Prometeu – Fogo (Diel)
DIEL, Paul. O Simbolismo Na Mitologia Grega. São Paulo: Attar Editorial, 2003.
Com o advento do reinado de Zeus surge, como vimos, o ser humano. Ao atingir o nível consciente, o homem é chamado a assumir uma posição em relação à discórdia inicial entre espírito e matéria. A escolha do ser tornado consciente pode ser justa ou falsa; ele está como que cindido entre essas duas possibilidades. Zeus cria o homem enquanto ser espiritual, capaz de realizar a justa escolha, animado pelo impulso evolutivo, pelo desejo essencial: o Titã cria o homem enquanto ser material, apegado à terra-mãe, à matéria, capaz de realizar uma falsa escolha.
Para modelar sua criatura, Prometeu serve-se da terra lodosa. A terra é símbolo dos desejos terrestres, e a lama simboliza a banalidade. Mas, quando se trata de dar vida à sua criatura, caracterizada como aquela que sempre estará exposta à banalização, o Titã não vê outra alternativa senão recorrer ao princípio espiritual que não se encontra à sua disposição. Para apoderar-se dele, deve buscá-lo na região do Olimpo, onde está guardado todo princípio de vida, até mesmo o fogo-intelecto, forma inferior do espírito-luz. O intelecto sob sua forma positiva, ainda que subordinado à força iluminadora do espírito, constitui, no entanto, a via evolutiva que conduz ao espírito. O Titã não conseguirá trazer a luz do Olimpo, nem mesmo se propõe a isso; somente o fogo, o espírito sob sua forma utilitária, está ao alcance do Titã-Intelecto; porém, mesmo este deve ainda ser roubado. Zeus não confiará a chama olímpica, o intelecto sob sua forma positiva, ao Titã revoltado.
A região olímpica representa o ideal evolutivo, o fim supremo, em direção ao qual tende o desejo essencial (princípio de vida) e seu impulso de espiritualização-sublimação. O intelecto utilitário, enquanto orientado em direção ao espírito, participa do impulso espiritualizante. Mas esse sentido positivo se conforma unicamente ao símbolo “Fogo do Olimpo” (ou chama, símbolo do entusiasmo que sobe em direção ao espírito). Roubado de Zeus, o fogo perde sua significação de força espiritualizante: Prometeu, o Titã revoltado, só consegue dar vida à sua criatura com a ajuda do fogo roubado. Trazido pelo Titã revoltado e usado para animar o ser formado de terra e lama, apegado quase exclusivamente aos desejos terrestres, o fogo roubado simboliza o intelecto reduzido a um meio de satisfação dos desejos múltiplos, cuja exaltação é contrária ao sentido evolutivo da vida, à “vontade de Zeus”.
A vontade de Zeus não se opõe à vivificação do homem com a ajuda do fogo-intelecto, à criação evolutiva do ser consciente. A vitória de Zeus sobre o Deus-Titã, Crono, significa que o ser consciente já foi criado e animado pela chama, inflamado pelo impulso de continuar a evolução em direção a uma lucidez cada vez maior, orientada da vida consciente à vida supraconsciente. O roubo do fogo, símbolo da superintelectualização banal e exaltada, não é, portanto, castigado porque Zeus estaria com ciúmes, mas porque o espírito, prevenido em relação às consequências nefastas, opõe-se à banalização. Os homens, enquanto criaturas prometeicas, formados de lama e animados pelo fogo roubado, realizam a revolta do Titã e não escapam à perversão.
Compreender o sentido profundo da revolta do “Titã-Intelecto” contra o espírito, simbolizado pelo “ladrão do fogo que é trazido aos homens”, significa entrever o mais claramente possível as consequências da intelectualização e de sua tendência ao esquecimento do sentido da vida.
O fogo é bastante adequado para representar o intelecto, não somente porque permite à simbolização representar, por um lado, a espiritualização (luz) e a sublimação (calor) e, por outro, a perversão (qualidade destrutiva do fogo), mas também porque, no plano real da história evolutiva do ser intelectualizado, na história da humanidade, a descoberta do fogo (simbolicamente, o fogo trazido pelo Titã-Intelecto, Prometeu) desempenha um papel predominante, estreitamente ligado à eclosão do intelecto tanto sob sua forma positiva quanto negativa.
Todo esforço para a mudança do mundo em função das necessidades corporais do homem (tarefa do intelecto utilitário que evoluirá até a técnica e a organização) tem sua origem no domínio do fogo. Em torno do fogo se reuniam os homens primitivos, graças ao fogo tornaram-se sociáveis. A linguagem se desenvolve, condição primordial de toda civilização humana. A utilização do fogo marca um passo decisivo, senão a etapa mais importante, da intelectualização progressiva que, cada vez mais, distanciará da condição animal este ser tornado consciente, capaz de libertar-se da dominação imediata da natureza ambiente. Novas aptidões desenvolvem-se a partir dessa mutação, a mais decisiva, caracterizada pela liberação da mão em função da posição ereta. Essas novas aptidões diferenciarão definitivamente a criatura do “Titã-Intelecto” da condição animal.
Entretanto, mesmo o ser tornado consciente permanece tributário da natureza elementar, estando exposto aos principais eventos que formam o quadro de referência de toda vida: nascimento, envelhecimento, doença, morte. É sobretudo o terror diante do mistério inelutável da morte que impedirá a criatura do Titã de esquecer completamente o chamado do espírito, a orientação em relação ao sentido da vida. A imaginação religiosa se desdobrará, começando pelo culto animista do ancestral divinizado, até a criação mítica da imagem purificadora da divindade-pai, guia de todos os homens. Na chama purificadora, o homem oferecerá à divindade o sacrifício das premissas dos bens materiais, expressando assim, simbolicamente, o abandono de toda exaltação em relação aos desejos ligados à terra. Mas esta Promessa simbólica está longe de se realizar, e o fogo roubado, o fogo destrutivo (as paixões), prevalecerá sobre o impulso da chama purificadora. Guiados pela vaidade do intelecto revoltado, orgulhosos de sua capacidade inventiva e de suas criações engenhosas, os homens se imaginarão semelhantes aos deuses e, esquecidos do espírito, se banalizarão. Na medida em que a luz do espírito e o calor da alma se enfraquecem, nada mais subsistirá senão o impulso banal de beneficiar-se dos bens materiais. Entretanto, a atividade engenhosa do intelecto não se mostra suficientemente previdente, uma vez que não é mais guiada pelo espírito. O intelecto retrocede ante a multiplicação insensata dos desejos em direção à exaltação imaginativa e seu consequente ofuscamento afetivo. A perversão dos sentimentos que resulta disso impulsionará os homens à odiosa disputa pelos bens materiais, semeando assim a destruição em lugar da desejada comodidade.
Através de um traço extremamente explicativo, o mito assinala as duas significações opostas do simbolismo “fogo-intelecto”: chama purificadora e fogo roubado. Prometeu ensina os homens a enganar os deuses até mesmo nos sacrifícios sangrentos, aconselhando-os a guardar a melhor parte, oferecendo aos deuses somente as partes inferiores e os ossos. Uma vez que o sacrifício dos bens terrestres tem o valor da promessa de uma vida em conformidade com a lei do espírito, no sentido da vida que se opõe à exaltação insensata, o conselho de Prometeu mostra claramente que a revolta do intelecto incita os homens a desafiar o espírito e a deixar-se levar pela exaltação dos desejos.
Enganados pelo presente do Titã, o fogo roubado, os homens caem na tentação de enganar os deuses. Porém, conforme a lei do espírito, a tentação se voltará contra eles.
