JOWETT: ALCIBIADES I
Veja também: Coletânea de excertos da obra completa de Platão, na tradução de Jowett, indexados por termos relevantes
*Introdução de Benjamin Jowett a sua tradução*
INTRODUCTION. (resumo)
Da Dramaturgia e Caracterização dos Interlocutores
* A representação de Sócrates no Alcibíades Primeiro resgata a persona delineada na Apologia de um sujeito que professa o desconhecimento absoluto com o intuito de detectar a presunção de saber em seus interlocutores, estabelecendo com o jovem uma relação de amante e amado que, embora presente no Banquete e no Protágoras, aqui se inverte ao apresentar o filósofo como aquele que aguarda friamente as investidas de um aspirante à vida pública, ao passo que na obra anterior a dinâmica de interesse e recepção entre ambos os personagens manifestava-se de modo distinto. * Alcibíades é caracterizado como um homem muito jovem prestes a ingressar na carreira política e portador de uma opinião excessivamente elevada sobre si mesmo, permitindo que Sócrates, detentor de um conhecimento profundo sobre a natureza humana, o surpreenda com a revelação de seus próprios desígnios e ambições extravagantes, questionando se o jovem possui a ciência necessária para persuadir os atenienses sobre temas fundamentais da administração da cidade.
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Da Natureza da Justiça e do Aprendizado da Virtude
* A deliberação política sobre a guerra e a paz exige necessariamente o conhecimento da distinção entre o justo e o injusto, uma vez que as decisões humanas devem fundar-se em bases éticas para serem eficazes, o que obriga Alcibíades a provar que aprendeu a justiça com um mestre ou a descobriu por si mesmo através do reconhecimento de uma ignorância prévia que ele, entretanto, jamais admitiu ter possuído em sua infância. * A tentativa de Alcibíades de atribuir seu conhecimento da justiça à influência da multidão é refutada pela constatação de que, embora a massa possa ensinar a língua grega devido ao consenso sobre o significado das palavras, ela é incapaz de instruir sobre a virtude por carecer de acordo sobre a natureza do justo, conforme se observa nos conflitos constantes que marcam a história dos povos, restando o jovem convencido de sua própria incapacidade dialética. * A argumentação socrática força o reconhecimento de que o princípio da justiça e o princípio da conveniência não são opostos, mas coincidentes, reduzindo Alcibíades à conclusão humilhante de que seu desconhecimento abrange os fundamentos da política mesmo quando estes são considerados sob a ótica da utilidade prática imediata.
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Da Relação entre a Concorrência Externa e a Prática da Virtude
* O desafio de Alcibíades não se limita à superação de seus compatriotas atenienses, mas estende-se à rivalidade com os reis espartanos e com o grande rei da Pérsia, cujas rainhas são mencionadas em um tom de humor para abater o orgulho grego, reforçando a tese de que o sucesso de suas ambições elevadas depende obrigatoriamente do auxílio de Sócrates para o alcance do autoconhecimento. * Sócrates não professa o alcance da verdade absoluta, mas utiliza o método de interrogação para despertar nos outros a consciência de si mesmos, estabelecendo a humilhação intelectual e o reconhecimento do erro como o primeiro passo indispensável para a prática da virtude e para a aquisição da sabedoria em qualquer nível da atividade humana.
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Do Comando Político e da Unanimidade Social
* A investigação sobre o que constitui um homem bom no trato dos negócios da cidade revela a fragilidade das definições de Alcibíades, que identifica a inteligência com a capacidade de comandar homens em relações sociopolíticas visando a preservação da cidade, mas fracassa ao tentar fundamentar essa preservação em uma unanimidade análoga àquela existente entre marido e mulher. * A contradição de Alcibíades manifesta-se no fato de que, se a unanimidade é o objetivo da cidade, o cumprimento de deveres especializados e separados por parte de cada cidadão impediria tal concordância, evidenciando que o jovem carece de uma compreensão consistente sobre como a ordem e a harmonia política podem ser efetivamente estabelecidas e mantidas.
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Do Autoconhecimento como Fundamento da Liberdade
* O conhecimento de si mesmo deve ser buscado prioritariamente no exame da mente e na virtude da alma, que constitui a parte mais divina do ser humano, sendo o acesso a essa verdade interior comparado ao ato de contemplar a própria imagem no olho de outrem, o que define a aptidão do indivíduo para os negócios públicos. * O desconhecimento da própria natureza torna o homem inapto para discernir o que pertence a si mesmo ou aos outros, transformando o injusto em escravo de homens melhores e estabelecendo que apenas os virtuosos, que buscam a temperança e a justiça em detrimento da riqueza ou do poder, são verdadeiramente dignos de usufruir da liberdade individual e política.
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Da Crítica Literária e dos Limites da Verossimilhança
* O diálogo guarda semelhanças formais com o Eutidemo ao demonstrar que a virtude é idêntica ao conhecimento e ao utilizar o elenkhos para despertar a consciência da ignorância, processo que guarda paralelos com a conversão espiritual ao substituir o sentimento de pecado pelo reconhecimento do erro intelectual profundo. * A despeito de seu mérito dialético e da eficácia ética de seu tom exortativo, o Alcibíades Primeiro apresenta uma verossimilhança dramática inferior às obras de maturidade de Platão, manifesta em uma caracterização superficial dos personagens e na presença de anacronismos relativos à cronologia de Péricles, além de reiterar observações presentes no Laques e no Protágoras sobre a falha dos grandes estadistas atenienses na educação de seus próprios filhos.
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