COUSIN: APOLOGIE DE SOCRATE
APOLOGIE DE SOCRATE. De Platon
*traduction due à Victor Cousin (1822) sur le site Philoctetes*
A acusação intentada a Sócrates, tal como ainda existia, no segundo século da era cristã, em Atenas, no templo de Cibele, ao relato de Favorino, citado por Diógenes Laércio, repousava sobre estes dois títulos: 1) que Sócrates não acreditava na religião do estado; 2) que corrompia a juventude, isto é, evidentemente, que instruía a juventude a não acreditar na religião do estado.
Ora, a Apologia de Sócrates não responde de maneira satisfatória nem a um nem ao outro destes dois títulos de acusação. Em vez de declarar que crê na religião estabelecida, Sócrates prova que não é ateu; em vez de fazer ver que não instrui a juventude a duvidar dos dogmas consagrados pela lei, protesta que sempre lhe ensinou uma moral pura. Como alegação, como defesa regular, não se pode negar que a Apologia de Sócrates não seja muito fraca.
É que ela dificilmente poderia não sê-lo, que a acusação era fundada, e que, de fato, numa ordem de coisas cuja base é uma religião de estado, não se pode pensar, como Sócrates, dessa religião, e publicar o que se pensa, sem prejudicar essa religião, e consequentemente sem perturbar o estado, e provocar, a longo prazo, uma revolução; e a prova está em que, dois séculos mais tarde, quando essa revolução eclodiu, seus mais zelosos partidários, em seus mais violentos ataques contra o paganismo, não fizeram senão repetir os argumentos de Sócrates no Eutífron. Pode-se admitir hoje, Sócrates eleva-se tanto como filósofo precisamente sob condição de ser culpado como cidadão, tomando este título e os deveres que ele impõe no sentido estrito e segundo o espírito da antiguidade. Ele mesmo conhecia tão bem sua situação que, no início da Apologia, declara que se defende apenas para obedecer à lei.
Qual é, portanto, o objetivo direto, o efeito real da Apologia de Sócrates?
É mostrar sob seu verdadeiro ponto de vista o caráter de Sócrates, e explicar o mistério da singular destinação que ele se havia feito em Atenas, fora da vida comum, não tomando parte alguma nos assuntos públicos, negligenciando os seus próprios, e não tendo outra ocupação senão propor questões a todos. A explicação deste mistério é uma missão superior de que Sócrates se crê encarregado. Ele crê que é chamado a tornar os homens melhores, a desmascarar a falsa sabedoria, a humilhar o orgulho do espírito diante do bom senso e da virtude, a reconduzir a razão humana da pesquisa ambiciosa de um saber quimérico e vão, ao sentimento de sua fraqueza, ao estudo e à prática das verdades morais. Tal é a missão que Sócrates recebeu: ela domina aos seus olhos todos os deveres e os interesses ordinários; é por ela que ele suscitou contra si tantos inimigos poderosos interessados na manutenção dos preconceitos que combatia; é ela que o faz comparecer perante o tribunal; e, antes que abandoná-la, declara que está pronto a selá-la com seu sangue.
Há mais; vê-se que reconheceu a necessidade de sua morte. Diz expressamente que não serviria de nada absolvê-lo, porque está decidido a merecer de novo a acusação agora levantada contra ele; que o exílio mesmo não pode salvá-lo, seus princípios, que nunca abandonará, e sua missão, que perseguirá por toda parte, devendo pô-lo sempre e por toda parte na situação em que está; que, enfim, é inútil recuar diante da necessidade, que é preciso que sua destinação se cumpra, e que sua morte chegou.
Sócrates tinha razão: sua morte era forçada, e o resultado inevitável da luta que havia engajado contra o dogmatismo religioso e a falsa sabedoria de seu tempo. É o espírito desse tempo e não Anito nem o Areópago que pôs em causa e condenou Sócrates. Anito, é preciso dizê-lo, era um cidadão recomendável; o Areópago um tribunal equitativo e moderado; e, se fosse preciso surpreender-se com algo, seria que Sócrates tenha sido acusado tão tarde, e que não tenha sido condenado por uma maioria mais forte.
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