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Reale: Alcibíades II, análise

PLATÃO. Alcibiade Primo. Sulla natura dell'uomo. Milano: Bompiani, 2015. E-book.

  • Sócrates encontra Alcibíades enquanto este se dirige a orar a um deus cujo nome não é indicado, e levanta os problemas que a prece aos deuses comporta.
    • Os deuses comportam-se de modo diferente quanto àquilo que os homens pedem: a alguns concedem em geral o que pedem, a outros não; a alguns concedem as coisas específicas solicitadas, a outros não.
    • Sócrates explica que é preciso pedir coisas aos deuses com muita prudência, pois pode acontecer que se peçam coisas consideradas bens que são, na verdade, males.
    • O exemplo de Édipo ilustra o risco: ele pediu aos deuses que seus filhos dividissem com a espada a herança paterna, e disso derivaram grandes males.
  • A afirmação de Alcibíades de que apenas um louco poderia pedir o que Édipo pediu levanta o problema da loucura e abre a discussão terminológica sobre sensatez, insensatez e loucura.
    • Os homens dividem-se em dois grandes grupos, os sensatos e os insensatos, sem posição intermediária, pois não pode haver homens que não sejam nem sensatos nem insensatos.
    • A loucura não pode ser algo diferente da insensatez, pois uma coisa pode ter apenas um contrário, e, por consequência, insensatez e loucura seriam a mesma coisa.
    • Essa tese, porém, não se sustenta tal como formulada: se insensatez e loucura coincidissem em sentido absoluto, viver-se-ia entre uma maioria de loucos, com consequências bem imagináveis.
  • A solução consiste em precisões e distinções terminológicas muito finas, estruturadas a partir das analogias com as doenças e com as artes.
    • Os homens são em geral sãos ou doentes, mas há muitas doenças entre si diferentes, e quem está doente sofre de uma das várias doenças, não de todas.
    • Analogamente, a arte é uma, mas dividida em muitas partes diferentes: há construtores, sapateiros, escultores e assim por diante, sendo todos artesãos.
    • Assim também para a insensatez: são loucos os que possuem grande parte dela, enquanto outros a possuem em menor medida, como os tolos, os embotados, os incapazes e os estúpidos, que são “todas formas de estultícia, mas diferem entre si como uma arte resulta diferente de outra arte, e uma doença de outra doença” [140 C].
  • Os sensatos são os que “não sabem nem uma nem outra dessas coisas” [140 E], e os insensatos, por não saberem o que devem fazer e dizer, agem sem se dar conta do que fazem.
    • Édipo não pensava estar pedindo males aos deuses, mas foi deles que advieram; outros estão convictos de pedir bens em suas preces, que depois se revelam males.
    • Alcibíades comportar-se-ia do mesmo modo se aceitasse a promessa divina de se tornar tirano de Atenas, de todos os gregos e dos bárbaros, sem perceber os males daí decorrentes.
    • Vários exemplos confirmam isso: a sorte de Arquelau, tirano da Macedônia; os males sofridos por quem tanto desejou obter o cargo de general; os que pediram aos deuses filhos que se revelaram maus ou morreram antes do tempo.
  • A ignorância é em si um mal, mas Sócrates precisa que, para alguns homens, em certas circunstâncias, a ignorância de certas coisas pode ser um bem.
    • Permanece sólido o princípio de que é sempre um mal não saber o que é o melhor, ou seja, a ignorância do bem.
    • Se Alcibíades tivesse a intenção de matar Péricles, seu tutor e amigo, achando que isso seria o melhor para ele, mas não reconhecesse Péricles, essa ignorância seria para ele um bem.
    • O mesmo teria ocorrido com Orestes, que não teria matado a mãe se não a tivesse reconhecido; portanto, “ignorar coisas como essas é melhor para os que se encontram em tais condições e que têm intenções desse gênero” [144 C-D].
  • A grande tese de Sócrates é que “o possuir as outras ciências, sem que seja acompanhado pela ciência do melhor, poucas vezes é útil, enquanto na maior parte dos casos é danoso para quem a possui” [144 D].
    • O termo usado para descrever o espanto de Alcibíades é atopon, muito forte, pois a tese invertia o pensamento comum dos gregos e, em certos aspectos, o dos Sofistas.
    • Essa afirmação se explicaria bem na boca do jovem Platão ou de um autor contemporâneo, mas dificilmente na boca de um tardio falsário, pois já seria então uma tese conhecida de todos.
    • Os que pretendem aconselhar a Cidade sobre a guerra, as construções de muros, as fortificações de portos e as relações com outras cidades só poderiam dar bons conselhos se conhecessem o que é melhor fazer e quando é melhor fazê-lo.
  • As várias competências técnicas, como a equitação, a aulética, a arte da guerra e todas as demais artes, são vantajosas apenas se unidas ao conhecimento de como e quando é melhor delas fazer uso.
    • Uma Cidade na qual predominassem técnicos desprovidos do conhecimento do melhor seria uma Cidade de escasso valor, pois cometeriam grande número de erros, confiando na opinião e sem ser capazes de refletir sobre o que é melhor fazer.
    • Sócrates reafirma com força: “É preciso, portanto, que uma Cidade ou uma alma que queira viver de modo justo se apegue a essa ciência, assim como quem está doente se apega ao médico e quem quer navegar com segurança ao piloto” [146 E-147 B].
    • A citação poética sobre aquele que “sabia muitas coisas” mas as sabia “todas mal” [147 B] ilustra o destino de quem possui muitos conhecimentos técnicos mas carece da ciência do bem.
  • Alcibíades deve pedir nas preces apenas coisas boas, seguindo o exemplo dos espartanos, que oram com reserva e sobriedade, em contraste com os atenienses e seus ritos suntuosos.
    • O poeta citado por Sócrates sintetiza a orientação correta: “Zeus rei, dá-nos os bens, seja que os peçamos na prece, seja que não os peçamos, mas afasta os males, mesmo que os peçamos na prece.”
    • Os deuses acolhem as preces dos espartanos melhor do que as dos atenienses com suas cerimônias pomposas; o mesmo ocorreu com os troianos, que lhes eram odiosos, e cujo sacrifício de cem bois não foi aceito.
    • Os deuses não se podem “corromper mediante dons como um mau usurário” [149 E], pois agem sempre em conformidade com o bem e não em troca de oferendas.
  • Sócrates conclui convidando Alcibíades a adiar suas preces ao deus, para não correr o risco de pedir males na errônea convicção de que sejam bens.
    • Para poder orar ao deus de modo conveniente, Alcibíades precisa primeiro aprender como deve comportar-se com os deuses e com os homens.
    • Para que isso seja possível, é preciso que haja alguém que saiba ensiná-lo, e esse alguém é quem cuida dele.
    • Antes de tudo, é necessário dissipar a névoa que há em sua alma, para poder encaminhar-se na via do conhecimento do bem e do mal; Alcibíades acolhe a mensagem de Sócrates e, em agradecimento, coroa sua cabeça com a guirlanda que havia preparado para a prece ao deus.
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