Crítias
Brisson
Todos já ouviram falar da Atlântida. Vários livros são dedicados a ela todos os anos, diversos projetos de exploração arqueológica buscam localizar seus vestígios, e a NASA chegou a batizar um ônibus espacial de Atlantis. Mas quem sabe que a fonte da história ligada ao nome desse continente desaparecido se encontra em Platão, no início do Timaeus (17a-27b) e no Critias? E que status atribuir a essa história: história ou ficção? Pontos de vista opostos continuam a se confrontar, mas tudo leva a crer que Platão, ao propor uma alegoria política, “inventou” o romance histórico. Ao narrar a luta travada pela Atenas antiga contra a Atlântida, Platão denuncia a Atenas marítima e imperialista de seu tempo (descrita sob as feições da Atlântida), em nome de uma Atenas terrestre e conservadora (descrita sob as feições da Atenas antiga), fiel ao seu passado glorioso.
Após uma introdução bastante longa (106a-109a), o Critias apresenta uma descrição da Atenas primordial (109a-113b), seguida de uma descrição da Atlântida (113b-121e). Em seguida, o relato é interrompido abruptamente, sem motivo aparente, deixando o leitor com especulações que não cessaram ao longo dos tempos. Pode-se dizer que se trata do primeiro e mais famoso “romance histórico” da história.
Gredos
O fragmento do diálogo está dividido em quatro partes: Uma introdução geral é seguida de uma descrição da Atenas originária à qual se opõe, em seguida, a de Atlântida. Finalmente, um epílogo interrompido anuncia o castigo divino por causa da degeneração paulatina.
I. Introdução (106a-109a).
a) Dificuldades metodológicas (106a-108a).— Após terminar seu discurso, Timeu invoca os deuses e Crítias solicita a benevolência do auditório: O objeto a tratar apresenta dificuldades especiais, além das próprias de toda exposição fidedigna de acontecimentos humanos.
b) Invocação de Crítias (108a-d). — Sócrates declara-se disposto a conceder sua benevolência, mas assinala a dificuldade em que se encontra Crítias após a brilhante intervenção de Timeu. Crítias invoca os deuses, especialmente a Mnemósine.
c) Resumo do relato (108e-109a). — Crítias anuncia que deve descrever em primeiro lugar as ordens políticas imperantes na Atenas primitiva e em Atlântida antes que se desencadeasse a guerra há 9000 anos.
II. Descrição da ordem política de Atenas (109b-112b).
a) Atribuição da Ática a Atena e Hefesto (109b-110c). — Em uma distribuição sem rixa da terra às diversas divindades, Atena e Hefesto obtiveram a Ática, que povoaram e organizaram politicamente. Crítias descreve por que essa tradição se perdeu.
b) Condições geográficas (110c-111d). — As condições geográficas da Ática naquela época permitiam uma população que tivesse uma casta de guerreiros que vivia separada praticando o comunismo e sem ocupar-se dos trabalhos agrícolas e artesanais. Crítias descreve os limites, a feracidade da terra e a abundância de água.
c) A cidade (111e-112e). — A acrópole estava habitada pelos guerreiros. O resto da população vivia ao redor. Narra-se sua forma de vida, seu número e sua virtude.
III. O império Atlântida (113a-120d).
a) Introdução (113a-b). — A situação em Atlântida e esclarecimento acerca da utilização de nomes gregos para os atlântidas.
b) Descrição geográfica de Atlântida (113b-115c). — A ilha de Atlântida é atribuída a Poseidão. Em sua planície central existe uma colina na qual habitavam os aborígenes Evenor e Leucipe, a cuja filha Clito, une-se Poseidão. Crítias detalha sua descendência e a divisão do país entre ela. Riquezas.
c) Descrição da acrópole e seus arredores (115c-117e). — Crítias faz uma descrição pormenorizada da cidade principal: as pontes, o palácio real, o canal que a une com o mar, os portos, os anéis de terra e mar, seus principais edifícios.
d) Natureza e ordem do resto do país (117e-118e) — Atlântida era de uma riqueza extraordinária por seus bosques, agricultura e animais. Descrição da planície.
e) Organização militar (118e-119b). — A organização militar estava baseada nas numerosas forças terrestres e navais que aportava cada um dos reis.
f) Forma de governo (119c-120d). — Os reis particulares tinham uma forma de cooperação estabelecida. Em suas assembleias deliberavam acerca do governo e julgavam as infrações que se pudessem ter cometido. Crítias enumera as leis que regulavam a ação conjunta dos reis.
IV. Degeneração de Atlântida e castigo de Zeus (120d-121c).
