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Posídon

Junito Brandão

A etimologia do nome Posídon admite duas interpretações principais, sendo a mais aceita aquela que o deriva de termos que significam “senhor” e “terra”.

  • Kretschmer analisa o teônimo como justaposição do vocativo “senhor, esposo” com o antigo nome da terra.
  • Pierre Chantraine registra que Posídon significaria “o mestre, o senhor, o esposo da terra”.
  • Carnoy, partindo do dórico, decompõe o vocábulo em “senhor” e “água”, propondo a tradução “o senhor das águas”, interpretação considerada pouco provável.

Posídon é o deus das águas, originalmente das subterrâneas, e obteve por sorte o domínio do mar quando o universo foi dividido entre os três grandes irmãos após a vitória sobre os Titãs.

  • Ao lado de Zeus e Hades, Posídon participa da tríade que governa os três grandes reinos do cosmos.
  • Mesmo tendo lutado contra os Titãs e fechado sobre eles as portas de bronze do Tártaro, o deus do mar nem sempre foi dócil à autoridade de Zeus.

A independência de Posídon manifestou-se numa conspiração contra Zeus, da qual participaram também Hera e Atená, frustrada pela intervenção do Hecatonquiro Briaréu, convocado por Tétis.

  • Como castigo, Posídon foi obrigado a servir durante um ano ao rei de Troia, Laomedonte.
  • Juntamente com Apolo e o mortal Éaco, participou da construção da muralha da fortaleza de Heitor.

A recusa de Laomedonte em pagar o salário combinado gerou a vingança de Posídon, que suscitou um monstro marinho contra a Tróada e, na Guerra de Troia, alinhou-se ao lado dos aqueus.

  • Disfarçado de Calcas, o deus encorajou os dois Ájax, Teucro e Idomeneu, chegando a combater pessoalmente antes de se retirar por ordem de Zeus.
  • O salvamento de Eneias das mãos de Aquiles é explicado pelo fato de o herói descender de Trós, não de Laomedonte, ou pelo desejo de conquistar a simpatia de Afrodite.
  • Como Zeus, Posídon está ligado ao cavalo, ao touro e a Deméter enquanto divindade de fecundação.

Posídon casou-se com Anfitrite e reina no mar à maneira de um Zeus marinho, com o tridente como cetro e arma, habitando um palácio de ouro nas profundezas de Egas.

  • Tritão, filho de Posídon e Anfitrite, é descrito por Hesíodo como “imenso, divindade terrível e de grandes forças, que habita com sua mãe e seu ilustre pai um palácio de ouro nas profundezas das águas marinhas” (Teog., 930-933).
  • O cortejo do deus era formado por peixes, delfins e criaturas marinhas de todas as espécies, incluindo Nereidas, Proteu e Glauco.
  • Percorria as ondas sobre uma carruagem puxada por seres monstruosos, metade cavalos, metade serpentes.

Nos próprios poemas homéricos sobrevivem vestígios de um Posídon mais antigo, essencialmente ctônio, revelado por epítetos que o designam como “sacudidor da terra”, apontando para uma ação exercida de baixo para cima por uma divindade subterrânea.

  • Os três epítetos sinônimos registrados na epopeia indicam que o deus originalmente fazia a terra oscilar, fosse pela seiva vital, por abalos sísmicos ou pelas águas que escapavam do seio da Terra-mãe.
  • Com os epítetos que significam “que faz nascer” e “que produz algas”, Posídon aparece também como promotor da vegetação marinha e terrestre.
  • Como divindade que faz germinar, estava associado nas Haloas a Dioniso e Deméter, e no velho mito da Arcádia era considerado esposo de Deméter-Geia.

Os primeiros invasores gregos, por não conhecerem o mar e não possuírem vocábulo próprio para designá-lo, não poderiam ter trazido consigo um deus marinho, razão pela qual o Posídon original era um deus ctônio das águas subterrâneas.

  • Meillet resume o problema com a seguinte observação: “O mar não possui em grego uma denominação antiga e não existe para mar outro nome indo-europeu a não ser no grupo supracitado, do latim mare.”
  • Foram os emigrantes gregos que povoaram ilhas e costas da Ásia Menor — chamados “navegadores convertidos” — que estenderam ao domínio das ondas o poder do deus das águas terrestres e ctônias.

O antigo deus ctônio tornou-se também “sacudidor do mar” e adquiriu o duplo privilégio de domador de cavalos e salvador de navios, sendo a ligação com o cavalo atribuída à sua natureza primitivamente subterrânea.

