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Crátilo

A Antiguidade foi unânime em reconhecer no Cratilo o primeiro passo para a constituição de uma ciência da linguagem. Mas, há dois séculos, a evolução da linguística relegou esse diálogo à categoria de curiosidade: a conversa de Sócrates com Hermógenes e Cratilo parece carecer de seriedade e coerência, pois as etimologias evocadas se assemelham a trocadilhos ou palavras-valise. Esse julgamento negativo não faz justiça a um diálogo que deve ser lido com base em outros critérios.

O Cratilo trata da relação que pode existir entre as palavras e as coisas que elas designam. Sócrates primeiro faz com que o jovem Hermógenes, que defende uma tese convencionalista, reconheça que os nomes são instrumentos dotados de uma certa “natureza” para “ensinar as coisas”. Mas esses instrumentos são falíveis, como ele mostra em seguida a Cratilo, que defende uma tese naturalista. Personagem pouco loquaz que se apresenta como heracliteano, Cratilo não está totalmente convencido por Sócrates.

Quais eram os alvos de Platão ao escrever este diálogo que nos parece tão desconcertante? Mais uma vez, o filósofo ataca a dupla orientação que a educação (paideía) havia tomado na época. Ele se recusa a reduzir todo o conhecimento da época às suas origens, a leitura de poetas, e denuncia a exigência da interpretação “alegórica” que daí decorre, exigência da qual Eutífron dá um bom exemplo no diálogo homônimo, que se baseia na premissa errônea de um acesso possível à realidade bruta das palavras. Platão também luta contra as pretensões dos grandes tenores da sofística, Pródico e Protágoras, de explicar a etimologia baseando a linguagem no conhecimento do sensível. Para o Platão do Cratilo, os nomes são imagens das realidades verdadeiras, as Formas que se situam além do sensível. E é no Sofista que o problema colocado no Cratilo será resolvido. A retidão de um termo depende de um acordo sobre uma definição que explique “o que é” a realidade procurada e obtida ao final de uma discussão rigorosa que obedece às regras da dialética.

Considerado desse ponto de vista, o Cratilo torna-se um diálogo muito interessante que marca uma etapa importante na história da linguística. (Luc Brisson)

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