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III. CRÍTICA DA TEORIA NATURALISTA (428B-440E)

III. Sócrates/Crátilo. Crítica da teoria naturalista (428b-440e).

1. REVISÃO DOS POSTULADOS ANTERIORES (428b-435d).

A partir deste ponto, inicia-se um diálogo de surdos no qual Sócrates realiza uma crítica radical da teoria de Crátilo, fundamentando-se no postulado, anteriormente estabelecido, de que a denominação é uma arte imitativa, enquanto Crátilo repete incessantemente sua teoria, carente de novos argumentos.

A argumentação de Sócrates estrutura-se da seguinte forma:

a) Conforme estabelecido, a exatidão do nome consiste em revelar a essência da coisa; isto é, a linguagem é uma arte imitativa.

b) Sendo arte, haverá artesãos bons e maus; logo, o nome revelará a essência das coisas melhor ou pior conforme a quantidade de traços que manifeste de tal objeto.

Além disso, o nome é um retrato, ou seja, algo distinto da coisa — não uma aderência ou um duplicado dela, como sustenta o naturalismo de Crátilo. Assim como um retrato pode ser aplicado a quem não corresponde, o nome pode aplicar-se ao objeto que não lhe pertence; isto é, é possível falar com falsidade. Pela segunda vez, prova-se falso o célebre sofisma de que não se pode enunciar o falso.

c) O nome não apenas pode representar mal a coisa. De fato, por vezes representa o contrário, como ocorre com a palavra sklerotes, que significa para os atenienses o mesmo que skleroter para os eretrios; em um caso termina em s e no outro em r, elementos que significam noções distintas — r como movimento e s como agitação. Além disso, significando dureza, contém l, que denota o liso, o gorduroso, o viscoso, ou seja, o brando.

d) Contudo, ocorre o entendimento mútuo. Crátilo admite precipitadamente que tal fenômeno advém do costume (ethos). Ora, o costume nada mais é do que convenção (nomos). Com isso, Sócrates conduz Crátilo a admitir que a exatidão do nome reside na convenção.

2. ESBOÇO DE UM NOVO PONTO DE PARTIDA (435d-440e).

Todavia, esta tese fora rejeitada e Sócrates busca uma saída que supere as formulações iniciais de ambas as teorias.

Para isso, questiona novamente o interlocutor sobre a função dos nomes: o ensino ou a manifestação dos seres, responde Crátilo. Em seguida, Sócrates introduz uma sutil identificação entre conhecer e buscar ou descobrir os seres, desviando a refutação contra o próprio nominador, último baluarte de Crátilo. Sócrates postula a existência de um meio, distinto do nome, para conhecer e buscar os seres, pois o nome induz ao erro.

De fato, o nominador pode ter se enganado em seu juízo sobre a realidade. Crátilo objeta que todos os nomes são coerentes com a ideia de fluxo universal. Sócrates responde que o erro pode ter ocorrido no ponto de partida, forçando-se os demais termos à adequação a essa ideia. Inicia-se o reexame de nomes que sugerem a ideia de repouso, como episteme (ciência), ou termos negativos que se ajustam à ideia positiva de fluxo, como ignorância e intemperança.

Alcança-se uma aporia insolúvel. Os nomes encontram-se em conflito, indicando que o nominador não é um ser divino, como sugere Crátilo em tentativa desesperada. Portanto, não servem para conferir certeza sobre a realidade. O dilema implica renunciar ao conhecimento da realidade — se a linguagem for o único meio — ou recorrer a outro caminho: dirigir-se aos seres mesmos para conhecer, posteriormente, a exatidão de seus nomes. Sócrates recorre a um sonho frequente: os seres são em si — o bem em si, o belo em si —, do contrário não haveria conhecimento por inexistir sujeito ou objeto estável.

O diálogo encerra-se com a rejeição da filosofia de Heráclito e uma insinuação da teoria platônica das formas. Os personagens despedem-se com a promessa recíproca de continuar a investigação, sem que Platão deduza as consequências implícitas. O diálogo permanece inconcluso, mas a posição platônica é clara: a linguagem é um caminho inseguro para o acesso à realidade.

