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Eros
PLATON. Le banquet. Tradução: Luc Brisson. 5e éd. corrigée et mise à jour ed. Paris: Flammarion, 2007.
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O Banquete apresenta sete elogios no total — seis dedicados a Eros e o último dedicado a Sócrates.
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O elogio como gênero (epainos ou egkomion) designava originalmente um canto de boas-vindas ou de felicitação ao vencedor de uma prova atlética por um grupo (komos), sendo aplicado na época clássica a qualquer louvor em honra de uma pessoa ou coisa.
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Aristóteles na Retórica estabelece que o elogio começa pela definição da natureza do ser elogiado, passando em seguida aos benefícios que decorrem dessa natureza.
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Hermogênio define o elogio como “a exposição das qualidades pertencentes a um ser coletiva ou individualmente; coletivamente, por exemplo o elogio do homem, individualmente, por exemplo o elogio de Sócrates”.
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Os lugares do elogio segundo Hermogênio incluem o povo, a cidade, a família, os prodígios que acompanharam o nascimento, a formação, a educação, a natureza da alma e do corpo, a profissão, as ações e os elementos externos como riquezas e amigos.
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Os seis elogios de Eros evocados por Aristodemo apresentam diferenças consideráveis de conteúdo e estilo, criando a impressão de personagens bem distintos com personalidades e modos de expressão preservados.
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Os seis discursos podem ser agrupados em três pares em que cada discurso se opõe ao outro.
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Os dois primeiros pares — Fedro e Agáton, Pausânias e Erixímaco — têm como pano de fundo a teologia tradicional transmitida por Hesíodo e pela maioria dos poetas.
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O último par — Aristófanes e Sócrates — faz referência a movimentos religiosos mais atípicos: o discurso de Aristófanes revela influência órfica e o de Sócrates se inspira nos mistérios de Elêusis.
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Para Fedro e Agáton existe apenas um Eros, mas enquanto Fedro sustenta que Eros é o deus mais antigo, invocando os testemunhos de Hesíodo, Parmênides e Acousilaos, Agáton afirma ao contrário que ele é o mais jovem, o mais delicado e o mais ondulante.
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Para Fedro, a antiguidade de Eros o torna o deus cujos benefícios são os maiores, conduzindo os homens à posse do mérito e da felicidade tanto em vida quanto após a morte.
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Para Agáton, Eros é justo, temperante e corajoso, sendo essas as virtudes que ele suscita como benefícios em todos.
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Pausânias e Erixímaco consideram que existem dois Eros correspondentes às duas Afrodites — a Celeste (Ourania) e a Vulgar (Pandemos) —, mas enquanto Pausânias examina as consequências dessa dualidade apenas no caso dos seres humanos, Erixímaco a estende ao conjunto dos seres.
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Pausânias parte do postulado “todos sabem bem que não há Afrodite sem Eros” e distingue a Afrodite celeste — nascida do esperma que no mar escorre dos testículos cortados de Urano, segundo Hesíodo na Teogonia — da Afrodite vulgar, filha de Zeus e Dione, conforme a Ilíada.
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O Eros ligado à Afrodite vulgar volta-se tanto para mulheres quanto para homens, interessa-se mais pelo corpo do que pela alma e visa a realização do ato sexual; o Eros ligado à Afrodite celeste volta-se exclusivamente para os homens, interessa-se pela alma e preza a maneira de realizar o ato mais do que sua concretização.
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Erixímaco estende a distinção entre os dois Eros aos domínios da medicina, da música, da astronomia e da adivinhação.
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Na prática religiosa ateniense, Afrodite Ourania era invocada por cortesãs que buscavam um marido, e Afrodite Pandemos estava associada às Graças, cujo domínio abrangia a vida vegetal, o ciclo da reprodução e a harmonia entre os homens — realidades muito distantes do que propõem Pausânias e Erixímaco.
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No Banquete de Xenofonte, a distinção entre as duas Afrodites é diferente: Afrodite Pandemos suscita o desejo pelos corpos masculinos ou femininos, ao passo que Afrodite Ourania inspira o amor da alma, seja de um homem ou de uma mulher.