  • O cavalo e o touro, igualmente associados a Posídon, são símbolos das forças subterrâneas e, por sua familiaridade com as trevas, guias seguros e excelentes psicopompos.
  • O nome grego do cavalo está ligado ao de fontes como Aganipe e Hipocrene.
  • Numa versão tessália, o deus foi pai de Esquífio, o primeiro cavalo, gerado com Geia; no folclore da Arcádia, foi pai de Aríon, o cavalo de crinas azuis, concebido após transformar-se em garanhão para conquistar Deméter metamorfoseada em égua.
  • Pausânias (8,8,2) relata um mito segundo o qual Posídon escapou de ser devorado por Crono metamorfoseando-se em potro.
  • Numa variante da disputa com Atená pelo domínio da Ática, o deus teria feito surgir da terra um cavalo, e não uma fonte.

Posídon é o presenteador por excelência de cavalos portentosos, e vários heróis tidos por seus filhos foram amamentados por éguas.

  • Pégaso, o cavalo alado, foi dado por Posídon a Belerofonte.
  • Os cavalos inteligentes Xanto e Bálio foram presenteados a Peleu.
  • Hipótoon, Neleu e Pélias, filhos atribuídos ao deus, foram amamentados por éguas.

A ligação entre Posídon e o touro é igualmente profunda, sendo o animal sua vítima sacrificial predileta, oferecido no altar ou precipitado vivo no mar.

  • Na tragédia de Eurípides Hipólito Porta-Coroa, o touro surge sob forma monstruosa para destruir o inocente Hipólito, a pedido de Teseu, filho de Posídon-Egeu.
  • Posídon foi responsável pela paixão de Pasífae pelo touro de Creta, como punição ao rei Minos por não ter cumprido a promessa de sacrificar o animal.
  • Menelau convida Antíloco, na Ilíada (XXIII, 584), a jurar por Posídon estendendo a mão sobre seus cavalos e o carro, o que evidencia a identificação entre o deus e o animal.
  • No culto, o deus é frequentemente chamado Híppios, “gerador de cavalos”, especialmente em Olímpia, onde a disputa entre Pélops e Enômao tornou-se protótipo dos concursos hípicos ligados a suas festas.

Os filhos de Posídon, ao contrário dos de Zeus — heróis benfeitores —, eram em sua maioria gigantes terríveis e violentos, fruto de numerosas uniões do deus.

  • Com Toosa gerou o ciclope Polifemo; com Medusa, o gigante Crisaor e o cavalo Pégaso; com Amimone, filha de Dânao, teve Náuplio; com Ifimedia, os gigantes Oto e Efialtes.
  • Foram também filhos seus os salteadores Cércion e Cirão, mortos por Teseu; o rei dos lestrigões, Lamo; o caçador maldito Oríon.
  • Com Hália teve seis filhos e uma filha chamada Rodos, que deu nome à ilha de Rodes; os filhos, enlouquecidos por Afrodite após cometerem excessos, tentaram violentar a própria mãe e foram escondidos por Posídon no fundo da terra.
  • Hália, desesperada, lançou-se ao mar e recebeu culto dos habitantes de Rodes sob o nome de Leucoteia.

O mês ático Posídeon, consagrado ao deus e correspondente aproximadamente a dezembro, era o período das tempestades de inverno, pois Posídon é antes o deus do mar encapelado que o da bonança.

  • O deus é invocado como salvador dos navios e protetor dos passageiros.
  • A selvageria de seu caráter e a violência da maioria de seus filhos configuram o aspecto sinistro dos elementos naturais.

Nas disputas pelo domínio de cidades, Posídon quase sempre teve suas pretensões vencidas, perdendo para Hélio em Corinto, para Zeus em Egina, para Dioniso em Naxos, para Apolo em Delfos e para Atená em Trezena.

  • A maior disputa foi pela posse de Atenas: Posídon fez brotar do solo, com um golpe de tridente, um mar ou, segundo outros, um cavalo; Atená plantou um pé de oliveira, símbolo da paz e da fecundidade.
  • A querela foi arbitrada por Cécrops e Crânao, ou pelos próprios deuses; Cécrops testemunhou que Atená plantara primeiro a oliveira e a vitória lhe foi atribuída.
  • Irritado, Posídon inundou a planície de Elêusis, fertilíssima em oliveiras.
  • Em Argos, disputada também por Hera, o árbitro Foroneu — o primeiro a reunir os homens em cidades — decidiu igualmente contra Posídon, que amaldiçoou a Argólida e secou todas as suas nascentes.
  • Quando Dânao e suas cinquenta filhas chegaram sem água, Posídon, apaixonado por Amimone, levantou a maldição e os mananciais reapareceram.

