Banquete
O termo «Banquete» traduz inadequadamente o grego symposium, que significa literalmente «bebedeira em comum». O symposium é uma instituição particular aos antigos gregos, que associa convivialidade e cultura. Segue-se ao deîpnon, a ceia que constitui a refeição propriamente dita. O vinho faz sua aparição ao final da refeição, sob a forma de uma libação de vinho puro. Depois os serventes limpam as mesas e o solo, e o symposium, no qual, num contexto competitivo, sucedem-se os brindes, os cantos, os discursos e as conversações, pode começar; ele prossegue até a alvorada, como é o caso no diálogo, em que Platão evoca o banquete oferecido por Agatão, o amado de Pausânias, para celebrar sua vitória no concurso de tragédias.
O Banquete relata sete discursos. Os seis primeiros, pronunciados enquanto os convivas bebem moderadamente, são elogios de Eros, a divindade do Amor, e o sétimo é um elogio de Sócrates por um Alcibíades completamente embriagado. Os seis elogios de Eros podem ser agrupados em três pares, onde cada um dos discursos opõe-se ao outro. Para Fedro e para Agatão, há apenas um único Eros. Todavia, enquanto Fedro sustenta que Eros é o mais antigo dos deuses, Agatão mantém, ao contrário, que é o mais jovem. Pausânias e Eríximaco, eles, estimam que há dois Eros, que correspondem às duas Afrodites, a Celeste e a Vulgar. Mas enquanto Pausânias examina as consequências dessa dualidade apenas no caso do homem, Eríximaco estende sua investigação ao conjunto dos seres. Finalmente, Aristófanes e Sócrates colocam o problema em outro nível. Para Aristófanes, Eros é o único deus que pode permitir-nos realizar aquilo a que tende todo ser humano: a união com a metade de si mesmo da qual foi separado por Zeus. E para Sócrates, que relata as palavras de Diotima, uma estrangeira de Mantineia, Eros não é um deus, mas um demônio, que, dada sua função de intermediário, permite transformar, numa posse perpétua, a aspiração para o Belo e para o Bem que todo homem sente por meio da procriação segundo o corpo, mas sobretudo segundo a alma.
O Banquete é muito próximo do Fedro pela beleza de sua escrita e por seu tema, Eros, o Amor, que permite à alma elevar-se da beleza do corpo, passando pela da ação e da alma, rumo à Beleza verdadeira. O discurso que Sócrates pretende transmitir de Diotima, e que, por intermédio da interpretação proposta por Marsílio Ficino na Renascença, conheceu uma renome imensa, é uma obra-prima em que a mais alta metafísica não cede em nada ao sublime literário. Quanto ao discurso de Aristófanes, que evoca a forma e as aventuras dos três primeiros tipos de seres humanos, dentre os quais o célebre andrógino, marcou os espíritos: a explicação da potência da atração mútua daqueles que se amam pela nostalgia de uma fusão primitiva entre as duas metades de um mesmo ser conserva toda sua potência evocativa.
O discurso de Diotima permite, além disso, melhor delimitar o tema subjacente do diálogo, o da educação, cujo um aspecto está sempre associado à sedução dispensada por Eros. Nos meios abastados de Atenas na época clássica, a educação estava ligada de forma quase institucional à homossexualidade por intermédio da paiderastía. A transmissão do saber, do poder e mesmo da riqueza fazia-se então no quadro de uma relação que apresentava um caráter sexual entre um adulto e um adolescente. A este modelo masculino da educação, Diotima propõe um modelo feminino associado ao parto: educar é, para o mestre, trazer à luz, no quadro de um diálogo com um discípulo, os belos discursos e as belas ações que ele já portava em si. Em Sócrates, que não possui nenhum saber, a relação educativa inverte-se: é ele que, por suas perguntas, faz parir o discípulo das opiniões ou dos saberes que portava em si, como é o caso no Mênon e como isso é explicado no início do Teeteto. (Luc Brisson)
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