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O discurso de Aristófanes não descreve a natureza de Eros para depois mostrar seus benefícios, mas antes revela a potência do deus, o único capaz de curar o mal cuja cura constitui a maior felicidade para a espécie humana.
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A antiga natureza humana compreendia três gêneros — o macho, o andrógino e a fêmea —, sendo cada um desses seres duplo: quatro mãos, quatro pés, dois rostos opostos e dois sexos situados na parte posterior.
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A origem de cada gênero era indicada por sua forma circular: o macho era rebento do sol, a fêmea da terra e o andrógino da lua, que ocupa posição intermediária.
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À semelhança dos Gigantes Efialte e Oto, que quiseram escalar o céu para atacar os deuses, esses seres humanos se revoltaram, levando Zeus a cortá-los ao meio e a invocar Apolo para curar a ferida, da qual o umbigo é a última cicatriz.
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Cada metade buscava sua metade complementar com tal ardor que se deixava morrer de inanição, levando Zeus a transportar o sexo de cada metade para a parte anterior, tornando possível uma união sexual intermitente que, ao mesmo tempo, permite ao ser humano encontrar sua metade e lhe deixa tempo para outras atividades, especialmente a nutrição e a reprodução.
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Eros aparece como o único deus capaz de permitir aos homens reconstituir provisoriamente sua unidade, o que o torna mediador entre os opostos — céu e terra, deuses e homens.
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Aristófanes estabelece uma tipologia completa da vida sexual humana, incluindo a heterossexualidade e a homossexualidade masculina e feminina.
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Com Sócrates relatando as palavras de Diotima, o elogio do amor abre uma dimensão nova — a do inteligível —, onde o sensível e o inteligível representam polos opostos mas complementares.
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Sócrates formula três observações fundamentais: o amor é sempre relativo a alguma coisa; esse objeto é o belo indissociável do bem; e, como o amor implica o desejo que pressupõe a ausência de seu objeto, o amor deve sofrer de uma falta de belo e de bem.
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Eros não pode pertencer ao rango dos deuses, que são belos e bons, e deve ser considerado um daimon, ser intermediário entre os deuses e os homens.
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A origem de Eros remonta ao dia em que os deuses festejavam pelo nascimento de Afrodite: Expediente, filho de Métis, embriagado de néctar, adormece no jardim de Zeus, onde Pobreza “em sua penúria, teve o projeto de se fazer fazer um filho por Expediente”.
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De sua mãe Pobreza, Eros herdou a falta de belo e de bem; de seu pai Expediente, herdou a aspiração ao belo e ao bem, que só pode se tornar posse perpétua por meio de uma procriação segundo o corpo e de uma criação segundo a alma.
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A procriação segundo o corpo permite ao homem se perpetuar no belo e no bem ao nível do mundo sensível; a criação segundo a alma, que só se realiza no contato entre homens, permite encontrar a verdadeira imortalidade no nível do inteligível.
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Sócrates se opõe radicalmente a Aristófanes: enquanto para este a potência de Eros reside na união entre seres humanos no nível sensível, para Sócrates Eros permite passar do sensível ao inteligível, que constitui a realidade verdadeira.
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O Banquete apresenta cinco figuras diferentes de Eros: o Eros primordial mencionado por Fedro; o Eros que acompanha a Afrodite celeste, mencionado por Pausânias e Erixímaco; o Eros indissociável da Afrodite vulgar, também mencionado por Pausânias e Erixímaco; o Eros órfico aludido por Aristófanes; e o Eros daimon, filho de Expediente e Pobreza, apresentado por Sócrates ao relatar Diotima.
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Cinco dos seis discursos retomam temas comuns à teologia tradicional e ao orfismo: Eros é o deus que permite estabelecer relações não apenas entre seres humanos, mas também entre o céu e a terra e portanto entre os deuses e os homens.
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A relação sexual entre elementos masculinos ocupa o primeiro lugar reconhecido por todos os participantes, pois, além de assegurar satisfação sexual, orienta para a ação política, como indica Aristófanes, ou para a iniciação filosófica descrita por Sócrates ao relatar Diotima, culminando na contemplação do Belo e do Bem em si.