A Atlântida, dada a Posídon sem disputa como compensação pelas derrotas sofridas, tem seu nome ligado ao de Atlas, cujo vocábulo grego significa “aquele que sustém a abóbada celeste”.

  • Platão, nos diálogos Timeu e Crítias, narra que Sólon ouviu de um sacerdote de Saís, no Delta do Nilo, tradições antigas sobre uma guerra entre Atenas e os habitantes da Atlântida.
  • A ilha se estendia diante das Colunas de Héracles, na entrada do Oceano, além do Mediterrâneo.

Posídon apaixonou-se por Clito, jovem de extrema beleza que habitava a montanha central da Atlântida, cercou sua residência com muralhas e fossos e dela teve cinco pares de gêmeos, cujo primogênito, Atlas, tornou-se rei suserano da ilha dividida em dez reinos.

  • A Atlântida era riquíssima em flora, fauna e minerais — ouro, cobre, ferro e sobretudo oricalco, metal que brilhava como fogo.
  • A ilha foi ornada com cidades magníficas, pontes, canais, passagens subterrâneas e labirintos destinados à defesa e ao comércio.
  • Anualmente, os dez reis realizavam a caçada ritual ao touro no próprio témenos do deus, aspergiam-se com o sangue do animal sacrificado — identificado com a divindade — e, cobertos de túnica azul-escuro, julgavam-se mutuamente nas trevas, apagados todos os archotes, conforme descreve Platão (Crít., 119d-120c).

Diodoro Sículo apresenta uma variante significativa sobre a Atlântida, na qual a rainha amazona Mirina declara guerra aos atlantes que habitavam um país vizinho da Líbia, à beira do Oceano.

  • À frente de vinte mil cavaleiras e três mil infantes, Mirina conquistou o reino cuja capital se chamava Cerne, destruiu-a e avançou sobre os demais, que capitularam; em seu lugar construiu uma cidade com seu próprio nome, franqueada a prisioneiros e voluntários.
  • A pedido dos atlantes, Mirina enfrentou as Górgonas, obteve vitória, mas prisioneiras conseguiram rebelar-se e matar muitas Amazonas antes de serem massacradas; às mortas foi erguido um túmulo suntuoso, ainda conhecido na época histórica como Túmulo das Amazonas.
  • Mirina conquistou parte da Líbia, concluiu tratado de paz com Hórus, filho de Ísis, no Egito, devastou a Síria, recebeu a rendição voluntária dos cilícios, atravessou o maciço do Tauro e atingiu a região do Caíque, onde foi assassinada pelo rei Mopso, trácio expulso pelo rei Licurgo.
  • Na Ilíada, Mirina tem nome diferente “junto aos deuses” e é chamada Bateia entre os homens.
  • Essa lenda constitui uma “construção histórica”, não um mito propriamente dito, mas uma interpretação racionalista de elementos míticos combinados pelos mitógrafos evemeristas.

A Atlântida, seja qual for a origem do mito, permanece como símbolo de um paraíso perdido ou cidade ideal, projeção dos sonhos de Platão de uma perfeita organização político-social.

  • Os habitantes da Atlântida “se enriqueciam de tal maneira, que jamais se ouviu dizer que um palácio real possuísse ou viesse algum dia a possuir tantos bens. Tinham duas colheitas por ano: no inverno utilizavam as águas do céu; no verão, aquelas que lhes dava a terra, com a técnica da irrigação” (Crít., 114d, 118e).
  • Na cerimônia noturna descrita por Platão, “os soberanos julgam e são julgados, se houver sido cometida por qualquer deles alguma falta. Terminado o julgamento, as sentenças são gravadas, já em pleno dia, sobre uma mesa de ouro, que era consagrada como recordação do feito” (Crít., 120bc).
  • Quando o elemento divino se enfraquecia nos atlantes e o humano passava a dominar, tornavam-se alvo do castigo de Zeus.
  • Ao tentar subjugar o mundo, os atlantes foram vencidos pelos atenienses nove mil anos antes de Platão; a ilha e seus habitantes desapareceram tragados por um cataclismo.
  • A originalidade simbólica da Atlântida reside na ideia de que o paraíso depende da predominância em cada ser humano de um elemento divino, reunindo assim o tema do Paraíso e o da Idade de Ouro presentes em todas as culturas.
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