O Crátilo não é o único diálogo que trata o problema da linguagem, mas é o único que a trata como problema central. Contudo, a linguagem serve de pretexto para Platão estabelecer sua própria epistemologia e ontologia. Não é um estudo da estrutura linguística, mas um debate sobre sua validade para o conhecimento. O tema real é a orthotes (retidão ou exatidão) do nome.

Neste ponto, cabe fazer duas ressalvas: primeiro, não se trata da correta aplicação dos nomes, sentido da orthotes de Protágoras ou Demócrito. Platão refere-se à adequação da linguagem com a realidade, evidenciando que o problema real é epistemológico. Segundo, não se trata da exatidão da linguagem em geral, mas da exatidão dos nomes (orthotes onomaton) e dos nomes próprios, o que confere ao diálogo um início estreito. Embora Sócrates amplie o tema para nomes comuns e verbos, detém-se frequentemente na palavra individual.

O problema da orthotes é inserido na antinomia sofística physis/nomos. Tal oposição é anterior à distinção physis/thesis, e é questionável se fora formulada com tamanha amplitude antes de Platão. Tanto Crátilo quanto Hermógenes sustentam que os nomes são exatos. Para Hermógenes, são exatos kata nomon ou ethos (por convenção ou costume). Para Crátilo, são kata physin (ajustados à realidade) ou não são nomes.

a) A teoria convencionalista. É a sustentada por Hermógenes. Não se trata de uma teoria elaborada, dada a terminologia vaga (syntheke, homologia, nomos e ethos como sinônimos). Sócrates o conduz a afirmar que são exatos os nomes que cada indivíduo atribui, posição que contradiz a noção de convenção. O objetivo é vincular tal visão à epistemologia de Protágoras para refutá-la e demonstrar que a realidade não depende do sujeito e que é possível falar falsamente. O convencionalismo aparece em relatos da teoria humanista do progresso e pode ter raízes eleáticas; as premissas de Parmênides sugerem que nomes não correspondentes à realidade são pura convenção humana.

b) A teoria naturalista. Crátilo mantém uma teoria em que o nome é um duplicado da coisa. Disso derivam duas consequências: a impossibilidade de falar falsamente — pois emitir um som inadequado seria apenas um ruído sem sentido — e a ideia de que conhecer o nome é conhecer a realidade. Sócrates relaciona o naturalismo de Crátilo a Heráclito. Contudo, é questionável se da ontologia do fluxo se deduz tal teoria. Aristóteles apresenta Crátilo como um heracliteo radical que se limitava a mover o dedo, sem mencionar o naturalismo linguístico. Independentemente da solução desse impasse, a filosofia de Heráclito não é o único alvo de Sócrates. O naturalismo também se fundamenta na crença irracional da relação mágica entre nome e coisa e na tese de Antístenes, para quem a contradição é impossível. Platão parece atacar Antístenes sem nomeá-lo. A própria filosofia de Parmênides, ao negar a possibilidade do enunciado falso, serve de base para essa vertente.

c) A posição de Sócrates. Tentar deduzir de qual lado Sócrates se posiciona é desfocar o problema. Sócrates opõe-se a ambas as teorias para desvelar suas contradições e rejeitá-las ao final. Após rejeitar o convencionalismo de Hermógenes, parece aderir ao naturalismo, mas sua argumentação se voltará contra esta tese.

A seção etimológica, marcada pela ironia, ocupa grande parte do diálogo. Embora contenha intuições sobre evolução fonética, Platão utiliza-as como artifícios. Linguisticamente, a maioria das etimologias é absurda. Sócrates ridiculariza os procedimentos etimológicos dos sofistas, como Pródico e Protágoras. Contudo, essa ironia desemboca em uma teoria mimética da linguagem: a linguagem funciona como as artes imitativas, visando a essência das coisas. Se a teoria naturalista levou à mimese, esta acaba por invalidar o naturalismo. Crátilo é forçado a admitir que sua aceitação da mimese e da filosofia de Heráclito contradiz sua teoria da linguagem. Sócrates desqualifica o discurso como meio absoluto de acesso à realidade.

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