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JOWETT: CÁRMIDES

Veja também: Coletânea de excertos da obra completa de Platão, na tradução de Jowett, indexados por termos relevantes

CHARMIDES, or, Temperance

*Persons of the Dialogue : SOCRATES, who is the narrator ; CHARMIDES ; CHAEREPHON ; CRITIAS. Scene : The Palaestra of Taureas, which is near the Porch of the King Archon.*

* O conceito de sophrosyne, fundamental ao pensamento grego e eixo central do diálogo Cármides, transcende as traduções convencionais de moderação, prudência ou recato, podendo ser compreendido como a harmonia ou a devida proporção entre os elementos superiores e inferiores da natureza humana, aproximando-se da noção de mente sã em corpo são que torna o indivíduo senhor de si mesmo, mantendo ainda um vínculo indissociável com a dimensão intelectual da sophia antes de ser relegada estritamente à esfera da virtude moral na posteridade aristotélica. * A investigação socrática sobre a essência da sophrosyne inicia-se com a provocação ao jovem Cármides, cuja beleza física e temperamento moderado personificam o ideal da kalokagathia, resultando em definições preliminares que identificam a virtude sucessivamente como uma quietude ou tranquilidade no agir, o que é refutado pela constatação de que a agilidade é frequentemente mais nobre que a lentidão, e como o sentimento de modéstia ou pudor, proposição invalidada pela autoridade de Homero ao afirmar que a modéstia não é benéfica ao homem necessitado. * A terceira tentativa de definição, que postula a sophrosyne como o ato de cuidar dos próprios negócios, introduz uma problemática ética complexa que antecipa debates da República, pois, embora tal máxima sugira uma ordem social funcional, Sócrates demonstra que a sua aplicação literal entraria em conflito com a divisão do trabalho necessária em uma cidade bem ordenada, visto que artesãos frequentemente produzem para outrem sem que isso anule sua moderação ou virtude. * A intervenção de Crítias altera o patamar da discussão ao distinguir o fazer do produzir, amparando-se em interpretações de Hesíodo para sustentar que a sophrosyne consiste na prática do bem, o que exige a inclusão de um elemento cognitivo que culmina na quinta definição: a virtude como o autoconhecimento ou o conhecimento de si mesmo, evocando o preceito délfico como fundamento da sabedoria humana. * A análise da sophrosyne como ciência do conhecimento conduz à investigação metafísica sobre a possibilidade de uma ciência da ciência, ou um saber que tenha como objeto tanto o que se sabe quanto o que se ignora, levantando dúvidas sobre a analogia dos sentidos e das relações, uma vez que a visão se volta ao visível e o amor ao belo, tornando problemática a existência de uma faculdade reflexiva que se relacione consigo mesma sem um objeto externo distinto. * O impasse dialético revela que, mesmo se fosse possível admitir um conhecimento que conhecesse a si mesmo, tal abstração seria incapaz de informar sobre conteúdos particulares das artes específicas, como a medicina ou a arquitetura, pois o saber que a temperança provê deve ser essencialmente útil e voltado para o bem, característica que a ciência pura do conhecimento não parece possuir de forma imediata ou suficiente para garantir a felicidade. * A constatação final de que apenas o conhecimento do bem e do mal é capaz de conduzir o homem à eudaimonia e ao sucesso prático coloca em xeque a autonomia da sophrosyne como ciência suprema, sugerindo que a felicidade não deriva da posse de todos os saberes técnicos ou reflexivos, mas da capacidade de discernir a utilidade ética das ações, o que leva ao encerramento aporético do diálogo onde a essência da virtude permanece indefinida apesar de sua prática ser reconhecida como o caminho para uma vida mais feliz. * A obra destaca-se por apresentar o ideal grego da alma bela em um corpo belo e pela concepção de medicina como uma ciência que deve tratar a totalidade do indivíduo, mente e corpo integrados, conforme a narrativa sobre os ensinamentos dos médicos trácios, além de evidenciar a tendência da época para distinções verbais minuciosas atribuídas à influência de Pródico e o uso de paródias literárias de poetas clássicos. * O valor dramático do encontro reside no contraste entre a simplicidade ingênua e infantil de Cármides e a sofisticação dialética de Crítias, homem de mundo dotado de verniz filosófico, sem que o texto faça alusão à infâmia histórica que recairia sobre ambos como membros do governo dos trinta tiranos, retratando-os apenas como cidadãos cultivados e vinculados à linhagem nobre de Sólon e aos ensinamentos de Sócrates. * A ausência de doutrinas platônicas mais maduras, como a teoria das ideias ou a reminiscência, somada à simplicidade estrutural e à temática voltada para a juventude, permite classificar o Cármides, juntamente com o Lísis e o Laques, entre os diálogos de busca ou investigativos que, embora ricos em questões metafísicas e lógicas sobre o sujeito e o objeto do conhecimento, terminam sem uma conclusão dogmática definitiva.

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