordenado.
- A classificação das espécies de vivos exprime uma hierarquia ontológica fundada na participação no princípio racional.
- Os deuses celestes, moldados no fogo, seguem o movimento do Mesmo e incarnam a regularidade.
- Os deuses tradicionais são integrados como figuras simbólicas.
- As demais espécies ocupam os domínios do ar, da água e da terra, segundo graus decrescentes de racionalidade manifesta.
- O homem ocupa uma posição intermediária na hierarquia dos vivos.
- Sua alma é uma parcela da Alma do Todo, o que fundamenta sua capacidade racional.
- As almas são semeadas nos astros segundo uma ordem temporal.
- O corpo humano é composto pelos quatro elementos, o que o submete ao devir e à corrupção.
- Ao lado do modelo inteligível e da cópia sensível, Platão introduz um terceiro gênero, o receptáculo ou chora.
- A chora não é nem ser nem devir, mas condição de possibilidade de ambos.
- Ela é designada por metáforas maternas e espaciais, indicando acolhimento e indeterminação.
- Sua obscuridade conceitual decorre de sua posição liminar na ontologia platônica.
- A chora não deve ser confundida com a extensão geométrica moderna.
- Ela designa o «em que» as coisas aparecem separadas.
- A proximidade etimológica entre chora e choris sugere uma função de separação e espaçamento.
- O espaço é pensado como condição dinâmica da diferenciação sensível, não como magnitude mensurável.
- O tempo é definido como imagem móvel da eternidade.
- Ele não possui autonomia ontológica.
- Sua função é imitar, no devir, a estabilidade do modelo eterno.
- O tempo introduz a sucessão, o nascimento e a corrupção no domínio sensível.
- A eternidade é o modo próprio de ser das ideias.
- Apenas o paradigma pode ser dito propriamente «é».
- O passado e o futuro pertencem exclusivamente ao domínio do devir.
- O tempo é constituído como ordem circular numérica que reflete imperfeitamente a eternidade.
A estrutura da terra e o destino das almas
- O mito geográfico do Fédon articula cosmologia, ética e escatologia numa única construção simbólica.
- A estrutura do cosmos serve de suporte à justiça moral.
- A sobrevivência da alma é condição da retribuição ética.
- A topologia do além traduz a hierarquia dos modos de vida.
- A terra visível não coincide com a totalidade da terra.
- Existem três terras concêntricas, hierarquizadas ontologicamente.
- A nossa terra é uma região degradada e rebaixada.
- A ignorância humana é figurada pela metáfora do fundo do mar.
- A terra superior é apresentada como paradigma do mundo sensível.
- Ela é pura, luminosa e incorruptível.
- Os homens que nela habitam vivem sem doenças e em comunicação direta com os deuses.
- O éter substitui o ar como meio vital.
- A terra inferior corresponde ao domínio invisível da expiação.
- Ela é atravessada por rios simbólicos que estruturam o julgamento das almas.
- O Tártaro funciona como centro punitivo.
- O além é organizado segundo uma justiça proporcional.
- As almas são distribuídas segundo quatro tipos fundamentais.
- Os filósofos alcançam uma existência incorporal junto aos deuses.
- As almas mistas passam por purificação antes de reencarnar.
- As almas dominadas pela cólera sofrem penas condicionais.
- As almas incuráveis são condenadas definitivamente.
O mito do Político
- O mito do Político articula um modelo cosmológico e um modelo antropológico.
- O movimento do mundo alterna entre direção divina e abandono.
- A rotação inversa simboliza a instabilidade do devir.
- O mito é apresentado como jogo, mas cumpre função conceitual rigorosa.
- A alternância dos ciclos cósmicos funda duas idades do mundo.
- Na idade de Crono, o mundo é governado diretamente por Deus.
- A geração ocorre por rejuvenescimento e nascimento da terra.
- O homem vive sem trabalho nem sofrimento.
- Na idade de Zeus, o mundo é entregue a si mesmo.
- O tempo passa a operar do nascimento ao envelhecimento.
- O trabalho e a técnica tornam-se necessários.
- A cultura aparece como compensação da perda da tutela divina.
O mito da Atlântida
- O mito da Atlântida não possui função geográfica, mas simbólica.
- Ele tematiza a perda de uma ordem originária.
- As catástrofes naturais figuram rupturas ontológicas e políticas.
- A decadência do mundo sensível é pensada como esquecimento.
- Atenas primitiva é apresentada como cidade paradigmática.
- Ela é guiada diretamente pelos deuses.
- A sabedoria política coincide com a ordem cósmica.
- A decadência posterior exprime o afastamento do princípio.
- A perda da pátria originária simboliza a condição humana.
- O homem vive como exilado de sua verdade.
- O esquecimento funda a ignorância.
- A maiêutica socrática visa reconduzir à origem.
- Aprender é recordar porque a verdade não é produzida, mas reencontrada.
- Todo saber autêntico é reminiscência.
- O logos desperta a memória do ser.
- A filosofia é retorno ao princípio perdido.
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