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Cármides

Diálogo vivo que se abre sobre uma cena encantadora, o Carmides, por suas ressonâncias éticas e políticas, pode ser lido como uma tentativa de lavar Sócrates da acusação de ter favorecido o advento dos Trinta tiranos, entre os quais se encontravam Carmides e Crítias.

O objeto da discussão do Carmides é a sophrosyne, uma das quatro grandes virtudes platônicas, juntamente com o saber (sophía), a justiça e a coragem. Na ética grega tradicional, a sophrosyne designa a disposição intelectual que permite ao homem julgar corretamente de forma a mostrar domínio de si. Neste diálogo, Platão não evoca o que aproxima a sophrosyne da enkráteia, a saber, o domínio de si em relação aos prazeres corporais; o termo sophrosyne é, portanto, traduzido não por “moderação” ou “temperança”, mas por “sabedoria”, termo que compreende duas dimensões, ética e epistemológica.

Como nos outros diálogos refutatórios, os interlocutores de Sócrates são censurados por encarnar, em positivo ou em negativo, a virtude que faz objeto da discussão. A sophrosyne sendo a virtude por excelência dos jovens e das mulheres, os vinte anos do belo adolescente Carmides fazem dele um interlocutor designado. Mas como explicar a presença de Crítias, primo de Carmides, com mais de trinta anos? O contexto político fornece elementos de resposta: Carmides e Crítias fizeram, de fato, parte do grupo dos Trinta tiranos cujo reinado efêmero foi sangrento. Ora, é precisamente sua ausência de sophrosyne que o Carmides busca demonstrar, o qual manifesta, além disso, uma intenção apologética: Sócrates não pode ser tido como responsável pelo destino trágico destes dois personagens que faziam parte de seu círculo.

No Carmides, seis definições da sophrosyne são examinadas. Carmides propõe três definições da sophrosyne, mas somente as duas primeiras, a calma (158e-160d) e a pudicícia (160d-161d), são dele, pois a terceira, “fazer suas próprias coisas” (161b-162b), é devida a Crítias, que, aliás, a ela retorna (162c-163d), quando assume o primeiro papel. Crítias propõe então três novas definições: a capacidade de fazer o bem (163d-164d), o conhecimento de si (164d-166c) e a ciência de si mesma e das outras ciências (166c-175a). A discussão a que dá lugar esta sexta definição é complexa: Sócrates mostra nela que a existência de tal ciência é improvável e que, se existisse, seria inútil. É no decurso desta discussão que Crítias dá da sophrosyne uma definição à qual poderia subscrever o Sócrates de Platão: “saber o que se sabe e o que não se sabe”. Se, além disso, como mostra Platão em outros diálogos, a sabedoria deve comportar um conteúdo positivo próprio para assegurar a felicidade, esse saber deve ser o do bem e do mal (174b-d). (Luc Brisson)

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