ALCIBIADES I (THOMAS TAYLOR)
Este diálogo é, portanto, o começo de toda a filosofia, da mesma maneira que o conhecimento de nós mesmos. Daí muitos teoremas lógicos e éticos se acharem nele dispersos, juntamente com aqueles que contribuem para a especulação integral da felicidade. Contém também informação a respeito de muitas coisas que contribuem para a fisiologia, e para aqueles dogmas que nos conduzem à verdade sobre as naturezas divinas mesmas. Por isso também o divino Jâmblico atribuiu a este diálogo o primeiro posto, entre os dez diálogos, nos quais era de opinião que todo Platão estava contido.
Dos pormenores apresentados neste diálogo, alguns precedem e outros seguem o propósito principal, que é o conhecimento de nós mesmos. Pois a hipótese da dupla ignorância, a exortação e semelhantes precedem; mas a demonstração da virtude e da felicidade, e a rejeição da multidão das artes, como sendo ignorantes de si mesmas, das coisas que lhes pertencem e, em suma, de todas as coisas — e tudo o mais deste tipo, têm uma ordem consequente. Mas o propósito mais perfeito e principal de toda a conversação é a especulação de nossa própria essência. De modo que não errará quem estabelecer o cuidado e conhecimento de nós mesmos, como o fim do diálogo.
Outra vez, a forma de vida amorosa é particularmente indicada por Sócrates neste diálogo. Pois o início se faz a partir daí; e ele prossegue aperfeiçoando o jovem até torná-lo amante de sua solicitude providencial, que é o bem principal da arte amorosa. E, em suma, através de todas as divisões do diálogo, ele sempre preserva aquilo que é adaptado a uma vida amorosa. Como há três ciências, então, que Sócrates parece ter testemunhado possuir, a saber: a dialética, a maiêutica (isto é, a obstétrica) e a amorosa, encontraremos a forma da dialética e a peculiaridade da ciência maiêutica neste diálogo, mas os efeitos da ciência amorosa predominam nele. Pois, quando Sócrates está chamando à tona as concepções de Alcibíades, ele ainda atua conforme ao caráter amoroso; e quando emprega a ciência dialética, não se afasta da peculiaridade dos argumentos amorosos. Assim como no Teeteto ele é maiêutico, caracteriza-se principalmente segundo isso, e procede até uma purificação das opiniões falsas de Teeteto: mas, tendo efetuado isso, ele o dispensa, como sendo agora capaz por si mesmo de conhecer a verdade, o que é o ofício da ciência maiêutica, como ele mesmo afirma naquele diálogo. Assim também ele primeiro indica a ciência amorosa neste diálogo, com a qual tanto a dialética quanto a maiêutica se misturam. Pois por toda parte Sócrates introduz discursos adaptados às pessoas sujeitas. E como todo tipo de bem pré-existe numa natureza divina, que é variadamente possuída por diferentes seres segundo a aptidão natural de cada um, do mesmo modo Sócrates, que compreende em si todas as ciências, emprega uma ciência diferente em momentos diferentes, segundo a aptidão dos receptores; elevando um através da ciência amorosa; excitando outro à reminiscência das razões eternas da alma através da ciência maiêutica; e conduzindo outro segundo o método dialético à especulação dos seres. Alguns também ele conjunge ao belo em si, outros à primeira sabedoria, e outros ao Bem Mesmo. Pois através da ciência amorosa somos conduzidos ao belo; através da maiêutica, ao chamar à tona nossas razões latentes, tornamo-nos sábios em coisas de que somos ignorantes; e através da ciência dialética ascendemos até ao Bem.
Finalmente, será encontrado por aqueles que são profundamente versados na filosofia de Platão, que cada um de seus diálogos contém aquilo que o universo contém. Daí, em todo diálogo, uma coisa ser análoga ao Bem, outra ao intelecto, outra à alma, outra à forma, e outra à matéria. Neste diálogo, portanto, deve-se dizer que uma assimilação a uma natureza divina é análoga ao Bem; o conhecimento de nós mesmos ao intelecto —, a multidão das demonstrações que nos conduzem à conclusão, e em suma tudo o que é silogístico no diálogo, à alma —, o caráter da dicção, e tudo o mais que pertence ao poder da palavra, à forma —, e as pessoas, a ocasião, e aquilo que é chamado pelos retóricos de hipótese, à matéria.
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