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A relação entre elemento masculino e feminino ocupa o segundo lugar por assegurar, além do prazer, a persistência da espécie pela procriação; a relação entre elementos femininos, da qual apenas Aristófanes fala, ocupa o último lugar.
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Essa tipologia se enraíza numa prática social efetiva: na Grécia antiga, a vida pública é reservada aos homens e as mulheres são relegadas à esfera privada, de modo que apenas as relações entre homens podem abrir para a política e para a vida cultural; mesmo em Safo, as relações entre elementos femininos podem se prolongar em criação literária.
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Cada discurso do Banquete é escrito num estilo diferente que manifesta a personalidade de seu autor, revelando as qualidades de escritor de Platão ao máximo grau.
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O discurso de Fedro, discípulo de Lísias, apresenta simplicidade estilística com certa elaboração, recorrendo a quiasmo, paronomásia, anacolutas e verbos supercompostos.
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O discurso de Pausânias é mais sofisticado, com uso elaborado de paronomásias, correspondências rítmicas entre membros de frase e períodos — cuja invenção Aristóteles atribui a Trasímaco e que caracteriza o estilo de Isócrates — e tripartições.
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O discurso de Erixímaco se caracteriza por clareza e sobriedade nos ornamentos literários, apresentando-se como um inventário dos casos não mencionados por Pausânias, com certa monotonia acentuada pela recorrência de fórmulas.
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O discurso de Aristófanes é apresentado como belo exemplo da prosa ática — simples, mas que evita tanto a estranheza e a monotonia de Fedro e Erixímaco quanto a sofisticação artificial de Pausânias e Agáton, com clareza casada à variedade e vivacidade da expressão.
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O discurso de Agáton, vazio mas magnificamente construído, manifesta a influência da escola de Górgias, com assonâncias, aliterações, membros de frase curtos e paralelos, elementos que provocam o comentário sarcástico de Sócrates: “E como, bem-aventurado Erixímaco, evitaria eu, como qualquer outro, me encontrar em apuro, quando devo falar após um discurso de tal beleza e tal virtuosidade?”
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O discurso de Alcibíades, embora pronunciado por alguém já muito embriagado e com certa incoerência na disposição dos elementos, demonstra grande domínio da expressão, com imagens frequentes, expressões elípticas e anacolutas.
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O discurso de Alcibíades não versa sobre Eros, mas sobre Sócrates, tendendo a assimilar Sócrates a Eros em vários planos.
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Nesse texto finamente cinzelado transparece, segundo o próprio autor, os sentimentos profundos e poderosos que Platão deve ter experimentado em relação a um Sócrates que parece ter sido para ele uma enigma fascinante.
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O primeiro paralelo entre Sócrates e Eros diz respeito à natureza de ambos: assim como Eros é “um caçador formidável que não cessa de tramar ardis”, Alcibíades se queixa de que Sócrates lhe arma emboscadas; assim como Eros vive duramente, Sócrates não frequenta banhos e anda descalço.
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O segundo paralelo concerne às qualidades e virtudes: assim como Eros é “apaixonado pelo saber e fértil em expedientes”, Sócrates mergulha em reflexões que podem durar muito tempo; assim como Eros é “um feiticeiro formidável”, Sócrates enfeitiça seus interlocutores pelo poder de sua palavra.
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Eros inspira coragem no combate, precisamente onde Sócrates demonstra conduta admirável; assim como Agáton considera Eros “um piloto e um defensor”, Sócrates protege Alcibíades ferido.
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Agáton celebra a ciência de Eros e Alcibíades louva em Sócrates uma inteligência e uma força de alma excepcionais; assim como os deuses honram o valor que Eros inspira, Alcibíades admira a natureza de Sócrates — sua moderação e sua coragem.
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Assim como Eros é por natureza maravilhosamente belo, para perceber a beleza de Sócrates é preciso libertá-lo de seu invólucro exterior, que lhe dá aparência de sileno.
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O elogio de Sócrates feito por Alcibíades ao final do Banquete constitui uma síntese dos elogios anteriormente dirigidos a Eros por Fedro e Agáton, Pausânias e Erixímaco, Aristófanes e Sócrates falando por Diotima.
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